novembro 2008

Reflexões do Fundo do Copo – A Trufa Branca e o Vinho

brenoNum Outubro de alguns anos atrás, escrevi que a trufa branca italiana é o investimento mais perigoso que alguém pode fazer na vida, mais perigoso do que caçar diamantes na África do Sul, mais ainda do que comercializar cocaína*. Tudo porque, a trufa branca vale em torno de €4000 o kg e se esvai em água, murchando, não apenas a aparência mas principalmente em perfume, 10% ao dia. Em cinco dias, não vale nem a diária do hotel em Alba ou em Volterra. Ou seja, quem joga na Bolsa de Valores nos dias de hoje, é muito mais conservador do que quem aposta suas fichas na trufa branca In Natura.

Diante de tal produto, valoroso e polêmico quanto o mais fino caviar, o mais delicado pistilo de açafrão, não dá medo indicar o vinho que o acompanha? Trufa branca fresca se come em lâminas com macarrão, polenta, ovo estalado na frigideira e não muito mais, pelo mesmo medo que dá ao escolher o vinho, pois um prato desses pode ser tão caro, que ai daquele molho que bancar o engraçadinho e desvirtuar a personalidade do dito cujo.

Em termos de harmonia conceitual, um elemento gastronômico desses é um perigo, adorado por uns tantos e odiado por multidões. Afirmo que não deve ser compartilhado por um vinho cinzento, sem personalidade. Mas não pode também ser daquele tipo de vinho que quer mandar no pedaço, jogar para escanteio todos os outros componentes presentes. Portanto, antes de considerar as características da trufa, noves fora, excluímos mais ou menos 80% dos vinhos do mercado; os pesados demais, que estão cheios de madeira para dar, os que estão cheios de fruta em compota para dominar, os onanísticos, que se bastam e os sem personalidade, aqueles que você não sabe nada sobre eles e jamais vai saber, porque eles são filhos de misturas solteiras e grandes produções.

O Juscelino do Piselli, no seu festival de trufas deste ano, faz o que muitos fazem – botou logo um Barolo no casamento, que é para garantir uma saraivada de expressões de admiração, no prato e na taça! A acreditar no site italiano www.vinoinrete.it , o cliente dele corre o risco de pagar um mico – aliás bem caro, por conta do preço do sólido e do líquido. Para este site, a sugestão de harmonização é clara e transparente, tem que ser um vinho que tenha buquê intenso e persistente, porém pouca estrutura, o que não é o caso.

Depois de passear por uns vinhos como um Rosso Conero, um Dolcetto delle Langhe, acaba caindo nos braços de um espumante seco da Franciacorta. Grandes vinhos tintos, estruturados e de guarda, vão bem apenas quando a trufa é acompanhada de um esconde-defeitos, como são os queijos de ralar…Os amigos Mauro Maia e Marcelo Copello, comprovaram isso, ao tentar harmonizar trufas no Supra, como relata artigo sobre o assunto, na revista Adega. 4 vinhos potentes e caros, Borgonha, Barbaresco, Rioja, e um excelente vinho andino para arrematar. Salvaram-se todos mas só na hora do queijo!

Minha ousadia cresce quando, no site http://www.nove.firenze.it,  leio o resultado de uma disputa que houve em San Giovani D’Asso, no ano de 2006, entre 7 DOCG toscanos para saber qual deles harmonizava melhor com o dito nobre tubérculo subterrâneo. Brunello de C.Banfi, Carmignano Tenuta di Capezzana, chianti Donatella Colombini, Podere Terreno, Vernaccia di San Gimignano… “A Dama Branca dá Xeque Mate na Rainha Tinta e chega ao trono da sua majestade, a trufa branca (que em italiano é tartufo – ou seja – masculino). É a Vernaccia o seu melhor acompanhamento.”

Quinze caras votaram, com certeza interessados em garantir a sempre presente supremacia dos tintos. E quem ganhou foi um branco gastronômico. E qual é a moral da história? É a mesma de sempre, siga a sua vontade, não tenha medo de errar e parta de qualquer lugar, menos daquele chamado “preconceito”.

Breno Raigorodsky; filósofo, publicitário, sommelier e juiz de vinho internacional FISAR

Brasil, Vinhos que Tomei e Recomendo – I

Ao longo dos tempos tenho tomado diversos vinhos brasileiros. Aliás, nos idos de oitenta não havia muitas opções, ou era isso ou tinha-se que ter o bolso bem recheado pois os importados eram caríssimos. Hoje existem muito mais opções no mercado, mas sempre tento provar os nossos nacionais e tenho visto um enorme salto de qualidade no produto. Acho que a nível comercial ainda há muito o que fazer já que é difícil encontrar os produtos, exceção feita a umas três ou quatro vinícolas maiores, nos diversos pontos de venda. O próprio consumidor conhece pouco de nossos produtos o qual olha com certo preconceito baseado em más experiências de anos anteriores. Por outro lado, em um ano de atividade tive somente um convite para degustação de vinhos brasileiros, a Cordilheira de Santa’Ana, a qual comentarei mais adiante, enquanto não tenho dedos para contar todos os convites que recebi de diversas importadoras. Isto, obviamente, reduz o nível do garimpo, conhecimento e capacidade de divulgação.

