Confraria Saca Rolhas

Mais Experiências Lusas na Confraria Saca Rolhas

Portugal Fixe Hospedando cinco confrarias ao mês, sem contar os eventos promovidos, volta e meia esqueço o tema escolhido para o encontro seguinte. Pior, como a escolha é normalmente feita ao final dos encontros, rs, a maioria também esquece! Em cima da hora não podia dar outra, optei por dar uma volta pelas ricas regiões produtoras em Portugal que a confreira, amiga e porta voz do grupo assim descreveu:

 

Mais um encontro da Confraria Saca Rolhas e como é de praxe, procuramos decidir o tema do próximo encontro, no final da noite….E não sei porque, depois sempre aparecem dúvidas à respeito do que foi decidido! Depois da degustação dos Brunellos então, esquecemos de combinar o tema. Decidimos então degustar os vinhos que foram selecionados para harmonizar um jantar português, promovido pela Vino&Sapore. Acho que foi uma boa pedida, já que os portugueses estão em evidência atualmente, além do que, o fato de serem vinhos que deveriam acompanhar uma refeição, indicam uma característica muito mais próxima de vinhos que nós normalmente procuramos comprar no dia a dia, do que aqueles simplesmente degustados para conhecer uma região, um produtor, ou mesmo uma qualidade de uva, etc e tal. Seria uma visão diferente com um viés mais gastronômico.
Salvo algumas exceções, a sequencia dos vinhos servidos foi mais ou menos esta:

Espumante Valmarino & Churchill – Brut Nature – Prestige
Boa surpresa da região de Pinto Bandeira, Rio Grande do Sul (BR). Elaborado pelo método tradicional ( champenoise), com as uvas Chardonnay e Pinot Noir em que o vinho base passa por um estágio de 180 dias em barrica de primeiro uso americana. Bela pérlage que enche a boca, revelando ao mesmo tempo, cremosidade e frescor. Aromas e sabores equilibrados que se alternam entre as frutas cítricas e pâtisserie. Tem uma longa persistência e deixam uma agradável e sedosa sensação amendoada na boca.

Pedra Cancela – Eco Friendly 2009
Da região do Dão, este vinho foi elaborado à partir de princípios ecológicos e preocupações com o meio ambiente, desde o plantio, colheita, vinificação, e engarrafamento (garrafa, rolha e rótulo).
Início bem perfumado ( flores e frutas), e fresco. Na boca, é bem encorpado e a presença das frutas se confirma, principalmente amoras e cerejas maduras. Os taninos são suaves e o álcool aparece um pouco demais, deixando um final quase doce. Não ganha muito com tempo na taça. Apenas aparecem alguns traços amadeirados. Um vinho de alma jovem!

Solar dos Lobos – Reserva 2007
Da região do Alentejo, mostrou-se discreto no início. Com tempo, demonstrou sua vocação gastronômica com aromas de especiarias, pimentas, vinha d’alhos, defumados, notas de tostado da madeira, tabaco, equilibrando-se muito bem com o frutado, criando um corpo harmonioso e persistente na boca. Boa acidez e taninos suaves. Mas pede comida.

Vinhos Lusos Junho 2014

Meia Pipa – Private Selection 2010
Do mesmo produtor da “Quinta da Bacalhoa”, na Península de Setúbal, esse vinho é elaborado com uma mistura de uvas portuguesas e francesas. Ataque potente na boca. Bem encorpado, com taninos marcantes e acidez equilibrada. Sobressai sua estadia em madeira bem incorporada com o frutado das cerejas e ameixas maduras. Um vinho redondo, agradável e fácil de beber.

Grandes Quintas – Reserva 2010
Proveniente de vinhas velhas da região do Douro. Nariz elegante e sutil. Bem equilibrado e estrutura alinhada. Sem arestas. Bom extrato, taninos finos e presentes, e acidez muito boa. Refresca o paladar e o torna um bom companheiro para refeições. Final longo com frescor persistente. Um vinho versátil, que acompanharia muito bem do primeiro ao último prato.

