Uvas & Vinhos

As Uvas Brancas de Portugal

Em Portugal as uvas brancas abundam de Norte a Sul e eventualmente você poderá até se deparar com uma Chardonnay, Sauvignon Blanc e Gewurztraminer aqui ou acolá, porém o país é berço de uma série de castas muito interessantes sendo o país que, por km², possui a maior seleção de uvas autóctones, são cerca de 250 diferentes variedades . Portugal tem a cultura dos vinhos de lote (corte, assemblage, blends, etc.) com duas ou mais uvas, porém nas uvas brancas a vinificação delas como monocastas, em estreme (varietais) são bastante comuns especialmente com as castas Encruzado, Alvarinho, Arinto, Loureiro e Antão Vaz. Hoje vou listar algumas das principais castas brancas locais e em que região encontrá-las. Entre nessa viagem e curta os bons vinhos brancos lusos, garanto que não faltará prazer!

Folha - albarino_alvarinho1Alvarinho – Região do Minho (vinhos verdes) em especial na sub região de Monção e Melgaço onde atinge seu apogeu! Existe em algumas outras poucas regiões onde um ou outro eventual rótulo poderá se sobressair, porém em nenhuma outra é tão exuberante. Vinho marcado pelo aromas florais (laranjeira, tílias) e sabores que nos remetem a frutos de boa acidez como a grape-fruit e laranja.

Folha - antao_vazAntão Vaz – a marca da Região do Alentejo onde é, por muitas vezes, elaborado em blend com a Arinto e a Chardonnay, porém é comum sua vinificação em monocasta. Normalmente dá vinhos de maior corpo com notas aromáticas que lembram acácia, e erva cidreira e na boca frutos amarelos como pêssego, manga e damasco com acidez moderada. Vinhos que se mostram melhor após dois ou três anos em garrafa.

Folha - Arinto-parraArinto – Muito presente no Minho e Douro, onde também é conhecida como Pedernã, é também encontrada em diversas outras regiões, porém com maior destaque na Região Lisboa, especialmente no DOC Bucelas onde aparece como monocasta, assim como no Alentejo onde aporta acidez nos lotes com Antão Vaz.

Folha - AvessoAvesso e Azal – uvas essencialmente usadas na elaboração de vinhos verdes na Região do Minho, mas que elaborados como monocasta resultam em vinhos bastante interessantes. A Azal é mais floral com sabores mais cítricos, enquanto a Avesso dá vinhos um pouco mais encorpados e harmoniosos.

Folha - BicalBical – é típica da região das Beiras, nomeadamente da zona da Bairrada e do Dão (onde se denomina “Borrado das Moscas”, devido às pequenas manchas castanhas que surgem nos bagos maduros). A par da casta Maria Gomes, a Bical é uma das mais importantes castas da região. Esta casta é de maturação precoce, por isso os seus bagos conservam bastante acidez. Os vinhos produzidos com esta casta são muito aromáticos, frescos e bem estruturados. Na Bairrada a casta Bical é muito utilizada na produção de espumante

folha - Cerceal-Br-folhaCerceal – Também grafada como Sercial, é cultivada em diferentes regiões vitícolas. De acordo com a região pode apresentar características ligeiramente diferentes. São conhecidas a Cercial do Douro e do Dão, a Cerceal da Bairrada e a Sercial da Madeira, também denominada de Esgana Cão no Douro. As principais características das variedades da Cercial são a elevada produção e boa acidez. Mais presente nas Beiras (Bairrada/Dão/Beira Interior) em lote com a Bical e Maria Gomes.

Folha - encruzadoEncruzado – a rainha dos brancos no Dão, produz vinhos exuberantes, complexos e únicos com boa longevidade. Os vinhos são de cor citrina, com bom teor alcoólico e com uma grande delicadeza, elegância e complexidade aromática, com notas vegetais, florais e minerais.São finos e elegantes no sabor, denotando um notável equilíbrio álcool/ácidos.

Folha - godello_gouveioGouveio – mais presente no Douro, aparece também no Dão. É tradicionalmente usado em blend com a Viosinho e outras uvas regionais, porém sendo ótima opção na elaboração de espumantes. Vinhos que apresentam um excelente equilíbrio entre acidez e álcool, caracterizando-se pela sua elevada graduação, boa estrutura e aromas intensos. Além disso, são vinhos elegantes com boa capacidade para uma boa evolução em garrafa.

Folha - fernao_piresMaria Gomes – conhecida por esse nome no centro e norte de Portugal, especialmente na região da Bairrada, é designada como Fernão Pires mais ao sul onde também tem papel preponderante nas regiões Tejo, Lisboa e Setúbal. Gera vinhos muito aromáticos (lichia, rosas, tilias) maior teor alcoólico, mas com uma certa falta de acidez o que a faz ser usada na maioria das vezes como complemento em blends de vinhos brancos.

Foto - loureira_loureiro1Loureiro – mais uma uva com forte presença essencialmente na região do Minho. Menos acídula que a Alvarinho, gera vinhos muito equilibrados de muito boa intensidade aromática onde predominam as notas cítricas e florais. Na boca mostra-se tradicionalmente muito harmoniosa com nuances de casca de laranja, nectarina e algo de maçã verde. Apesar de ser vinificado, mais recentemente, como monocasta é comum a vermos associada com a casta Trajadura, Arinto e Alvarinho nos vinhos de lote denominados Vinhos Verdes.

Folha - viosinho1Viosinho – casta típica da região do Douro, também Trás os Montes, onde é muito usada em vinhos de lote com Gouveio e Malvasia Fina entre outras. Produz vinhos bem estruturados, frescos e de aromas florais complexos. Normalmente são também alcoólicos e capazes de permanecer em garrafa durante largos anos.

           Outras uvas regionais menos importantes; Rabigato (Douro/Dão/Minho), Malvasia fina (Beiras e Douro), Siria ou Roupeiro (Alentejo e Tejo), Rabo de Ovelha e Perrum (Alentejo), Trajadura (Minho). Bem, por hoje falei só das castas brancas, mas em breve retorno ao tema com uvas tintas tradicionais portuguesas que são mais um monte! Salute, kanimambo e uma ótima semana para todos lembrando que se alguém quiser adicionar algo, fique á vontade.

Fontes de pesquisa: Infovini / Guia de Vinhos ProTeste / Comissões reguladoras vitivínicolas / Vine to Wine Circle.

Uvas Brancas, Vamos Navegar?

 

caravela1No total, falamos de mais de 1250 uvas vitis viníferas em uso (das 3 mil existentes), entre tintas e brancas, produzindo vinhos em mais de 520 regiões e 45 países, então é para colocar as barbas de molho quando alguém chegar te falando que conhece tudo de vinho, pois ele certamente ainda tem muito a aprender !

Dessas, pelo menos umas 350 (se alguém tiver um número mais próximo por favor avise) são brancas e a maioria dos seguidores de Baco só conhece uma meia dúzia, tipo; Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling, Gewurztraminer, Semillon e eventualmente a Torrontés da nosssa vizinha Argentina e a Pinot Grigio italiana? Tá passado da hora de expandir os horizontes não acha? Existe um mundo enorme de sabores a serem explorados em países como Itália, Espanha, Portugal, Alemanha e a festa não tem hora para acabar ainda por cima com o calor que anda fazendo! Está na hora de começar a correr atrás do prejuízo e conhecer essa enorme variedade de deliciosos vinhos elaborados com uvas diferentes e pouco conhecidas.

Sou um apaixonado por vinhos brancos, costumo dizer que é a pós graduação no mundo do vinho, e não canso de experimentar sendo este post uma decorrência da escolha de uns vinhos para a degustação de uma confraria. Fica difícil escolher entre tanta coisa boa no mercado e mais do que recomendar vinhos, recomendo a viagem por algumas destas uvas. Escolha uma e saia procurando um vinho. Peça para os amigos fazerem o mesmo, não podem ser os mesmos rótulos, marque na casa de um e juntos descubram novas sensações! Eis uma listinha (adoro listas! rs) com uma série de dicas de uvas brancas a serem descobertas, boa viagem!!