Por sinal foi incrível o baixo retorno das vinícolas, a grande maioria sequer se dignou a responder aos e-mails enviados, quando lhes informei do painel sobre vinhos brasileiros que estava realizando. Nada contra, ninguém precisa me atender e isto não é uma reclamação ou desabafo, cada um age da forma que acha devida e há que se respeitar isso, somente uma constatação de que o trabalho de pesquisa e garimpo certamente ficam prejudicados e esta ausência de informações, de acordo com conversas com diversos outros atuantes na área, parece ser uma característica do setor. Ou seja, o que quero externar, é minha opinião sincera de que grande parte das vinícolas brasileiras, obviamente que existem exceções e falo de forma genérica, são vitimas de seus próprios erros na ausência de uma política adequada de divulgação e distribuição. Num mercado competitivo que nem o Brasil, entre os quatro principais no mundo em termos de diversidade, com cerca de 18.000 rótulos só de importados, quem ficar sentado na vinícola esperando o cliente chegar ………

Enfim, o problema é mesmo dos produtores, não nosso e já dei palpite demais sobre esse assunto. Como consumidores o que queremos é tomar bons vinhos com bons preços e ter uma certa facilidade de acesso aos rótulos que mais gostamos. Nesse sentido, creio poder lhes sugerir alguns rótulos bastante interessantes, uns mais conhecidos, outros menos, baseado em minha experiência. Começo pelos mais baratos, como sempre faço, lembrando que as safras de 2002, 2004 e 2005 foram muito boas e são uma boa pedida para se procurar nas lojas, especialmente a 2005. Quanto aos vinhos brancos, melhor tomar o mais jovem possível e a safra de 2008 tem apresentado bons produtos.

 

Até R$30,00 uma série de vinhos que não têm a intenção de serem grandes, mas que são muito bons para o dia-a-dia e estão prontos a beber.

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  • A Miolo tem uma linha bastante grande de produtos, mas dentro desta faixa de preços os que mais me entusiasmaram foram o Miolo Reserva Merlot os Fortaleza do Seival Tempranillo e o branco Pinot Grigio. Uma ressalva, o Tempranillo 2005 estava muito bom porém não tenho tido boas informações sobre o 2006 então a safra é importante.
  • Marson Reserva Cabernet Sauvignon é um outro vinho de grande relação custo x beneficio que surpreende por suas qualidades com taninos finos e elegantes, muito harmônico, copro médio e saboroso passando seis meses em barrica de carvalho americano e mais seis meses em garrafa nas caves, uma bela pedida.
  • Marco Luigi Merlot, mais uma prova de que a nossa principal uva é a Merlot com bons produtos nesta faixa de preços e alguns ótimos em faixas acima. Um vinho muito redondo, equilibrado, boa fruta madura, boa acidez, muito apetecível com taninos macios e agradável final de boca.
  • Fausto Rosé da Pizzato, um rosé de merlot muito frutado, boa acidez, bem refrescante que acompanha muito bem comidas leves como um peru à Califórnia.
  • Adolfo Lona corte de Merlot/Cabernet 2004, um vinho diferente e bastante interessante com um nariz muito floral e intenso que assusta num primeiro momento mas que se encontra bem resolvido na boca com taninos doces, redondo e saboroso.
  • Cordelier Merlot, existe o reserva elaborado com uvas selecionadas, sem passagem por madeira e mais tempo de cave, e o básico com somente uns 4 meses de cave antes de ser lançado ao mercado e que vem acondicionado em uma garrafa que imita garrafa envelhecida. Os dois são bons, mas eu curto mesmo é o da garrafa envelhecida que tem uns aromas e paladar bem marcantes e uma ótima pedida pelo preço em torno de R$15 a 17,00, apesar de que o Reserva não fica atrás e pouco mais custa.
  • Rio Sol, um vinho surpreendente e, apesar de ser o mais barato da linha com preço ao redor de 20 Reais, é um dos meus preferidos. Corte de Cabernet Sauvignon com Syrah, é um vinho muito equilibrado, harmônico e saboroso que substitui amplamente a grande maioria dos vinhos nesta faixa trazidos do Chile e da Argentina.
  • Angheben Barbera 2007, provei ontem e é realmente uma grande pedida nesta faixa de preços, mostrando bom equilíbrio, taninos macios, médio corpo, redondo e muito agradável de tomar. O Touriga Nacional de que falam tanto não me conveceu e é bem mais caro.
  • Aurora Varietal Cabernet  Sauvignon e Merlot, são dois vinhos para aqueles dias de caixa baixo, já que estão abaixo do 20 Reais, mas que não negam fogo. São corretos, ligeiros, fáceis de beber e bastante agradáveis sendo ótima companhia para um belo sanduba de fim de semana, um caldo verde ou uma carne grelhada não muito condimentada.
  • Salton Volpi. Quero finalizar com esta linha de produtos da Salton que acredito ser uma das melhores, se não a melhor relação Qualidade x Preço x Satisfação no mercado. A Salton também possui uma linha mais barata, a Classic, que é correta, ligeira mas não me encanta. Já a linha Volpi recomendo sem pestanejar, especialmente o Merlot que é sempre muito bom, de taninos doces e sedosos num corpo médio, muito saboroso e de média persistência, um dos bons merlots nacionais e uma aposta certeira nesta faixa de preços, e os Pinot Noir e Sauvignon Blanc que tive o grato prazer de provar ontem. O Pinot 07 está em outra faixa de preços, falo depois, mas o Sauvignon Blanc 08 me encantou e conquistou desde a primeira fungada na taça! Surpreendente porque, apesar de ter alguns vinhos brancos nacionais de que gosto são poucos os que realmente me encantaram e este é uma delicia. Com baixo teor de álcool (11.9º), muito balanceado, nariz intenso em que aprece uma goiaba branca muito presente, e olha que meu nariz é meio fraquinho, frutado na boca, muito boa acidez o que o torna fresco, agradável e fácil de tomar deixando na boca aquele gostinho de quero mais.
  • Casa Valduga Premium. Esta linha possui vinhos de muita qualidade, porém com somente um rótulo que conheço e que cabe nesta faixa de preços, sendo um dos outros brancos nacionais de que gosto muito. É o Gewurtzraminer, que apresenta muita tipicidade com aqueles aromas florais e lichia, muito saboroso e ótima companhia para pratos orientais apimentados como curry de frango ou camarão.