Francos Reserva 2009 – DOC Alenquer
Esse vinho tem história!
Produzido pelo Enólogo José Neiva Correia ( DFJ ), para comemorar seus 30 anos de enologia. As uvas utilizadas para produzi-lo vieram da Quinta do Porto Franco ( DOC Alenquer , na região de Lisboa ), que também foi o local de nascimento de José Neiva. Foi eleito o um dos 100 melhores vinhos de Portugal em 2013 pela Revista de Vinhos de Portugal.
Pareceu um pouco tímido no início. A primeira sensação na boca foi um gosto de comida! Super equilibrado, e complexo. Fiquei com a impressão que esse vinho perdeu um pouco por ser deixado para o fim da degustação……Não tivemos tempo suficiente para apreciá-lo por completo. Havia algo nele que não consegui entender até agora. Sim, existem vinhos intrigantes que temos que repetir e esse certamente é um deles. Algo no frescor, uma mineralidade incomum e uma acidez que parecia vinho branco! Esse vinho, se encontrá-lo novamente, não me escapa!

VanZellersPorto-550x471VZ – Van Zeller – Tawny 10 anos
Esse Porto, de cor belíssima, âmbar, veio para encerrar a noite e acompanhar o delicioso toucinho do céu. Com seus sabores amendoados e puxados para frutos secos, me fez por alguns momentos esquecer que também tratava-se de mais um vinho. A fusão entre ele e a sobremesa foi tão grande que na minha cabeça tudo transformou-se em uma coisa só. Harmonização perfeita!

 
Resumindo as escolhas da noite:
Tirando o Espumante de boas vindas e o Porto de sobremesa que podem variar, os 5 tintos tinham em comum, qualidades tipicamente encontradas em vinhos portugueses desse padrão. Todos eles tinham espírito jovem, eram frescos , com boa acidez, aromáticos e pediam comida para acompanhá-los. Além disso, caracterizavam-se por serem frutados, com bom corpo, e madeira bem integrada aos aromas e sabores.

Os vinhos gastronômicos são aqueles que melhoram com a comida e a comida melhora com eles. Igual um casamento que dá certo ou uma amizade longeva. Não existe regra, e acontece na base da intuição, do conhecimento e do experimento. Quando da certo é ótimo. Quando não, continua-se tentando. E cabe a nós, apreciadores da boa comida e da boa bebida, essa árdua tarefa da escolha. Engana-se quem acha que é fácil!

Magnífica Montalcino!

Tenho o privilégio de fazer parte desta confraria e mais uma vez me esbaldar nos abençoados elixiris de Baco, mais uma grande e inesquecível experiência com vinhos marcantes que considero, entre todos os que já provei ou tomei desta região, os melhores em seu estilo, verdadeiros bálsamos para a alma. Tem muito Brunello que gostaria de ser um Rosso Salvioni e esse Poggio di Sotto é um Brunello para o qual faltam adjetivos, pura luxúria! Vinhos de excelência, de extrema persistência na mente e na alma, como bem descreve a amiga Raquel (nossa porta voz da Confraria Saca Rolhas), é fechar os olhos e ser levado numa inebriante viagem ao passado, à cultura e  tradição de uma romântica e sedutora região, é arte e poesia em forma liquida! Enfim, deixemos que a Raquel fale desse encontro em que eu fiquei numa dúvida cruel, se fungava ou bebia e, na dúvida, lambi! rs

Mas é tudo Sangiovese!!!!!!!! Foi a primeira coisa que pensei, quando comecei a organizar as informações pré degustação da confraria.

Toscana
A região da Toscana, situada entre Firenze e Roma, foi o berço da renascença. Sua paisagem verde, recortada em vários tons, possui pequenos vales e montes que não passam de 600m de altitude. Os verões são quentes , muito ensolarados e secos, fazendo dessa paisagem uma grande pintura de cores contrastantes entre o claro e o escuro, luzes e sombras, no mais puro estilo renascentista. Os invernos frios com névoas que cobrem os pequenos vales como um véu pela manhã, transformam sua paleta em tons pastéis.

Foi nesse ambiente que a uva Sangiovese se originou. Alguns dizem que seu nome provem de “Sangue de Giove”(sangue de São João), outros de “Sangue de giogo/gioghetti”(sangue de um monte/montanha, com referências aos Apeninos). É a matéria prima dos principais vinhos da Toscana (DOCG): Chianti, Chianti Clássico, Nobile di Montepulcciano, Rosso de Montepulcciano, Rosso di Montalcino, Brunello di Montalcino, Morellino di Scansano e Carmignano. Todos eles com personalidade marcante e tão diferentes entre si. O que os diferencia é justamente o local de plantio da Sangiovese, que foi se desdobrando em vários clones. Há basicamente dois tipos da mesma uva: A Sangiovesi Grosso, maior, com a pele mais grossa e a Sangioveto, com uvas menores. E dependendo da denominação de origem, vão mudando de nome: Prugnolo Gentili em Montepulcciano, Brunello em Montalcino e Morellino em Scansano.