Uva

País de Origem e Principal Região

Albillo

Espanha/Ribera del Duero

Aligoté

França/Borgonha

Alvarinho ou Albariño

Portugal/Minho e Espanha/Rias Baixas

Antão Vaz

Portugal/Alentejo

Arinto

Portugal/Lisboa e Alentejo

Assyrtico

Grécia

Avesso

Portugal/Minho

Azal

Portugal/Minho

Bical

Portugal/Dão e Beiras

Catarrato

Itália/Sicilia

Chenin Blanc

França/Loire e África do Sul

Encruzado

Portugal/Dão

Falanghina

Itália/Campania

Furmint

Hungria

Garganega

Itália/Veneto

Gouveio

Portugal/Douro

Grechetto

Itália/Lazio e Umbria

Greco di Tufo

Itália/Campania

Grillo

Itália/Sicilia

Gros e Petit Manseng

França/Madiran e la Gascogne

Gruner Veltliner

Áustria

Inzolia

Itália/Sicilia

Loureiro

Portugal/Minho

Maria Gomes ou Fernão Pires

Portugal

Marsanne

França/Rhône e Languedoc

Muller-Thurgau

Alemanha/Franken

Muscadet

França/Loire

Pinot Gris

França/Alsácia e Nova Zelândia

Rabigato

Portugal/Douro

Rjgialla

Itália/Friulli

Roussane

França/Rhône e Languedoc

Siria

Portugal/Beira Interior

Sylvaner

Alemanha/Franken

Trebbiano

Itália/Abruzzo

Verdejo

Espanha/Rueda

Verdicchio

Itália/Marche

Vermentino

Itália/Sardenha e Toscana

Viognier

França/Rhône

Viura (Macabeo)

Espanha/Rioja

Kanimambo, salute e seguimos nos vendo por aqui, nas degustações da vida ou na Vino & Sapore onde estarei até este Sábado esperando esvaziar a prateleira de promoções. Depois, muita coisa nova e em Fevereiro já uma gostosa programação de degustações temáticas, inclusive uma de brancos diferentes! Ótimo fim de Semana para todos.

A Influência das Castas na Elaboração de Blends.

        Meus amigos, qual a influência das castas na formação dos blends? O que busca o enólogo quando usa uma ou outra uva em maior ou menor escala? Eis aí um tema extremamente complexo com uma enormidade de variáveis, pois depende de cada Terroir e região produtora, porém este conhecimento das castas e suas influências objetiva a busca, essencialmente, da excelência na produção de vinhos. Recentemente recebi da Ana Grimaldi (RP da ótima Herdade da Malhadinha no Alentejo) uma curta e objetiva lista de cepas plantadas na vinícola que o enólogo da casa usa. Eu achei muito interessante pois nos ajuda a melhor entender esses vinhos e outros da região, por isso compartilho com vocês.

Cepas Brancas

Antão Vaz – pouca acidez ,mas tem uma boa fruta tropical (abacaxi) e normalmente dá vinhos com boa estrutura e untuosidade. (pessoalmente acho que faz lembrar bem a Chardonnay*)

Roupeiro – casta essencialmente de lote, vinhos neutros, mas limpos de aroma.

Verdelho – tem-se mostrado muito frutado e com notas minerais, em termos de prova também dá vinhos com boa boca.

Arinto – grande acidez, nariz um pouco mais contido e sério. Bom potencial de envelhecimento

Chardonnay – gordo, frutado, primeira casta a ser vindimada normalmente

Viognier – quando maduro é exuberante no nariz, flores brancas e aroma a pêssegos dominam a prova. Acidez relativamente baixa.

Cepas Tintas

Aragonez (Tinta Roriz no Douro e Tempranillo em Espanha) – taninos macios e notas de fruta vermelha quando maduro, baixa acidez. Se for colhido verde dá vinhos muito taninosos e desequilibrados

Touriga Nacional – exuberância aromática, violeta, bergamota e alguma laranja mesmo. Bom corpo e bons taninos

Syrah – casta que dá aos vinhos estrutura mas ao mesmo tempo elegância. Notas de fruta preta, violeta e algum animal. Vinhos com potencial de envelhecimento

Tinta Miúda (Graciano em Espanha) – casta cada vez mais importante possui grande acidez natural. Vinhos não tão exuberantes e fáceis como das outras castas, mais elegante, notas de terra. Taninos firmes gerando vinhos com potencial de envelhecimento

Cabernet Sauvignon – Aporta notas vegetais mesmo quando  está madurão, grande estrutura e taninos bem presentes.

Trincadeira (Tinta Amarela no Douro) –notas de alguma ameixa passa; predominando um aroma herbáceo associado a especiarias e alguma pimenta,; na boca, os vinhos são geralmente macios e com algum acídulo, mostrando notas semelhantes ao aroma. No geral, apresentam boa aptidão para envelhecimento.

Alicante Bouschet – base dos tintos da região, esta casta tintureira origina vinhos muito concentrados de cor, ricos em substâncias fenólicas (encorpados) com aromas vinhosos bem evidentes lembrando compota de ameixa bem madura.

         Óbvio, que só isso não adianta sendo o homem um elo essencial na formação do Terroir. O conhecimento, o cultivo das vinhas (é de lá que se originam os bons vinhos), a criatividade e tecnologia, tudo colabora para conseguir gerar grandes vinhos como são os da Malhadinha! Com esse conhecimento das castas e suas influências, no entanto, dá para se ter uma ideia do que o enólogo pretendia elaborar ao fazer determinada mescla de uvas. É uma verdadeira alquimia que quando bem executada, os portugueses são mestres nisso, resulta em vinhos de qualidade pois se tira de cada uva o que esta tem de melhor. Desta forma, na maioria das vezes o resultado são vinhos bem mais complexos e interessantes do que vinhos monocasta. No caso da Malhadinha, ótimos!

       Salute, kanimambo e uma ótima semana para todos.

Seis Syrahs no Saca Rolhas

        Tenho degustado muita coisa legal em diversas degustações fora e também na Vino & Sapore, mas a falta de tempo não me tem permitido colocar no papel e tela essas experiências. Uma destas ocorreu ainda esta semana quando a confraria Saca Rolhas se reuniu para degustar vinhos Syrah de diversas origens. Uma bela degustação com um patamar de qualidade muito boa. Dois rótulos australianos, um francês, um português, um chileno e um sul-africano disputaram o título de melhor da noite.

Knappstein Shiraz 2008 (Austrália)– vinho de boa tipicidade da região, fruta madura, boa acidez, taninos equilibrados e um final de boca macia é um vinho redondo e fácil de gostar que possui uma ótima relação Qualidade x Preço x Prazer. Daqueles vinhos que, mesmo não sendo arrebatadores, terminam rápido na taça e pedem mais uma! (R$85)

St. Joseph Brunel de la Gardine 2007 (França/Rhône)– é sempre um prazer levar este vinho á boca por sua complexidade, riqueza de sabores e forma como ele se abre na taça tanto no sentido olfativo como no palato. Mais uma vez mostrou que é um vinho muito agradável porém se dá melhor com comida do que solo. Belo vinho, muito equilibrado, sem arestas e o quarto melhor do painel o que mostra que degustamos coisa muito boa nesta noite. (R$105)

Secreto Syrah 2009 (Chile)– na cor já mostra toda a sua diferença de terroir e conceito, mostrando-se cremoso na boca, fruta bem madura, boa estrutura, madeira bem presente, mas tem algo mais nessa composição do que somente Syrah, só não sabemos o quê e o produtor não diz! Saboroso, mas um degrau abaixo dos demais. (R$71)

Schild Estate Shiraz 2008 (Austrália/Barossa)– um senhor vinho que demora a abrir no olfato mas explode na boca causando um emaranhado de sensações. O 2005 já era muito bom e reinou por muito tempo nas diversas degustações que promovi ao longo dos últimos 4 anos, mas este chegou para chacoalhar o mercado e não é á toa que chegou onde chegou na avaliação da critica internacional, em especial da Wine Spectator que o destingiu com o sétimo lugar entre os top 100 de 2010. Muito rico, fruta madura (ameixa vermelha?) perfeitamente equilibrada com uma acidez no ponto e taninos muito finos e elegantes, um final de boca interminável em que aprecem nuances de tabaco, baunilha e pimenta. Não sei se é um blockbuster, mas certamente é difícil encontrar um vinho desta qualidade por pouco mais de 100 Reais. Faturou a noite com cinco primeiros lugares entre os doze participantes presentes, valendo cada tostão! (R$110)