É isso gente, conforme for dando vou publicando a seqüência dos posts sobre o Brasil já que ainda existe muito por falar e começo a receber novas e interessantes informações. Um abraço, bom fim de semana e amanhã tem a Coluna do Breno, depois no Domingo novidades, oportunidades e eventos. Volto na segunda-feira, Salute e kanimambo.

Kanimambo Especial

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Na segunda-feira publico o post sobre a confraternização de aniversario que fizemos no Villa, mas hoje e sem demoras, um enorme Kanimambo; aos amigos que estiveram presentes, aos que por diversos motivos não puderam estar, aos patrocinadores e parceiros que nos ajudaram desde o primeiro dia da coluna e sem os quais não chegaríamos até aqui, aos que chegaram agora e apoiaram sobremaneira o evento tornando-o viável, aos felizardos ganhadores, que aproveitem com sabedoria os doces néctares, aos amigos de longe que vieram de Campinas e Rio de Janeiro, aos mestres que se fizeram presentes e me deixaram especialmente feliz, á família que agüenta e participa, aos amigos que apóiam este projeto, a todos os leitores que participaram mas não puderam estar presentes, enfim, a todos aqueles que acreditam na desmistificação e democratização do mundo do vinho.

Começamos pelo jornal Planeta Morumbi, embrião de tudo, e chegamos no blog, que nada mais é do que a revista diária da coluna só que com outra dinâmica e maior alcance, razão pela qual vai aqui um kanimambo muito especial para o Henrique Farina, o editor do jornal e co-aniversariante. Salute, um brinde a todos vocês leitores da coluna e aos assíduos leitores de Falando de Vinhos espalhados pelo Brasil afora e alguns países ao redor do mundo, que fazem com que este blog siga crescendo mês a mês.

A imagem é do envelope lacrado que cada um dos sorteados recebeu com seu prêmio. Nele, duas citações que exemplificam bem o meu pensamento e a linha de trabalho que sigo. Mais que o pequeno detalhe que pode, eventualmente, fazer a diferença, o importante é a satisfação obtida, as emoções despertadas e o caráter e personalidade que só um vinho diferenciado, não necessariamente caro, pode nos dar. Os vinhos escolhidos para os prêmios são uma mostra desta premissa e deste conceito, e espero que consigamos seguir garimpando bons néctares a bons preços para poder compartilhar com os amigos por vários anos mais.

Salute e kanimambo.

Vinoteca e Muito Mais no Empório Santa Maria!

Muito já foi falado e mostrado sobre um novo brinquedo, Enomatic,no mais recente parque de diversões para os amantes do vinho em São Paulo, a Vinoteca Santa Maria. Um equipamento que tem a capacidade manter garrafas de vinho na temperatura adequada e em boas condições depois de abertas por prazos de até 30 dias, apesar de isso muito raramente ocorrer! Desenvolvida para o serviço de vinho e taças em restaurantes, vinotecas, wine bars e estabelecimentos similares, o equipamento está sendo trazido ao Brasil, com exclusividade, pelo pessoal da Saint Marche, novos proprietários do Empório Santa Maria aqui nos jardins, em São Paulo. Da forma com que o novo espaço da Vinoteca Santa Maria foi montado, existe uma disponibilidade para oito rótulos brancos e 40 de tintos o que faz a festa de qualquer apreciador de bons vinhos. Insere-se um cartão magnético no equipamento e, automaticamente ele fornece o preço de cada vinho por tamanho de dose. Existe a dose degustação de 30ml, a de 60ml e a tradicional de 120ml, o bastante para matar a vontade sem grandes rombos no orçamento. Conforme se vai consumindo o cartão vai somando a despesa e totalizando, existindo, desta forma, um total controle dos gastos. Pelo que me foi passado, no futuro existirá também uma versão de cartão pré-pago para os mais descontrolados. rsrs