Tudo começou por conta de uma viagem à Toscana dos amigos e confrades Márcia e Marc, que se dispuseram a trazer umas garrafas do mítico Brunello de Montalcino Poggio di Sotto, que seriam o alvo da nossa próxima degustação. A ideia no entanto, não era conhecer vários produtores, mas sim um produtor em especial a que alguns ali já haviam sido apresentados e vez ou outra comentavam como sendo uma experiência única! Curiosidade atiçada, foram eles atrás do tão bem falado “Poggio di Sotto”. E para lhe fazer páreo, foi escolhido um Salvioni Rosso de Montalcino produzido pela Azienda Agricola Cerbaiola.

Montalcino At it´s Best

Os vinhos de Brunello em Montalcino originaram em 1870, pelas mãos da família Clemente Santi (hoje Biondi-Santi) que replantou todo seu vinhedo com a variedade Grosso, por ser mais resistente, principalmente à filoxera. Nos anos 80, ganhou interesse internacional pela qualidade, que faziam frente aos grandes vinhos Barolos do Piemonte. São vinhos classudos, que demoram 5 anos para serem colocados no mercado ( 6 anos para os reserva). Já o Rosso foi uma opção dos produtores da região, obterem um produto de qualidade, porém com mais agilidade de comercialização. Utilizando as mesmas videiras em safras não tão boas ou mesmo videiras mais jovens, e com apenas 1 ano de maturação na cave, já é possível colocar o produto no mercado. E convenhamos que a diferença de qualidade entre um Brunello e um Rosso di Montalcino, depende muito das mãos do seu produtor, já que a matéria prima é a mesma. Portanto, um Rosso bem feito, poderá ser melhor que um Brunello mal feito. Independente de quanto custou cada garrafa em questão!

E este foi naquela noite o nosso dilema: quais dos vinhos estariam mais sedutores? O Rosso ou o Brunello? Tínhamos ali um ótimo Rosso e um ótimo Brunello, ou seja , deveríamos nos desarmar de todos os paradigmas já estabelecidos e simplesmente apreciá-los. Afinal, nesse universo de bacco, o que menos importa é o julgamento e sim as sensações presentes em cada taça. No meu caso, a única coisa que vinha à mente era a paisagem da Toscana. E não era uma paisagem real, mas sim uma pintura renascentista, com seu realismo particular, revelando-se pouco a pouco como uma história remota. Os aromas facilitavam esse embarque no tempo e no espaço. Naquela paisagem bucólica, permeada de ciprestes e oliveiras, as vinhas e construções em terracota, que inspirou pintores como Leonardo da Vinci, Raffaelo Sanzio, e tantos outros. Nuances cromáticas, sabores e texturas aveludadas deixavam cada um de nós, a cada gole mais tocados e embriagados, no bom sentido, por aquela experiência vivida, que só um bom vinho é capaz de nos oferecer.

Provamos primeiro o Rosso di Montalcino Salvioni 2009 e depois partimos para o Brunello di Montalcino Poggio di Sotto 2007.

Acho que não da para dizer que um vinho é melhor que o outro. Os dois eram muito bons dentro de cada categoria. Obviamente, fiz minhas anotações e acho que a “viagem” foi longa, intensa e certamente quando a experiência é boa, fica para sempre. Foi uma estória com final feliz onde eu arriscaria até a dizer que compreendi o sorriso da Monalisa!

Syrahs – Uma Viagem Fora de Seus Habitats Mais Conhecidos, França e Austrália

Syrah Grape Fred Miranda         Mais uma viagem de descobertas de novos sabores, algo inerente a qualquer confraria que se preze, onde a experimentação tem que conviver com os eventuais encontros com grandes vinhos e, obviamente, a confraternização entre amigos. A meu ver, esse Las Moras 3 Valleys é hoje um dos grandes Syrahs até R$200 disponível no mercado e páreo para muito nomes graduados e bem mais caros, vinhaço! Provamos, todavia, uma série de outros vinhos bem interessantes mostrando uma diversidade entre eles muito interessante. Uma dica, fiquem de olho nos Syrahs Sul Africanos e Chilenos, muita coisa boa vindo dessas regiões. Em nossos encontros, no entanto, quem conta nossas experiências é a Raquel, então vejamos o que ela achou dos vinhos de mais esse encontro da confraria Saca Rolha.   