Corte de Cima Syrah 2009 (Portugal/Alentejo)– para mim a maior surpresa da noite, um alentejano de grande qualidade que seduziu a maioria a ponto de alcançar a segunda posição da noite tendo sido para alguns o vencedor! Equilibrado, macio, madeira bem integrada, frutado e suculento, final muito saboroso, especiado, envolvente e de longa persistência, fazendo jus á fama deste produtor é uma das estrelas do Alentejo possuindo um portfolio de muita qualidade. (R$98)

Raka Biography 2009 (África do Sul) – escuro e denso mostrando-se muito equilibrado despertando sensações diferentes e alguns “uaus” entre os confrades e confreiras presentes. Talvez a melhor garrafa deste vinho que já tive oportunidade de provar. Aromas intensos e muito peculiares (café tostado/mineral/tabaco), encorpado, entrada de boca impactante mostrando uma personalidade muito própria e diferenciada de todos os outros vinhos tomados. Chegou de mansinho e levou o terceiro lugar da noite. (R$97)

        Este é somente nosso segundo encontro e já alcançamos, a meu ver, um patamar de qualidade muito bom com vinhos de preços médios. Agora é seguir garimpando trazendo á prova outros rótulos na busca de novas sensações e sabores. Junte os amigos você também, monte sua própria confraria  ou participe de degustações pois é uma ótima e agradável forma de ganhar litragem e descobrir os rótulos que mais lhe agradam sem ter que gastar muito,  transformando sua próxima compra em algo mais seguro reduzindo o risco de decepções.

       Uma curiosidade sobre os vinhos elaborados com esta cepa é de que afora a Austrália onde ela virou ìcone, o Chile vem produzindo alguns exemplares de muita qualidade, inclusive de clima mais frio, e na África do Sul onde ela está presente nos melhores vinhos de corte produzidos assim como em varietais. Garimpe por lá, você não deverá se frustar com as descobertas!

Salute e kanimambo

Tokaji e seus Puttonyos

Tokaji, o vinho de Tokaj ou Tokay, meras variações idiomáticas do lugar, é o nome desse inesquecível elixir dos Deuses! Até o ano passado ainda não tinha tomado um vinho de Tokaj e muito menos um seis puttonyos ou um Eszencia. Finalmente alcancei o nirvana ao provar o Pendits Eszencia 2000, que se tornou o melhor vinho que já tive oportunidade de saborear tendo me deixado deveras emocionado. Daqueles que, literalmente, deveria vir acompanhado da famosa almofadinha para nos ajoelharmos em longas preces de agradecimento! Absolutamente divino, emocionante e inesquecível. Dizem que harmoniza com sobremesas e queijos tipo roquefort e stilton, mas a meu ver isso me parece uma heresia. Melhor tomá-lo só, ele como protagonista maior sem nada para atrapalhar essa ligação direta entre ele e sua alma!!!

           As pessoas acham que, só porque habitamos e exploramos com uma certa regularidade nossa vinosfera, sabemos e já provamos tudo. Ledo engano!! Existem sim uma dúzia de privilegiados que militam um patamar superior da critica e que sim, a convite na grande maioria, já tiveram a oportunidade de provar alguns desses grandes néctares como Chateau Petrus, Romanée Conti, Chateau d’Yquen, Chateau Margaux, Opus One, Penfolds Grange, Vega Sicilia Único, etc.. a maioria de nós no entanto, exceto talvez os mais endinheirados, nem rolha cheirou!

            Bem, mas finalmente cheguei lá e degustei esses vinhos, um dia ainda preciso tomá-los, hoje, no entanto quero decifrar o que é um Tokaj, Puttonyos e o tal de Aszú que aprece nos rótulos desse néctar de origem Húngara.

           Os vinhos são elaborados com uvas de uma região demarcada no nordeste da Hungria, conhecida como Tokaj-Hegyalja (colinas de Tokaj) e daí seu nome. Interessante que esta região está encostada na fronteira com a Eslováquia havendo um acordo para que esse país possa também produzir esse néctar, porém com um volume prédifinido que não pode ultrapassar 10% do total. Isso, no entanto, parece que está passando por reforma já que os eslovacos colocam pressão para mudar esse status-quo. Se alguém tiver mais informações, por favor colabore através de comentários.

As uvas usadas são essencialmente a Furmint e eventualmente a Hárslevelu com as quais se faz um vinho básico seco ao qual se adicionam cestas da uva botrytizada (Aszú) com capacidade de 20 a 25kgs. Quanto mais cestas destas, os famosos Puttonyos, são acrescidas às barricas de 136 litros (Gönci) mais intenso e mais doce será o vinho em função do aumento de açúcar residual. A categorização por níveis de Puttonyos se inicia no 3 e exige no mínimo um residual de açúcar de 60grs (6 a 9%). Veja o restante:

  • 4 Puttonyos – Minimo 90grs (9 a 12%) de açúcar residual .
  • 5 Puttonyos – Mínimo 129grs (12 a 15%) de açúcar residual .
  • 6 Puttonyos – Mínimo de 150 grs (15 a 18%) de açúcar residual.
  • Tokaj Eszencia Aszú – Minimo 180grs (mais de 18%) de açúcar residual.
  • Tokaj Eszencia – rarrissímos e caros exemplares com mais de  400grs (40 a 70%) de açúcar residual.

           Alguns produtores se modernizaram e usam tanques, sendos puttónyos meras medidas de açucar residual.  Para efeitos comparativos, os não menos famosos Sauternes possuem um residual de açúcar similar aos Tokaj de 4 Puttonyos. Vinhos tão doces seriam, na percepção geral da nação, caldos extremamente enjoativos o que não é verdade em função de sua enorme acidez que balanceia essa doçura de forma espetacular. Esse alto teor de açucar e acidez colaboram para o tornar um dos vinhos mais longevos do mundo.

A primeira fermentação, em conjunto com o vinho básico, dura pelo menos oito horas e pode ir até três dias. A segunda  fermentação, é  lenta em função das baixas temperaturas das frias e humidas caves cavadas nas colinas, ainda na época das invasões Turcas, e o alto teor de açúcar. No caso do Tokaj Eszencia, produzido do caldo que escorre lentamente do acumulado de uvas colocadas nos tóneis, em grandes safras e sem qualquer pressão mecânica somente pela própria pressão do peso das uvas, gerando mais de 40% de residual de açúcar, a fermentação pode demorar anos e gera teores de álcool extremamente baixos.

        Um vinho excepcional que obrigatoriamente tem que entrar no wish list de todos os amantes do vinho. Quem sabe 2011 não lhe traz essa “graça”? Eu torço por isso e recomendo os produzidos pela Pendits (Decanter) ou Oremus (Mistral), verdadeiros vinhos de reflexão.

Salute e kanimambo!

Fontes de pesquisa: WWW.tokaji.com e a Biblia do Vinho de acordo com Karen Macneil entre outros.

Uvas & Vinhos – Tinta Roriz

            Nesta segunda participação do amigo e enólogo Miguel  Almeida em Uvas & Vinhos, ele se debruça sobre uma importante cepa no corte dos vinhos do Douro e Dão assim como do Alentejo. Já falamos aqui sobre a Tempranillo, um dos muitos nomes (eu conheço oito) desta cepa ícone da península Ibérica,  porém não sob o prisma de um enólogo e tão pouco deste lado da fronteira onde o clima, cultura e terroir são outros. Vejamos  o que o Miguel tem a nos dizer antes de ter que se ausentar pelos próximos três meses quando estará cuidando dos vinhos da Fortaleza do Seival e Almadén da safra de 2010 que nós só conheceremos bem mais lá para a frente. Prometo trazer as impressões dele sobre esta safra assim que der.