Tem de tudo, vinhos novos, vinhos de guarda, do novo mundo, do velho, clássicos, enfim um pouco de cada estilo de vinhos disponível no mercado. Dá para curtir alguns vinhos interessantes sem gastar muito, até porque os preços são bem comedidos devido a uma política de margens bastante honesta e justa, podendo matar nossa vontade de grandes vinhos por uma pequena parcela do preço de uma garrafa. Veja só esta lista como referência e uma idéia do que se poderá encontrar por lá, lembrando que os rótulos podem, e certamente irão, variar um pouco. Tem Barolo, Brunello, Chablis, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Malbec, Bordeaux, Pinot Noir, uma seleção de belos vinhos a escolher, veja só algumas dicas indicativas lembrando que preços e rótulos podem diferir, até em função das eventuais altas de preço em função do Dólar, porém a qualidade dos vinhos disponíveis será sempre nesse patamar;

 

Vinho e Safra

País

30ml R$

60ml R$

120ml R$

Pêra Manca 06 Branco

Portugal

7

14

28

Cloudy Bay 04 Branco

Nova Zelândia

5

10

20

Peter Lehman Riesling 06 Branco

Austrália

4

8

15

Achaval Ferrer Malbec 06

Argentina

4

8

15

Don Melchor 04

Chile

13

26

52

Tabali Reserva Especial 06

Chile

3

6

12

Marques de Murrieta Res. 02

Espanha

6

11

23

Chateau La Nerthe Chateauneuf du Pape 02

França

9

18

36

Il Bruciato 05

Itália

5

10

20

Casanova di Neri Brunello di Montalcino 02

Itália

13

26

52

Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas 05

Portugal

6

12

24

 

Se em qualquer restaurantezinho, vinho a taça tipo Gato Preto é servido fora de temperatura, em taças duvidosas e custa entre R$8 a 14, dá para entender o quão excelente é essa relação de qualidade x preço x prazer! Veja como usar:

 emporio-st-maria0002

 

A Vinoteca tem um buffet muito bom no almoço, a la carte no jantar, o que faz com que a diversão aumente de intensidade com a possibilidade de se brincar de harmonizar de uma forma dez, sem gastar muito só usando doses de 30ml e combinando com os vários deliciosos pratos disponíveis. Mais, se for em mais de uma pessoa, cada um pode brincar do seu jeito! Por isso chamo este local de um verdadeiro playground, não é só a maquina, é o que ela proporciona de opções. Mas o lugar não é só a Vinoteca e a Enomatic. Tem uma incrível loja da Expand com uma vasta coleção de rótulos e grande diversidade tanto de produtos como de preços, tem um supermercado gourmet de primeira, totalmente reformulado, bonito e repleto de gostosuras, tem um café, tem uma padaria genial, um setor de frios e queijos excepcional, mais um setor de vinhos de boa diversidade e bons preços, enfim, uma “armadilha” enogastrônomica de lamber os beiços sem contar o serviço de primeira, gentil e eficiente com valet service gratuito.

Estive lá há alguns dias e olhem só o que descobri na gôndola de vinhos: Espumante Marson Brut por R$28,00 muito bom e imperdível pelo preço / Tribu Pinot Noir R$23,00 da Trivento, mais uma vinícola do grupo Concha Y Toro, surpreendente pelo preço / Norton Malbec DOC 05 por míseros R$28,50 / Amado Sur um inusitado corte argentino de Malbec, Bonarda e Syrah de médio corpo e muito saboroso por apenas R$45,00 e um magnífico Chateau La Nerthe Chateauneuf-du-Pape de R$209,00 por 167,20 um achado  e uma ótima compra para quem tem o bolso um pouco mais recheado.

Com esta disponibilidade, preços e diversidade de produtos e rótulos, tinha que o incluir em nossa categoria de “Amigos do Vinho”. Enfim, um ótimo lugar que recomendo aos amigos e, quem sabe, não nos encontramos por lá uma hora dessas? Salute e kanimambo.

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Brasil, Regiões Produtoras – I

Bem, cá vamos nós para mais uma volta por nossa vinosfera nacional. Antes de iniciar falando sobre as regiões, vejam alguns números adicionais que consegui obter. Estamos hoje com cerca de 90 mil hectares de vinhas plantadas para elaboração de vinhos e derivados, gerando cerca de 570 milhões de quilos de uvas diversas. Deste volume, a Wines from Brazil estima que cerca de 10.000 hectares se destinam ao cultivo de Vitis Vinifera para produção de vinhos finos. Nestas vinhas, algumas cepas aparecem com destaque especialmente a Cabernet Sauvignon e Merlot. De qualquer forma, me absterei de falar muito mais de números porque as fontes são poucas e as informações muito pouco claras quando não incongruentes. Assim que der tentarei me aprofundar mais nessa pesquisa.