         “ Syrah ou Shiraz? Eis a questão. Tudo depende da procedência dessa uva que sempre viveu à sombra das espécies mais famosas, como a Cabernet Sauvignon em Bordeaux ou a Pinot Noir na Bourgogne.

         Sua origem tem várias versões e uma delas é que vem da antiga Pérsia, de uma cidade chamada Shiraz. A outra versão, é que foi trazida do oriente, e pelo caminho passou pelo sul da Itália, na cidade de Siracusa, na Sicília. De lá rumou para o vale do Rhône, onde se estabeleceu como a casta principal, com o nome de Syrah. Por ser uma uva resistente, com boa produtividade, não teve muitas dificuldades em se espalhar por outros territórios, onde foi se adaptando e cativando corações por sua personalidade peculiar. Produz vinhos densos, escuros, cheios de frutos negros, maduros, e ricos em especiarias que nos fazem imediatamente lembrar a sua possível procedência oriental.

         Fora da França, destacou-se mais tarde na Austrália. Com características diferentes e apesar de ser considerado “o novo mundo”, produz a Shiraz, como lá é chamada, desde o século XIX. E por volta dos anos 80, quando o vinho australiano se projetou no mundo, a Shiraz tornou-se sua uva ícone, devido à qualidade e volume de produção de seus vinhos.

         E foi justamente pensando nessa vocação, meio nômade, cigana, de se espalhar pelo mundo, se adaptando, interagindo sem impor rígidas exigências, mas ao mesmo tempo, deixando sua marca bem evidente por onde for criando raízes, que focamos nosso encontro do mês: os diferentes países (fora os óbvios), onde o plantio da Syrah/Shiraz tenha se desenvolvido e os vinhos recebido algum destaque. Foram escolhidos 5 vinhos:

          1. Falesco – Tellus Syrah 2011

              Esse vinho italiano, da região do Lazio (que tradicionalmente não é conhecida como uma região vinícola) já nos chamou a atenção pelo formato da garrafa, mais achatada que o usual, lembrando as antigas garrafas romanas. Na taça mostrava-se bem escuro e denso. Aromas de frutas maduras (cerejas, ameixas). Boa acidez, bom corpo, taninos presentes e bem incorporados. Sobressaíram ameixa preta seca, picância de pimenta e madeira. No final ficou bem caramelado.

          2. Maset del Lleo – Syrah Reserva 2006

             Catalunya, Espanha. Aromático, com especiarias, canela, baunilha, frutas e madeira. Muito aveludado na boca. Taninos finíssimos, com bom extrato de frutas negras maduras. Evolui bastante na taça, trazendo aromas defumados e florais (violeta). Os sabores também vão se amalgamando aparecendo café e chocolate. Final longo com persistência de ameixa preta seca.

         3. Montes Alpha Syrah 2007

              Valle de Colchagua, Chile. De início, causou alguma estranheza, com um certo aroma químico que sobressaía. Depois foram aparecendo alguns herbáceos (eucalipto, mentol, alecrim) e um fundo de côco. Na boca, bem pungente, com o álcool em evidencia. Boa acidez, bom corpo, taninos elegantes. Com tempo, evoluiu bem na taça. Apareceram o café, chocolate, defumados e frutas maduras. Fez lembrar um bom assado. Talvez o mais gastronômico de todos!

         4. Quinta dos Termos – Reserva do Patrão 2009

              Beiras Interior, Portugal. Bem escuro na taça. Frutado e denso (ameixa preta, jabuticaba, amora, cereja). A boa acidez traz um frescor e leveza contrastando com o peso do corpo e a potencia dos taninos. É um vinho que fala alto, mas fala bem! Mostra toda a tipicidade da Syrah, com suas especiarias perfumadas e picantes. Com tempo na taça evoluiu muito. Os taninos ficaram mais dóceis, e os aromas e sabores mais equilibrados. Um vinho que ganharia muito se fosse decantado por algum tempo.