A difícil casta dos vinhos ícones da Ibéria – Tinta Roriz, Aragonez ou Tempranillo

               A Tinta Roriz embora represente 25% da superfície vitícola portuguesa, a custo é tida como uma casta de excelência. Segundo opinião quase unânime juntos dos enólogos a trabalhar no Douro, produz muito, exige muitas intervenções em verde, a maturação processa-se irregularmente até no mesmo cacho, em suma, é uma casta difícil de trabalhar, principalmente em viticultura de montanha, onde existem muitas exposições solares e diferentes altitudes. Em Portugal é a base de suporte para um blend de vinho apto a envelhecer, lembro o Barca Velha 1999, com cerca de 50% de Tinta Roriz, 40% entre Touriga Nacional e Touriga Franca e 10% Tinto Cão, estagiado por 18 meses em meias-pipas novas de carvalho francês, e o Pêra-Manca 2003, 50% Aragonez e 50% Trincadeira, tradicionalmente estagiado por 18 meses em tonéis de 3.000 litros com mais de 50 anos.

             Em Espanha o cenário é completamente diferente, na Rioja, considerada a sua origem, 57% das vinhas, mais de 27.500 hectares, estão ocupados com Tempranillo e nos vinhos da Ribera del Duero ela é quase sempre componente único. Da Rioja trago ao espírito o cultural e clássico Viña Tondonia Tinto Gran Reserva 1991, Tempranillo (75%), Garnacho (15%), Mazuelo e Graciano (10%), envelhecido 9 anos em barricas, com 2 trasfegas por ano, feitas à mão. Da Ribera del Duero o portentoso Pingus 2004, Tempranillo (100%) com supervisão biodinâmica e 100 pontos de Robert Parker.

           Para ter elegância, acidez e fruta fresca num Tempranillo precisamos de um clima ameno. Mas para ter elevada concentração de açúcares fermentescíveis e cor intensa da sua casca espessa precisamos de calor. Na Ribera del Duero este aparente contraditório é possível devido ao clima continental e às médias altitudes de até 800 metros. Na Rioja as elevadas temperaturas e as baixas altitudes originam excesso de fruta em compota e baixo teor em ácidos, esta falta de frescor é agravada pela aparente predisposição genética da Tempranillo para absorver potássio, provocando o aumento do nível de sais de ácidos orgânicos, com a conseqüente subida do pH. Neste caso a solução passa pelo blend com uvas de maior teor em ácidos orgânicos. 

Comportamento vitícola

A Tinta Roriz é uma variedade:

  • com uma fertilidade apta em cachos grandes (como na foto abaixo das vinhas na Casa dos Gomes no Dão).
  • de alta produtividade (8 a 18 ton/ha), variando muito com o tipo de solo, o clima e o clone.
  • aneira, alterna com os anos, ou seja, em bons anos, produz vinhos encorpados, retintos, muito aromáticos, míticos e em anos maus produz apenas vinho.
  • de muito fácil condução da copada.
  • bastante sensível ao Oídio e exageradamente sensível ao Míldio.
  • de mediana susceptibilidade ao stress térmico e hídrico (em anos quentes e secos é necessário reduzir de modo drástico a área foliar das videiras e o número de cachos, por forma a baixar o consumo de água).
  • precoce com curto ciclo de maturação.
  • prefere solos profundos, bem drenados e com reduzida disponibilidade hídrica, uma vez que elevado teor de água provoca atrasos no pintor e redução da qualidade.

       Como curiosidade, em 1988 e no berço riojano, fruto de uma mutação natural por factores ambientais desconhecidos, surgiu a variedade Tempranillo Blanco numa videira de Tempranillo onde todas as varas originaram cachos de casca escura, excepto uma que produziu cachos de pequenas bagas esverdeadas. A Tempranillo Blanco viu aumentada o número de indivíduos por multiplicação vegetativa daquela única vara.

 Comportamento enológico

           Quando originários de vinhas de baixo rendimento, 6 a 8 ton/ha, os vinhos de Tinta Roriz são sempre de cor vermelha intensa, nariz de ameixa e frutos silvestres, tais como, groselha, framboesa, mirtilo, amora,  que se tornam mais complexos com a evolução em barrica e/ou garrafa. As principais características em boca são a textura envolvente, macia, sedosa e aveludada, apoiada em firmes taninos, e o bom equilíbrio de acidez e álcool. Quando o vinho estagia em carvalho novos aromas surgem: baunilha, coco (típicos do carvalho americano), especiarias, anis, charuto (típicos do carvalho francês).

          Com rendimentos de 10 ton/ha para mais, os vinhos adquirem uma coloração menos intensa, mais aberta, o nariz simplifica, quando jovem, o vinho vive muito dos básicos e muito etéreos aromas fermentativos frutados, tornam-se menos encorpados, mais ligeiros e de estrutura média, geralmente, estes são vinhos fáceis, próprios para o consumo diário. Nestes vinhos a opção por madeira para nada mais serve do que complementar a estrutura e, por vezes, melhorar a plausível deficiência aromática.

          Varietal ou blend? A decisão terá que ser tomada com base na vinha e no vinho. Para ser um varietal harmonioso e prazeroso terá de ser obtido de uva sã irrepreensivelmente madura, quer ao nível aromático, quer fenólico, e com um óptimo equilíbrio de açúcares e ácidos. Como isto das UVAS & VINHOS não é tão fácil como escrever, quando não acontece, a Tinta Roriz, ou melhor, os seus espessos taninos são os alicerces e os pilares fundamentais da estrutura de um lote de vinho preparado para viver por vários anos.

         Se a Touriga Nacional é o nariz, a Tinta Roriz é a boca do vinho. A alta carga tânica influencia também a estabilidade corante do vinho, normalmente, a cor deste vinho mantém-se bem ao longo do envelhecimento. Em resumo, a Tinta Roriz é uma casta polemica, capaz do pior, isto é, produzir vinhos bastante fracos, de cor insuficiente, taninos agressivos e sabores herbáceos, devido à sua exagerada capacidade produtiva. Mas capaz do superlativo, ou seja, produzir vinhos únicos, memoráveis quando controlados todos os fatores que interferem na produção: escolha do solo, do porta-enxerto, fertilização equilibrada, adequada condução da sebe vegetativa e monda de cachos ao pintor, se necessário. O resto o enólogo orienta!

Harmonização – eis o que o Álvaro Galvão (Divino Guia) disse sobre a harmonização do tempranillo e que resolvi repicar aqui já que, a principio, falamos da mesma cepa: ” Tem uma versatilidade enorme, pois se fazem vinhos com ela sem madeira, com madeira, em cortes, e todos muito gastronômicos, devido à sua acidez balanceada e taninos quase sempre domados. Carne de mamíferos e aves, de preferência as mais rústicas como caças, galinha d’angola e faisão, em geral vão bem com ela. Coelho à caçadora e lebre assada também se harmonizam. Experimente uma morcella assada, que seja levemente apimentada e muito aromática, vai ficar muito bom.”  A essas sugestões do Álvaro, eu adicionaria um prato de vitela assada com batatas, prato tipico da região do Dão ou arroz de pato, uma iguaria portuguesa!