 

Rio Grande do Sul é a mais importante região produtora de vinhos no Brasil e a mais organizada do ponto de vista de daos e informações. O embrião de tudo e a mais antiga, sendo responsável por cerca de 90% do total de vinhos produzidos no país, apesar de que acho que este número deva estar defasado. São três sub-regiões; A Serra Gaúcha que inclui entre outras sub-regiões e mais conhecida, única com Indicação de Procedência, o Vale dos Vinhedos em Bento Gonçalves (Bento Gonçalves, Garibaldi, Monte Belo), a Campanha Gaúcha (Santana do Livramento, Lavras, Alegrete, São Miguel e Candiota) na fronteira com o Uruguai e Serras do Sudeste (Pinheiro Machado e Encruzilhada do Sul). Na Serra Gaúcha, afora o Vale dos Vinhedos, outras áreas estão em processo de avaliação para instituir a denominação de Indicação de Procedência. São elas, de acordo com o site do vinho brasileiro (link aqui do lado), Vinhos de Montanha (Pinto Bandeira), Altos Montes (Flores da Cunha e Nova Pádua) e Monte Belo do Sul.

A Serra Gaúcha detém algo ao redor de 310 produtores dos quais os mais importantes são a Miolo, Casa Valduga, Lídio Carraro, Marco Luigi, Pizzato, Dal Pizzol, Cordelier, Boscato, Don Laurindo, Salton, Marson e Don Candido entre outras. Na verdade, existem mesmo cerca de umas 40 a 50 que realmente possuem alguma presença significativa no mercado. Solo ácido e arenoso, alto índice pluviométrico que, ainda por cima, atinge as vinhas no período de amadurecimento e na época da colheita forçando o produtor, muitas vezes, a colher a uva antes do tempo, não são as melhores condições climáticas para produção de vinhos de qualidade. Por outro lado, esta alta acidez e baixo teor de álcool decorrentes da colheita antecipada, são ótimas para a produção de bons espumantes que requerem grande frescor. Saul Galvão destaca que essas são condições similares às encontradas em Champagne onde os vinhos tranqüilos não são grande coisa, mas geram maravilhosos espumantes.

As principais uvas são Merlot e Cabernet Sauvignon. Como coadjuvantes vemos Cabernet Franc (em declínio) sendo seguida por cepas que vêm ganhando bastante espaço como a Tannat, Egiodola, Ancelota, Marselan, Tempranillo e Malbec entre as tintas. Nas brancas, a Moscato é a principal e usada na elaboração de delicioso vinhos espumantes, a Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling Itálico e Gewurtzraminer  com alguns pequenos lotes de diversas outras cepas. Apesar das dificuldades climáticas e de solo, os produtores vêm investindo forte nos vinhedos, em tecnologia, em conhecimento e desenvolvimento de novos produtos buscando seu lugar ao sol num mercado cada vez mais competitivo. Como poderemos ver mais á frente nos posts que virão com vinhos que Tomei e Recomendo, tanto em varietais como em cortes, a região tem produzido vinhos de muito boa qualidade com preços bastante competitivos exceção feita a alguns rótulos bastante caros. De qualquer forma, são ótimas opções a uma série de vinhos estrangeiros de origem afamada, porém de qualidade duvidosa.

É desta região também, que saem os melhores espumantes nacionais entre eles o Excelence de Chandon, Salton Evidence e Salton Ouro Brut, Miolo Millesime, Valduga 130, Valduga Premium Prosecco, Dal Pizzol Brut Champenoise e o Dal Pizzol Rosé, Pizzato Brut, Marco Luigi Reserva da Família Brut 06 e o excelente Moscatel, Marson Brut e outros muito conceituados, mas não provados, como os da Cave Geisse, Peterlongo, Don Candido, Aurora, etc. O que não faltam são rótulos de qualidade e adequados a cada momento e cada bolso, com mais ou menos complexidade. Pelo que tenho provado, lido e escutado, creio que posso afirmar que somos hoje a quarta maior força mundial na produção de espumantes de qualidade ficando atrás somente da França, Itália e Espanha.

A Campanha Gaúcha acompanha quase que toda a fronteira com o Uruguai e teve como pioneira a Vinícola Almadén em Santana de Livramento. Os investimentos que chegam para esta região são em grandes propriedades diferentemente da Serra Gaúcha que tem como peculiaridade as pequenas propriedades. É uma região mais fria com menor índice pluviométrico, apesar de ainda bem considerável para o cultivo de Vitis Vinífera. A topografia também ajuda na produtividade em função de ser plana, possibilitando a mecanização das lavouras. As uvas são todas nobres entre elas as principais são a Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat, Tempranillo e Touriga Nacional nas tintas e nas brancas a Chardonnay, Riesling, Sauvignon Blanc, Trebbiano, Semillon e Chenin Blanc. A Miolo com o projeto de Quintas do Seival e Fortaleza do Seival, é uma das principais vinícolas ativas na região. Eu gosto muito dos produtos da Cordilheira de Santa’Ana produzidos em Paloma na região de Santana do Livramento. Têm uma personalidade muito própria, creio que muito a ver com o terroir, produzindo dois brancos muito bons; o Gewurtzraminer e o Chardonnay assim como um bom Tannat que leva um corte de 15% de Merlot para amaciá-lo. O Cabernet Sauvignon também agrada bastante.