Rótulos a Provar – Não provei vinhos varietais desta cepa em Portugal, falha que tenho que corrigir este ano, porém os blends são inúmeros para serem aqui listados. Dos varietais que não provei, sugiro conferir; Têmpera 2001 da Quinta do Monte d’Oiro em Alenquer, do Alentejo (Aragonês) os vinhos da  João Portugal Ramos, Cortes de Cima e Esporão / do Dão o  Quinta dos Roques Roriz  e do Douro o Quinta de la Rosa e Quinta do Vale da Raposa dueto em que a Roriz é protagonista. Esbalde-se nos blends com Roriz, são muitos e muito bons. Começe por rótulos mais econômicos como o Quinta de Cabriz Colheita (Winebrands) do Dão ou Loios (Casa Flora) com preços abaixo de R$30,00 que são uma ótima opção de gama de entrada e vá subindo a escada degrau a degrau. Eis uma curta listinha para você curtir; 

Altano (Mistral) do Douro, em especial o Biológico, Herdade do Peso Colheita (Zahil) outro do Alentejo e o Quinta de Cabriz Reserva (Winebrands) mais o Duque de Viseu (Zahil) todos na faixa entre R$50 e 60,00 valendo cada centavo e sobra troco em satisfação, muita! Altas Quintas Crescendo (Decanter) do Alentejo, Quinta Mendes Pereira Garrafeira (Malbec do Brasil) e Casa de Santar Reserva (Winebrands) do Dão, Post Sriptum (Mistral) do Douro e muitos mais, inclusive os vinhos do porto, para você não se cansar nunca. Diversos estilos e sabores com muita satisfação e não esqueça do Quinta do Seival Castas Portuguesas (com a mão do Miguel) o solitário representante brasileiro.

Os prazeres serão imensos, eu garanto.

Salute e kanimambo.

Uvas & Vinhos – Touriga Nacional

       Este primeiro post do ano sobre as mais diversas castas de nossa vinosfera, traz a estréia de um novo parceiro que muito me honra e que tem tudo a ver, pois daremos enfoque ás uvas autóctones durante os próximos meses. Alguns poucos o conhecem, mas a grande maioria não, então deixem-me lhes apresentar o Miguel Ângelo Vicente Almeida , jovem enólogo português formado no instituto Superior de Agronomia em Lisboa, berço de alguns dos mais conceituados enólogos portugueses, com licenciatura Agro-industrial em Enologia. Antes de chegar ao Brasil e à Miolo, andou por terras germânicas, Douro e Alentejo, tendo assumido o projeto da Fortaleza do Seival em 2008 e agora também da Almadén. É uma grande honra para mim, e acredito que para os amigos leitores, ter o amigo Miguel a escrever sobre as uvas autóctones portuguesas, começando pela mais famosa delas. apresentação feita, fico por aqui. Deixemos quem sabe das coisas, quem elabora os vinhos falar sobre esta emblemática cepa portuguesa, a Touriga Nacional.

“Tanta parra para tão pouca uva” – A Touriga Nacional

           Como enólogo, sempre achei nesta frase uma consequência técnica positiva, a tão moderna e famosa concentração. Mas se falar com o agrônomo, este já é capaz de lembrar a falta de equilíbrio entre parte vegetativa e parte produtiva, mais, avisa-nos do cuidado e assistência que é preciso entregar à gestão e manejo da copada. O viticultor tem a prima e primária tendência de se sentir burlado e foi este sentimento de fraude que levou a melhor casta tinta portuguesa e provavelmente a melhor do mundo – para o ser faltou-lhe a origem gaulesa – à quase extinção. Veio depois o seu massivo ressurgimento nos rótulos dos vinhos e só agora e em resultado de investigação massal e clonal é que muito tem aparecido nas vinhas.

              Em Portugal é a casta mais difundida por todo o território continental, daí o termo Nacional como complemento democrático-geográfico a esta surpreendente Touriga. Estados Unidos da América, Austrália, África do Sul, Argentina, Chile, Brasil são países que a naturalizaram porque dupla-cidadania, como um Shiraz australiano, um Malbec argentino, um Carménère chileno, um Tannat uruguaio ou o mais recente Merlot brasileiro, ainda ninguém lhe conferiu.

               Com natural singeleza, elegância, potência e monstra polivalência a Touriga Nacional pode aparecer na forma de:

  • – vinho espumante, como por exemplo os Murganheira Blanc de Blancs Touriga Nacional e do Luis Pato na Bairrada;
  • – vinho tinto seco fino, aqui prefiro a delicadeza dos Tourigas do Dão em detrimento dos Tourigas do Douro porque são fruto de solos de origem granítica e sedimentar e de amenas temperaturas bem típicas de um qualquer verão beirão;
  • – vinho licoroso, seja qual for Vinho do Porto Vintage ou Late Bottled Vintage originário dos melhores patamares de um bardo da mais antiga Região Demarcada do Mundo.

         Por característica, a Touriga Nacional é uma variedade muito fértil, isto é, todas as gemas deixadas à poda brotam e brotam também muitas feminelas que adensam a copada, embora seja pouco produtiva porque é propícia ao desavinho (acidente fisiológico em que não ocorre a transformação das flores em fruto) e à bagoinha (acidente fisiológico em que no mesmo cacho aparecem, além de bagas normais, bagas de dimensões reduzidas, bagas que não são bagas). Possui, no entanto,  baixa produtividade geralmente decorrente do seu elevado vigor e do seu carácter retumbante que juntos dificultam o ótimo arejamento da flor, impedindo assim o correto desenvolvimento da fecundação, resultando menos cachos. Portanto, esta é uma casta muito exigente quanto à forma de ser conduzida.

Como virtudes ela revela:

– estar bem adaptada a uma grande diversidade de solos;

– ser satisfatoriamente rústica, suportando condições médias de stress hídrico;

– ser muito resistente às doenças e pragas habituais da vinha;

– ter uma maturação intermediária, originando cachos pequenos a médios, ligeiramente compactos, de baga pequena com película espessa e cor negro-azulada.

Comportamento enológico

           A Touriga Nacional é uma casta muito consistente em termos de qualidade dos vinhos originados ao longo dos anos. Os mostos apresentam um teor alcoólico médio a elevado e uma acidez total titulável média a elevada, ou seja, gerando equilíbrio.  Os vinhos têm cor retinta intensa, com forte presença de tonalidades violáceas. O aroma é igualmente intenso desde os frutos pretos maduros (amoras, framboesas) às perfumadas flores (violetas, rosas), lembrando por vezes também algo mais silvestre, rosmaninho, alfazema, esteva, etc. Muito rico em substâncias fenólicas, na boca é volumoso, estruturado e persistente, possuindo um elevado potencial para envelhecimentos prolongados.

        Portanto, vinificada em varietal, por si, sem carvalho, a tendência é gerar vinhos intensamente corados, frescos, bem equilibrados em álcool e ácidos, de taninos macios. A passagem por barrica aumenta a sua complexidade aromática e tende a melhor estruturá-los. Quando usada em cortes, porta-se como o nariz, o perfume do vinho. 

            Em suma, que raio de casta tinta é esta que produz poucos cachos, cachos pequenos, de bagas pequenas, intensamente coradas, plenas de precursores aromáticos, espessas e bem resistentes a pragas e doenças e ótimas para suaves e longos processos de maceração?! A Touriga Nacional Portuguesa é com certeza uma grande casta a nível internacional. Para findar lembro e como bom português puxo a brasa à minha sardinha: quem tiver oportunidade não deixe de ser surpreendido pelo brasileiro Sesmarias 2008! E com isto não afirmo que a Touriga Nacional é uma das seis variedades deste lindo vinho. Mas posso estar enganado!

Harmonização

Agora é a vez do amigo Álvaro Galvão (Divino Guia) dar seus pitacos sobre a harmonização dos vinhos elaborados com esta cepa muito especial que é a Touriga Nacional, que ainda espero ver  adotar seu nome de direito “Touriga Portuguesa” .

Falar da Touriga Nacional no quesito harmonização é muito fácil, pois ela abrange vários pratos, cocções e paladares. A ´Touriga Nacional, uva “símbolo” de Portugal, tem uma característica multifacetada em aromas e paladar, o que contribui muito para facilitar a harmonização. 

Com seu toque frutado, me vejo degustando uma lebre(coelho) ao molho, e leitão assado, as partes mais gordas. Suas especiarias me seduzem a fazê-lo com comida Indiana, que leva coco, especiarias diversas, que ao contrário do que muitos possam imaginar, é uma gastronomia leve, complexa, mas leve. Caças em geral vão bem com a Touriga Nacional, em várias cocções, tanta assadas, como cozidas em molhos, e quando falo de caça penso também em aves, apesar destas não terem tanta gordura para amaciá-las, e fazerem contraponto com o bom nível de acidez desta uva.