A Salton parece que também esta investindo na região que demonstra grande potencial de desenvolvimento. De acordo com Rosana Wagner, da Cordilheira, não existem números oficiais, porém aparentemente já são cerca de 1125 hectares de novos vinhedos. Uma região a ser acompanhada e provada de perto apesar do número de vinícolas ainda ser pequeno, algo ao redor de uma meia dúzia.

Serra do Sudeste, mais uma região nova de poucos players, ainda. Com condições climáticas similares ás de Campanha, mas mais ondulada e solo granítico. Lídio Carraro é um dos pioneiros da região, assim como o inventivo Tormentas. Angheben, Casa Valduga, Chandon, De Lantier e Aliança são outras vinícolas investindo nesta nova  e promissora região. Parece ser uma região aberta à experimentação com o plantio de cepas menos tradicionais como Teroldego, Castelão (piriquita), Barbera e Alicante Bouschet entre as já tradicionais castas tintas.  De acordo com o Saul Galvão, um dos melhores brancos nacionais que ele já tomou veio daqui e era um Gewurtzraminer, conseqüentemente vamos ficar de olho. Tenho ouvido falar muito do Barbera da Angheben, por exemplo, então há que provar os vinhos vindo destas novas fronteiras vinícolas.

Campos de Cima. Fiquei na duvida se mencionava esta sub-região já que a produção é pequena e praticamente se restringe a um projeto do empresário Raul Randon com a Miolo que gera o vinho RAR e algo de Marco Danielle, o mesmo do Tormentas, com a Vinha Solo. Pouco mais consegui encontrar sobre esta parte mais alta da Serra Gaúcha que inclui cidades como Muitos Capões, Vacaria, Cambará do Sul e Jaquirama a cerca de 1000 metros de altitude. Para efeito de localização, ali perto de Canela e Gramado. Bem como estava no mapa do Site do Vinho Brasileiro, agora está aqui o que consegui descobrir sobre este pedaço da Serra Gaúcha.

  Por enquanto é só meus amigos, na próximo post sobre as regiões produtoras, falarei sobre Santa Catarina e os vinhos de altitude originários de vinhedos plantados entre 900 a 1400 metros.

Salute e kanimambo.

Uncle Scrooge e os Preço dos Vinhos

                 Há poucos dias, me disseram que, ao escrever neste blog, passo a impressão de que sou um pão-duro, munheca, sovina, muquirana, um “Uncle Scrooge” do vinho. Quem me conhece sabe que sou tudo menos isso, aliás, chego a ser um pouco, até já fui mais quando o bolso assim o permitia, perdulário. O que sempre me incomodou na vida foi de jogar dinheiro fora. Não me incomodo de gastar, dentro dos meus limites, mas incomoda-me sentir roubado e ser feito de trouxa. Não receber pelo preço, qualquer que seja, o justo valor do que paguei, é uma coisa que me irrita.  Quero receber o justo prazer pelo que paguei. Se pago um café R$5,00 e não estou em Veneza, Milão ou Paris, então espero que seja um BAITA café e que o serviço seja à altura do que desembolsei. É o tal negócio, algo pode custar muito dinheiro e não ser caro. Por outro lado, podemos pagar uma ninharia por alguma coisa, e este preço vir a ser extremamente caro.  Aliás, há coisas que, de graça, são caras! Há quem possa, e não se incomoda, pagar absurdos por uma garrafa de vinho ou um jantar num dos melhores restaurantes, nada contra, muito pelo contrário se isto lhe der prazer ou lhe for importante do ponto devista de status. Cada um sabe de si, e não existe aqui nenhuma forma de patrulhamento, muito pelo contrário. Cada um faz o que quiser com o dinheiro que honestamente ganhou e que, de certo, suou e sacrificou muito para ter e chegar a essa situação privilegiada, só não vale cartão Corporativo do Governo, aí já é sacanagem. Só que, este blog, não trabalha em função dessa minoria e sim da grande maioria dos consumidores, é outro projeto e outro conceito. Quero vinho bom por preço bom e, há espaço para isso, basta querer rever estratégias. Melhores Vinhos por Melhores Preços, essa é a filosofia.

              Todavia, quando se tem conhecimento de custos e preços internacionais, se tem oportunidade de viajar, quando se estuda e se lê bastante, quando se navega pelas diversas lojas on-line disponíveis por esse mundo afora, as comparações se tornam inevitáveis. Nosso nível de exigência, cresce na mesma proporção que o nosso conhecimento. Por exemplo, ao fazer um trabalho sobre Espumantes, verifiquei que um deles custava em 2001, cerca de USD32. Hoje, ele custa cerca de USD 75 (já com a nova taxa do Dólar, porque antes era 98)! Não tem nada que justifique isso e, certamente, o produtor pouco vê desse aumento absurdo. Quando vou a um restaurante, peço a carta de vinhos e verifico que o proprietário dobrou o preço (de empório ou loja), isto quando não ultrapassa este fator, me sinto roubado e perco o apetite. Daí a importância de restautantes Amigos do Vinho como o Villa, que trabalham com margens honestas nos possibilitando momentos de prazer enogastronômicos sem perigo de rombos enormes no bolso. Sei que estes estabelecimentos compram com desconto e, nenhum serviço, pode justificar tamanha diferença de preço. Obviamente que, nesse tipo de lugar, dificilmente volto a colocar os pés.