Quem nunca experimentou um marreco ao molho de damascos e uma taça de Touriga, não sabe o que está perdendo. Carneiro fica ótimo, mas na minha preferência a paleta e pernil ficam melhor, o lombo e carré(com o ossinho), são mais delicados. Pelo seu tradicional toque floral de violetas, me vejo em plena ousadia, degustando uma entrada fria com figos maduros, alcachofras(não aquelas curtidas em azeite ou vinagre), e Cream Chese(esta entrada eu já testemunhei).

Saladas de palmito Pupunha, com tomates cereja e especiarias, também creio que a Touriga não faria feio. Se não for para ousar, basta ler o que os tradicionais manuais que falam das harmonizações descrevem, não acham?

Os Vinhos

Bem, agora chegamos na minha praia com a difícil tarefa, de enumerar alguns bons rótulos para vocês conhecerem, ou para quem já conhece eventualmente curtir um ou outro rótulo que provei e recomendo.  Tenho uma predileção muito especial por vinhos elaborados com esta cepa e existem alguns grandes vinhos no mercado. Tenho que compartilhar uma curta estórinha com os amigos; no Desafio de merlots do Mundo, tinha um português entre os cerca de 14 rótulos degustados ás cegas. Um dos vinhos da taça, encantador por sinal, dava demonstrações aromáticas que nos transportavam aos Vinhos do Porto, tendo a maior parte da banca apontado esse vinho como o português. Ao descobrir as garrafas, a enorme surpresa de ver que era o Wente Merlot Crane Ridge, da Califórnia. Aí, pesquisamos e verificamos que a cada ano esse vinho passa por um corte diferente tendo nesse ano recebido um aporte de 2% de Touriga Nacional! A conclusão tire você.

Rótulos 100% Touriga Nacional de satisfação garantida

  • Quinta da Cortezia/CVR Lisboa (Casa Flora)
  • Adega de Borba/Alentejo (Adega Alentejana)
  • Dal Pizzol/Brasil – Vale dos Vinhedos
  • Angheben/Brasil – Encruzilhada
  • Quinta do Cachão/Douro – (Casa Flora)
  • Raquel Mendes Pereira/Dão (Malbec do Brasil)
  • Quinta dos Roques/Dão (Decanter)
  • Cortes de Cima/Alentejo (Adega Alentejana)
  • Só Touriga Nacional (Portuscale)
  • Quinta dos Carvalhais/Dão (Zahil)
  • Quinta do Crasto/Douro (Qualimpor)
  • Quinta do Vallado/Douro

Saindo fora dos primeiros cinco rótulos, dê tempo aos outros néctares que só desabrocham mesmo a partir do quarto ou quinto ano devido a sua complexidade. Por sinal, a Raquel Mendes Pereira tem um Rosé de Touriga que é uma delicia. Uma pena que a produção é muito pequena e não chega ao Brasil.

Cortes com Touriga Nacional – aqui a lista seria imensa, já que a maior parte dos vinhos do Douro, do Porto e cada vez mais do restante das regiões produtoras portuguesas, têm algum porcentual desta cepa. Do Brasil, um bom exemplo de um vinho desse estilo é o Quinta do Seival Castas Portuguesas 2005, vinho que destaquei em uma de minhas listas de Melhores do de 2009, elaborado pela Miolo sob a batuta do amigo Miguel de Almeida.

Quer mais? Então sugiro que tome alguns desses bons vinhos acima e tire suas próprias conclusões. Por hoje é só.

Salute e kanimambo

Uvas & Vinhos – Tannat

tannat2Apesar das alegações e grande probabilidade de que a cepa tenha origem Basca, é na região francesa do Madiran, ao pé dos Pirineus, onde ela criou raízes profundas. Diversos estudos mostram que esta cepa é campeã de polifenóis e, consequentemente, gera vinhos com mais quantidade de resvesterol e de grande “tanicidade”, tanto que o próprio nome da cepa é derivado da palavra; taninos.  Retinto na cor, muita fruta negra, algo defumado, chocolate, especiarias, tradicionalmente geram vinhos de boa complexidade aromática, mostrando-se no palato muito rico, um vinho de grande estrutura e poderoso com grande capacidade de guarda. Tudo vero e uma cepa que, até pouco mais de uma década atrás possuía poucos admiradores e, mesmo na França, era considerada uma uva secundária de baixa penetração no mercado internacional se restringindo a um consumo mais regionalizado. Foi com a chegada do Uruguai ao mercado, que os vinhos desta cepa ganharam espaço e se revigoraram mundialmente.   

              Os emigrantes bascos trouxeram as cepas em sua viagem para o Uruguai nos idos de 1870 onde virou um ícone da vitivinicultura local assim como a malbec o é para a Argentina. Os uruguaios trabalharam muito bem esta cepa conseguindo “domá-la” e com isso gerando vinhos mais amistosos que os destacaram em nossa vinosfera. Essa “doma” feita através de micro-oxigenação durante a fermentação, e a extração dos caroços (grainhas) assim como a aplicação adequada de madeira, tende a amansar a fera produzindo taninos mais redondos tornando o vinho mais amistoso.  A adição de merlot no corte, uma tradição uruguaia, tem o objetivo de amansar o tannat tornando-o mais palatável. No Mandiran é comum a adição de Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon com o mesmo intuito. Como a natureza é sábia, a cepa também possui uma acidez bastante acentuada que ajuda a equilibrar os fortes taninos e alimenta a longevidade dos vinhos.

            São vinhos de que gosto muito, mas não tenho provado tanto quanto gostaria. Para mim, apesar da fama dosTannat4 Malbec, são os Tannats o perfeito acompanhamento para um churrasco e produzem vinhos com uma variedade bastante grande de estilos, dos mais simples e suaves aos de extrema complexidade e capacidade de guarda. Eis o que o amigo Álvaro Galvão (Divino Guia) especialista em harmonização fala sobre esta cepa; “Carnes gordurosas em geral vão bem por causa dos taninos, e podem ser levadas à cocção do mesmo modo que o Barolo em reduções lentas e demoradas, para amaciar as carnes :”brasato “é isso, por que não usar a Tannat? Carnes de caça, mesmo as aves, dependendo da cocção,(preferencialmente em molhos, pois o tanino ajuda a enxugar a suculência, assim como o álcool é hidrófilo) ficam muito bem.Ex Galinha D’angola, Pato, Cabrito ao molho (carnes fortes, partes mais suculentas). Alguns queijos de mofo branco, que hoje se usam colocar geléias as mais variadas, como os Brie e os Camembert, ficam excelentes, claro que em porções pequenas, aperitivo e sem exagero das geléias, preferencialmente as de frutas vermelhas maduras.

Como se vê, harmonizar não é tão difícil, basta pensar um pouco, correlacionar a gastronomia milenar usada com uvas semelhantes, e ousar um bocadinho!

              Em corte ou varietal, dos mais suaves e fáceis introduções á cepa até aos mais complexos e de guarda, vejamos alguns bons vinhos que recomendo aos amigos, com preços aproximados em Novembro/09. Rótulos quase que totalmente do Uruguai, mas há um francesinho de tirar o fôlego pelo preço. São vinhos provados e aprovados, vinhos que compro, alguns só provei, e que espero também vos agradem:

  • Pattio Sur Tannat/Merlot – Decanter – R$21,00
  • Cisplatino Tannat/Merlot 2008 – Mistral – R$26,00
  • Recuerdos 2007 (corte de Tannat/Cab. Franc e Syrah) – Dominio Cassis – R$28,00
  • Don Pascual Tannat 2007 – Expand – R$28,00
  • Dal Pizzol Tannat 2006 (gostei muito do 05) – R$32,00
  • Rio de Los Pajaros Tannat/Merlot – Mistral – R$33,00
  • Pisano RPF Tannat – Mistral – R$44,00
  • Oceanico Tannat Reserva 2006 – Dominio Cassis – R$45,00
  • Alain Brumont Tannat/Merlot VdP Côtes de Gascogne – Decanter – R$48,00
  • Carrau Tannat de Reserva 2006 – Zahil – R$52,00
  • Cordilheira de Santa’Ana 2004 – (leva um pouco de Merlot)– Eivin – R$57,00
  • Bouza Tannat – Decanter – R$62,00
  • Filgueira Enigma 2004 – Decanter – R$69,00
  • Carrau Pujol Grand Tradicción 2004 (corte Tannat/Cab. Sauvignon e Cab. Franc) – Zahil – R$82,00
  • Bouza Tannat/Merlot – Decanter – R$85,00
  • Pisano Arretxea Tannat/Petit Verdot 2004 – Mistral – R$92,00
  • Abraxas 2002 – Dominio Cassis – R$98,00
  • Bouza Tempranillo/Tannat – Decanter – R$104,00
  • Amat  Tannat – Zahil – R$122,00
  • Luis Gimenez Tannat Super Premium 2006 – Hannover – R$155,00
  • Familia Deicas 1er Cru Garage 2002 – Expand – R$280,00

           Para finalizar, recomendo provarem os licores de Tannat produzidos no Uruguai. Muito saborosos, são ótimas companhias para sobremesas à base de chocolate. Minha dica; O Licor de Tannat da Dominio Cassis por cerca de R$38,00, um achado!

           Li algures, que a região do Mandiran possui a maior incidência de pessoas com mais de 90 anos na França. Dado interessante que gera uma pergunta; acaso ou será que que a alta concentração de  resvesterol nos vinhos da região tem algo a ver? 

           Para ver como contatar os importadores/produtores e checar onde, mais próximo de você, o rótulo está disponível, dê uma olhada em Onde Comprar, post em que constam os dados dos importadores e lojistas assim como de produtores brasileiros.

Salute e kanimambo

Uvas & Vinhos – Barbera

Barbera - Italian Wine HubBarbera, uma das uvas tintas mais plantadas na Itália, divide com a Nebbiolo o protagonismo de vinhedos na região do Piemonte. Existe ainda uma versão branca, conhecida por Barbera Bianca. Não devemos confundir a uva Barbera com o vinho Barbaresco que é elaborado na região do mesmo nome, também no Piemonte, porém com a uva Nebbiolo.

          Sua origem mais freqüentemente citada é a cidade de Casale Monferrato, no Piemonte. Na Catedral da cidade existem documentos que indicam o plantio de videiras de Barbera já no século XIII. É uma variedade que amadurece relativamente tarde, quase duas semanas após a variedade mais tardia do Piemonte, a Dolcetto. Sua principal característica é o alto nível de acidez natural, ainda que muito madura. Essa característica a torna uma ótima opção para regiões de clima quente desde que sua produtividade seja controlada.

         No Piemonte é amplamente utilizada, gerando vinhos desde os mais baratos e produzidos em longa escala, até vinhos encorpados, com muito boa estrutura e bastante longevidade. Algumas características são comuns aos vinhos de Barbera, coloração ruby intenso e profundo, bom corpo ainda que com moderada presença de taninos, pronunciada acidez e teor alcoólico relativamente baixo, podendo variar de acordo com as regiões onde é cultivada.

        As principais denominações de origem do Piemonte onde a Barbera é considerada a principal variedade são; Alba, Asti e Monferrato, esta última menos conhecida por aqui. Na região de Barbera d’Asti DOC existe uma sub-zona chamada Nizza, reconhecida como a melhorBarbera região para o desenvolvimento da variedade, por ser a parte mais quente de Asti, onde a uva atinge seu melhor ponto de maturação. Os Barbera d’Alba tendem a ser mais complexos, de maior estrutura e de cor mais escura, enquanto os Barbera d’Asti tendem a ser mais frutados, claros e brilhantes (lembrando os vinhos Beaujolais), muito elegantes e finos. Em 2008, Monferrato virou DOCG e seus Barbera de Monferrato Superiore são vinhos a serem garimpados assim como os produzidos na sub-região de Langhe também no Piemonte. Nos anos 80 e 90, em paralelo ao surgimento dos Supertoscanos, o uso de barricas em Barberas passou a ser considerado e utilizado de fato, agregando complexidade aos vinhos, especialmente em relação à maciez dos taninos, controle da elevada acidez e riqueza aromática tornando-os, também, mais longevos.

        Além do Piemonte, a Barbera é também cultivada na Lombardia, na região de Oltrepò Pavese, na Emilia Romagna, em Colli Piacentini, em Bologna e Parma. Na maioria do país a variedade é utilizada em cortes com outras uvas. Na Sardegna existe ainda a Barbera Sarda. E, alguns defendem que, a Perricone ou Pignatello, autóctones sicilianas, são variações da Barbera.

        Fora da Itália, a variedade é cultivada em países como Eslovênia e EUA, na região da Califórnia assim como Grécia, Austrália, Israel e Romenia. Se desenvolveu muito bem na América do sul, especialmente na Argentina, nas regiões de Mendoza e San Juan, porém não são muitos os vinhos de qualidade disponíveis no mercado. Também existe algo no Brasil com um expoente máximo no momento como veremos mais abaixo em nossa recomendação de vinhos.

Harmonização: (hoje sem as dicas do amigo Álvaro Galvão que está viajando e aproveitando merecidas férias)

Uma das características dos vinhos de Barbera é sua capacidade gastronômica em função de seu corpo médio e boa acidez que chama comida. Quando falamos em harmonização, recorrer à regionalidade é sempre uma boa escolha e, neste caso, não poderia ser diferente. Em geral os vinhos de Barbera são ótimos parceiros para antepastos e embutidos italianos. Massas com molhos mais estruturados, com um belo ragù alla bolgnese, prosciutto di Parma, ou ainda pratos com funghi secchi e salmão defumado.

Vinhos Tomados e Recomendados: (preços aproximados nesta data)Pio Cesare Fides

Vinhos a garimpar:

  • Araldica Barbera d’Asti Ceppi Storici 2006 – Decanter – R$59,00
  • Barbera d’Asti Camp du Rouss 05 – Mistral – R$91,00
  • Barbera d’Asti Superiore DOC – Vinea – R$114,00
  • “La Court” Barbera d’Asti Superiore Nizza 2004 – Zahil – R$275,00
  • Braida Barbera d’Asti Brico Dell Uccellone – Expand – R$298,00

Sugestões do Oz Clarke retiradas de seu excepcional guia “Grapes & Wines”, um de meus livros de cabeceira e fonte de referência para todos estes posts. Estes rótulos são de origens outras que não Alba e Asti.

  • Bonny Doon Ca’del Solo Barbera – California
  • Dromana Estate “I” Barbera – Austrália
  • Norton Barbera – Argentina – esse está fácil e já entrou na minha mira!
  • Renwood Amador County Barbera – California
  • Giulio Accornero e Figli Barbera del Monferrato Superiore Bricco Battista
  • Colli Piacentini Barbera della Stoppa
  • Elio Altare Langhe Larigi

Vinhos Sugeridos pelo Paulo Queiroz: Para quem ainda não conhece, o Paulo é um nobre colega de blog (Nosso Vinho) que, apesar de sua descendência Lusa, cisca mesmo é em terreiro italiano! rsrs. Brincadeira porque ele possui um gosto bastante eclético e prova de tudo o que seja bom, mas verdade seja dita, tem uma queda pelos vinhos italianos. Pedi-lhe ajuda para finalizar estas dicas já que minha experiência com os vinhos italianos é bem mais limitada e a idéia aqui é prover o leitor com as mais diversas opções possíveis. Eis as sugestões do amigo, sendo que o Pio Cesare Barbera d’Alba foi comum aos dois.

Post elaborado a quatro mãos! O texto sobre as uvas chega pelas mãos da amiga Mariana Morgado e minha, e as sugestões de vinhos são minhas. Como convidado especial, o amigo Paulo Queiroz do blog Nosso Vinho. Para ver como contatar os importadores e checar onde, mais próximo de você, o rótulo está disponível, dê uma olhada em Onde Comprar, post em que constam os dados dos importadores e lojistas assim como de produtores brasileiros.

Esperando que este post e suas dicas lhe possam ser úteis nesta viagem por terras de Baco, fica aqui um arriverdeci especial aos amici del vino.