              Ainda existe no Brasil, um ranço antigo, de que o negócio é ganhar muito em cima de poucos quando, em economias mais avançadas, há muito já se entendeu de que o segredo da longevidade e saúde empresarial é exatamente o inverso e isso vale para os impostos também! Muitos já mudaram, como boa parte dos lojistas que são a parte frágil da equação, mas existem segmentos da economia que resistem ao tempo e ao bom senso. Por isso seguimos tendo um consumo de vinho per capita tão baixo. Não é só por razões culturais e climáticas não, a razão econômica e o coeficiente qualidade X preço, são fatores preponderantes a serem considerados, mesmo, ou talvez até mais, quando de vinhos nacionais! Agora, enquanto houver quem paga sem pestanejar ……

               Melhor mesmo, é quando me surpreendo. Quando recebo em troca do valor pago, e, repito, qualquer que seja o montante, mais prazer do que esse valor pago. Aí, me sinto ganhador e, em sendo uma ótima sensação, vou querer mais, sempre! Como profissional de mercado (comercial & marketing) que sou, acredito, piamente, que a longevidade de qualquer empreendimento se baseia na troca justa, no famoso ganha x ganha. Seja na qualidade do produto, na simpatia e eficiência do serviço, no aconchego do local, tudo deve se conjugar para nos trazer, neste caso,  o prazer da mesa, o prazer do vinho, o prazer da vida!

             Pão durisse? Sou bastante autocritico e penso que não. De qualquer forma, o mundo não se molda às minhas necessidades e minhas crenças. Tem que existir de tudo para todos e, o que busco, é achar os produtos e locais de justo retorno que atendam minha necessidade e compartilhar isso com os amigos. Se existe gente que se sente incomodado, paciência, eu também não me sinto à vontade de saber que um determinado vinho custa Euros 18 na Europa e, aqui, custa seis vezes mais, quando o razoável, baseado na nossa estrutura de impostos e cadeia de distribuição e comercialização, seriam umas três vezes nos vinhos de menor valor e de duas a duas e meia nos vinhos de valor mais alto! Não me sinto à vontade sabendo que um vinho é vendido por R$30,00 na maioria dos locais e, em determinado supermercado custa R$48,00, que o vinho na prateleira custa R$37 e o restaurante me pede R$76,00 e, por ai vai.  Ainda mais quando alguns importadores já se valendo da valorização do Dólar e com bastante gordura para queimar, saem dando aumentos que, pasmem, chegam a incríveis 25%! Com tudo o que já tivemos de aumento este ano, ainda mais esta?! Desculpem, preciso desabafar, mas depois não entendem porque o consumo não evolui e/ou os estoques estão altos!!! 

           Posso pagar? Talvez possa, não vem ao caso, mas não pagarei, afora por uma ou outra eventual, muito eventual, estripulia! De minha parte só comprarei daqueles que não aumentaram e, mais do que nunca, vou garimpar e separar o joio do trigo. Existem aqueles que baixaram preços quando o Real se valorizou, existem aqueles que trabalhavam com margens enxutas e preços baixos e nesses casos se entende eventuais alterações.  De resto mon ami, é hora de botar as barbas de molho e refletir sem entrar em furadas lembrando que o apressado come cru.

Salute e kanimambo.

“Os homens são como os vinhos. A idade azeda os maus e apura os bons”.

Marcus Cícero – Filósofo, orador e escritor Romano. 
 

Mailly Champagne Grand Cru

Para comemorações em grande estilo, a sugestão é o Champagne Mailly Grand Cru Brut Reserve. Esta bebida dos deuses se destaca entre seus pares franceses, feitas de uvas provenientes de vinhedos especiais, classificados como grand cru, é composta de 75% Pinot Noir e 25% Chardonnay, apresentando um tom amarelo dourado claro e brilhante, de aroma complexo de brioche tostado e paladar sem igual. Tive a oportunidade de provar este Champagne muito especial na última Expovinis e realmente me encantou por sua leveza e finesse. Sua perlage é abundante, persistente e fina com sur-lie de 3 anos que lhe dá profundas notas de fruta com ótimo frescor que mexem com nossas pupilas gustativas. Um Francês vibrante e muito elegante que me encantou tanto que tenho duas garrafas na adega, pedido que fiz a uma amiga que esteve em Paris recentemente.

A vinícola foi fundada em 1929 e mantêm seu compromisso e original vocação de produzir uvas em um solo excepcional para buscar sempre os melhores frutos. Um dos poucos vinhedos Grand Cru, somente 17, entre os 324 crus da região a Mailly produz espumantes exclusivamente com uvas de sua propriedade e somente néctares 100% Gand Cru. Não é barato, nem poderia, mas é um grande espumante do jeito que eu gosto, com muito frescor, intenso mas leve, de grande persistência e muito saboroso. Um elixir para momentos especiais.

A Champagne-Mailly chega ao Brasil pela Ana Import com cinco de seus produtos: Brut Réserve; Brut Rosé, Le Feu, L’Intemporelle e Les Enchansons. Seus preços partem de R$ 247, 00, para o Brut Reserve. Quer conhecer mais do produtor, clique aqui.

Salute e Kanimambo.

Reflexões do Fundo do Copo II – Presente Certo Na Hora Errada

              Foi na pizzaria Bráz. Que triste estar lá com o amigo aniversariante e sua mulher, mais os amigos do amigo e os amigos de sua mulher. Como fui infeliz… Levei um Chianti Clássico Giorgio I (Primo)1994, um vinho que adquiri ainda na época em que o Jorge Lucki era sócio de uma importadora, quando o Real havia emparelhado com o Dólar, num efêmero momento maravilhoso para quem gosta de vinho! Certamente uma prova de apreço e consideração pelo aniversariante e também orgulho para quem presenteia por saber escolher tão bem!

             Apesar de levar a fama de SuperToscano, o Giorgio I é um vinho que leva a tarja com o galinho preto exclusivo dos DOCG Chianti Classico*, um espécime com excelente pedigree**. Não se tratava de nenhum ilustre desconhecido, fazia parte daquele lote que a gente se entusiasma faz um esforço e divide a caixa com amigos, 3 garrafas para cada um. E uma das minhas 3, tinha me representado com muita classe em uma degustação de vinhos toscanos, cujo “pingo” era dispor de uma garrafa para participar. 20 comensais torcendo para seus 20 vinhos.

            Pois o tal Giorgio I chegou entre os melhores, concorrendo contra vinhos muito mais conhecidos no Brasil, como os chiantis das grandes importadoras, os SuperToscanos e até 3 Brunellos. O comandante em chefe daquela degustação, o Vincenzo Venitucci, proprietário do Familia Venitucci, polêmico restauraurador de consagrada competência (anos e anos com duas estrelas do Guia Quatro Rodas), um filho pródigo de Lucca, Toscana, vaticinou para que os 20 participantes bem ouvissem – Os melhores foram os chiantis, não foram? Grandes chiantis são previsíveis ano a ano… Quem sabe uma de suas principais características. Diferente dos seus irmãos de pele grossa e grossa pretensão, os instáveis Brunello di Montalcino!

           Presente dado, o presenteado não sabia da importância do vinho que acabava de ganhar, um produto 7 vezes “3 bichieri” para o Gamberorosso**. Agradeceu sem prestar muita atenção, e foi logo pedindo ao garçom que abrisse a tal garrafa que ele comemoraria lá mesmo, com aqueles 8 amigos, com aquela comida. Afinal, em sua memória tudo estava de acordo, nada melhor do que um chianti clássico numa pizzaria para comemorar! Tentei usar de toda a minha autoridade (?) de grande conhecedor (?) de vinhos, em vão, dizendo que em tese ele tinha toda a razão do mundo, mas que aqui estávamos falando de um vinho muito importante, exigente. Todos me chamaram de pretensioso, metido, enochato e outras coisas que o editor desta prestigiosa revista virtual não permite publicar. Apesar de não ter a típica e ultrapassada garrafa gorda revestida de palhinha, que por muitos e muitos anos foi marca registrada deste vinho tão aclamado pela colônia italiana ultramar, tratava-se mesmo de um chianti, vinho de cantina, vinho de pizzaria, vinho de mesa, melhor companhia líquida para a sólida macarronada da mama, aos domingos!

           O Giorgio I é um chianti, mas pouquíssimos chianti são como um Giorgio I. Balbuciei que não era vinho para ir se abrindo assim e tomando como se fosse Coca-Cola… Tarde demais. O mau resultado não se fez esperar. Fui ouvindo reclamações de todos, que de bocas cheias de pizza calabresa e mussarela, pediam para que eu fosse imediatamente destituído do cargo honorário de “Entendido em Vinhos” da turma! Envergonhado e ofendido com tanta imprecaução, mas tranqüilo – como devem permanecer os que são mártires das boas causas – mantive-me impávido colosso, bebericando quieto, não o grande vinho que trouxe, mas um outro que pedi, um vinho simples e camarada, um chianti jovem servido em taça, feito para acompanhar o pedaço de pizza quente. Ao meu lado mantive protegido o motivo desta reflexão numa outra taça, intacto, à espera do momento certo para ser devidamente apreciado, uma hora depois!

Por Breno Raigorodsky

* Não está entre os seguidores do Antinori que, com seu Tignanello abriu a porteira daqueles que querem usar o terroir toscano para fazer vinhos com uvas internacionais. O DOCG cedeu hoje em dia e até aceita 20% de uvas autóctones menos importantes ou Cabernet sauvignon e merlot, mas mantém 80% de uva Sangiovese, com um mínimo de 12,5º de álcool para o vinho reserva contra apenas 12º para o vinho jovem, com um descanso de 24 meses, dos quais ao menos 3 em madeira, com as vinhas no território delimitado entre Sangiminiano e Siena.

**um dos mais sérios certificadores de vinho da Itália, co-autor do Slowfood