Salute e kanimambo

Uvas & Vinhos – Gewurztraminer

           Uvas & Vinhos é uma categoria que fala um pouco das cepas e os vinhos com elas elaboradas ao redor do mundo. Apesar de, obviamente, virmos a falar das cepas mais tradicionais, é nossa intenção fugir um pouco do lugar comum ampliando o leque um pouco. Hoje falamos de uma uva que gera vinhos maravilhosos e em vários estilos. Conheça um pouco mais da aromática GEWURZTRAMINER.

gewurtzraminerApesar de seu nome, difícil de pronunciar, a Gewürztraminer é muito fácil de ser reconhecida. Seja por seus aspectos físicos ou pelas características dos vinhos elaborados com ela. Sua origem mais provável é italiana, ou pelo menos do que conhecemos por Itália hoje. As primeiras menções à uva Traminer, apontam para o ano 1000, no vilarejo de Tramin, ou Termeno, nos altos vales de Etsch onde hoje temos o Tirol italiano (perto da região do Alto Adige). No meio do século XVI já era amplamente cultivada nessa região.

           Uma outra versão, diz que a uva pode ser descendente da uva Aminea da Thessalia, ao norte da Grécia, de acordo com dados de ampelógrafos da época, com sua difusão pelo norte da Itália e pela região do Rhein (Alemanha) dando-se através dos romanos ou, ainda, que nada mais é do que uma mutação da Savignin Rosa que, morfológicamente é idêntica, porém mostra sabores diferenciados.

            A relação entre a Traminer e a Gewürztraminer tem sido muito discutida e, muitas vezes mal interpretada. O prefixo “gewürz” que significa “especiaria”, termo muito utilizado pelos degustadores de vinhos, para descrever os aromas dos vinhos elaborados com Gewürztraminer, por sua complexa gama de aromas, que lembram frutas tropicais e flores perfumadas, como lichias e rosas. A palavra gewürz também pode ser interpretada simplesmente como “perfumado” ou “aromático”. Na Alemanha, ainda se podem encontrar as duas versões, sendo a Traminer usada para os vinhos mais aromáticos e os Gewurtzraminer para os de mais acentuada presença de especiarias como canela, o que também ocorria na Alsácia até 1973 quando Traminer foi eliminado.

           É uma uva cultivada em muitas regiões, principalmente na Alsacia (França) e nas regiões do Rhein e Pfalz (Alemanha), mas também na Austria, Itália (Alto Adige), Nova Zelândia, Austrália, Chile, Estados Unidos e alguma coisa por aqui, no Brasil. É, no entanto, na Alsácia que se encontra a maior área plantada com cerca de 3.000 hectares, de acordo com Oz Clarke em seu livro “Grapes & Wines”. Conforme amadurecem, ganham uma cor mais Gewurztraminer Madurarosada.

          Os vinhos de Gewürztraminer normalmente são de cor amarelo intenso, quase dourados. Por conta de sua composição e características da casca, são vinhos com grande estrutura em boca. Uma de suas “fraquezas” é a acidez, muito delicada e, que em anos mais quentes, tende a ser muito baixa. São sempre muito aromáticos, com notas marcantes e características lembrando lichias e pétalas de rosas com toques, de maior ou menor intensidade, de especiarias. No Chile e Califórnia, apresentam características mais frescas e notas florais, e Nova Zelândia, Canadá e Oregon, onde tendem a ser mais complexos. Por ser uma casta de maturação tardia, não é incomum nos depararmos com vinhos por vezes excessivamente alcoólicos.

         Por ser uma uva de difícil produção e baixo rendimento, os preços tendem a ser caros, especialmente entre os melhores, o que não tem incentivado o incremento de novos vinhedos. Por outro lado, devido a uma acidez pouco acentuada, são vinhos tradicionalmente de tiro curto, para serem tomados jovens, entre os primeiros dois a três anos de vida. Os melhores exemplares da Alsácia e de maior acidez, podem envelhecer por até 10 anos ou mais, porém tendem a atingir seu pico por volta de 6 para 7 anos, exceção feita aos grandes vinhos doces que podem atingir 20 anos.

Harmonização:

          Apesar de, à primeira vista não parecer, graças às suas características aromáticas e gustativas, os vinhos de Gewürztraminer secos e jovens são ótimos parceiros para a culinária, especialmente pratos com riqueza aromática e bem condimentados, como a cozinha asiática – chinesa e indiana. Curries mais suaves aceitam bem os mais maduros.

         Além disso, as versões mais adocicadas são especialmente agradáveis para acompanhar sobremesas à base de frutas. Veja o que o amigo Álvaro Galvão (Divino Guia) tem a nos sugerir; “Os vinhos elaborados com esta cepa podem ter toques minerais também, mas é tão perfumada que, às vezes, este perfume sobrepuja todos os outros. Harmonizar a Gewurz é fácil, pois em tendo acidez e também corpo, ajuda na harmonização quando temos mais gorduras e lácteos.

Como gosto sempre de propor harmonizações mais ousadas, que tal um risoto de 3 queijos(brie, gruyere e gorgonzola)? Sua veia aromática e certo dulçor em boca, irá harmonizar com o amido do arroz, e com as gorduras e tons salgados dos queijos. Outra ousadia, peixe temperado com o mesmo vinho e leite de coco, embrulhado em papel alumínio(papillote) com ervas e especiarias. Que tal também uma sopa fria, suculenta e calórica?”

             Os estilos da Gewurztraminer são dos mais variados, podendo ser elaborados como vinhos secos, off-dry e doces, porém poucos atingem o nível de botrites devido a sua pele grossa que serve como barreira a essa “podridão nobre”. Eu prefiro meus Gewurztraminer secos, bastante jovens e os doces em cortes com cepas de maior acidez que lhe dão uma incrível complexidade aromática e riqueza de sabores. Eis alguns poucos rótulos, com preços aproximados, que já tive a oportunidade de degustar e outros a conferir.

Vinhos Recomendados:

  • Valduga Premium – Brasil – R$30,00
  • Angheben – Brasil – R$30,00
  • Tarapacá Late Harvest (S.Blanc/Gewurz) – Chile – R$35,00
  • Cono Sur Reserva – Chile/Expand – Cono Sur – R$39,00
  • Santa Helena Late Harvest (maior parte de Riesling)– Chile/Interfood – R$39,00
  • Cordilheira de Sant’ana – Brasil – R$46,00
  • Knappstein Three (corte com Riesling e Pinot Grigio) – Austrália/Wine Society – R$64,00
  • Casa Marin “Casona” 2008 (off-dry) – Chile/Vinea – R$115,00 (Divino)
  • Marcel Deiss Saint Hypplolyte – Alsácia/Mistral – R$142,00 (Maravilha)

Sugestão de Vinhos a Conferir:

  • Dal Pizzol – Brasil – R$30,00
  • Hugel & Fils “Gentil” (Corte c/4 outras uvas) – Alsácia/World Wine – R$48,00
  • San Michelle – EUA/Expand – R$55,00
  • Dopff & Fils – Alsácia/Mistral – R$75,00
  • Léon Beyer – Alsácia/Vinci – R$111,00
  • Elena Walch – Alto Adige – Itália/Decanter – R$114,00
  • F.E. Trimbach AC – Alsácia/Zahil – R$125,00
  • Domaine Paul Blanck – Alsácia/Decanter – R$131,00
  • Hugel & Fils “Jubilée” – Alsácia/World Wine – R$160,00

Post elaborado a seis mãos! O texto sobre as uvas chega pelas mãos da amiga Mariana Morgado e minha, a harmonização pelas do experiente Álvaro Galvão e as sugestões de vinhos são minhas. Para ver como contatar os importadores e checar onde, mais próximo de você, o rótulo está disponível, dê uma olhada em Onde Comprar, post em que constam os dados dos importadores e lojistas assim como de produtores brasileiros.

Quem quiser compartilhar de alguns bons rótulos conosco, o espaço é vosso. Impossível provar todos os vinhos então a contribuição dos amigos, para alegria da coletividade enófila que acompanha este blog, é sempre muito bem vinda. 

Salute e kanimambo