         5. Las Moras – 3 Valleys – Gran Shiraz 2009

              San Juan, Argentina. Esse vinho já ganhou pontos (pelo menos nas nossas expectativas) quando foi servido em taças Riedel. Quando levei a taça ao nariz……..bem…..eu sei que a taça ajuda, mas não melhora nenhum vinho! Foi uma explosão de aromas que desencorajava qualquer impulso de dar o primeiro gole e perder aquele “playground” olfativo! Mas a curiosidade de conhecê-lo por completo, não me deixou demorar muito para apreciar também os seu sabores. Todo exotismo e nuances muito típicos dos vinhos feitos com as uvas Shiraz/Syrah estavam ali. Tudo muito equilibrado, sem cair na mesmice e mostrando claramente aquele “terroir” dos 3 vales (Tulum, Zonda, Pedernal) a oeste da Argentina. Muito expressivo e bem feito!

Syrahs no Saca Rolha

          A uva Shiraz/Syrah está, juntamente com a Cabernet Sauvignon, Merlot e Pinot Noir, entre as tintas chamadas de internacionais, ou seja, as cepas que se espalharam por vários locais do planeta por onde foram levadas e conseguiram se desenvolver bem. Além do Vale do Rhône na França e na Austrália, onde a produção dos vinhos com esta casta é muito significativa, existem fortes expressões na Itália, Espanha, Portugal, África do Sul, EUA, Argentina e Chile. Produz vinhos sedutores, e muito gastronômicos. Combina muito bem com aqueles pratos de carnes de sabores marcantes, com molhos adocicados feitos com frutas exóticas e picantes. nfim, eu diria que seus vinhos não tem nada de básico. Portanto escolha-o quando quiser sair do lugar comum. “

         Salute, kanimambo e uma ótima semana para todos.

Um Banho de Sauvignon Blanc no Saca Rolhas

 Sauvignon-blanc-wine-and-grapes-770x537 - wine folly A Confraria Saca Rolhas aproveitou o verão quente para se refrescar numa viagem pelas diversas faces desta saborosa e fresca casta de uvas brancas. A meu ver, a Sauvignon Blanc é, entre as uvas brancas mais conhecidas, a que melhor absorve as características de cada terroir em que é plantada, especialmente quando vinificada sem madeira como é a maioria. Nesta saborosa viagem guiada por Baco, pudemos ter um pouco dessa experiência inclusive com a presença de dois vinhos que fiz questão que estivessem presentes pelo fato de me terem impressionado muito bem em recentes degustações, o chileno Terrunyo e o surpreendente Bellavista Estate Bueno.  A uva proporciona vinhos bastante agradáveis em todas as faixas de preços então neste verão há muito o que explorar e nós fizemos isso! Tendo feito este comentário, transfiro a palavra para a porta voz da confraria, a amiga e confreira Raquel Santos que compartilha conosco suas impressões de mais uma agradável noite de alegria e confraternização. Clique na imagem para maiores informações sobre a uva e suas características de acordo com o site Wine Folly.

Com esse calor estonteante que vem fazendo em São Paulo, quando se pensa em vinhos, a primeira ideia que vem à cabeça são os brancos geladinhos, frescos e leves.

         Optamos por conhecer melhor a uva Sauvignon Blanc, que tem como característica principal, a sua refrescância e jovialidade. Os vinhos provenientes desta casta, raramente passam por madeira e salvo algumas exceções, devem ser consumidos jovens. A peculiaridade da Sauvignon Blanc começa no seu amadurecimento, no vinhedo, que é mais rápido que as outras uvas brancas. Desenvolve-se melhor em regiões frias, onde demora mais para amadurecer, ganhando assim mais tempo para adquirir estrutura e complexidade.

         Sua origem se divide entre Bordeaux e o Vale do Loire, na França. Em Bordeaux, tornou-se importante, quase sempre associada a Sémillon na produção de vinhos brancos secos, mais austeros e densos, bem ao estilo dos bordaleses, e doces, como os famosos Sauternes. No Vale do Loire, seus vinhos feitos somente com a SB, são os Sancerre e Pouilly-Fumé. Em duas colinas de calcário e argila, cortadas pelo rio Loire e entremeadas por florestas, que num clima continental, frio, com muita névoa, a Sauvignon Blanc encontrou seu lar perfeito. Seus vinhos expressam esse terroir com tanta naturalidade que quando os provamos, eles nos transportam para aquela paisagem verdejante, como nos contos de fadas, com direito a castelos e lufadas de vento no rosto.

          Fora da França, a Sauvignon Blanc encontrou na Nova Zelândia o clima favorável onde conseguiu mostrar todo seu esplendor. Na ilha do sul, em Marlborough, região setentrional, com muitos ventos vindos do Oceano Pacífico, os dias longos com noites frias, outonos secos, foram propícios para que as uvas amadurecessem lentamente. Nesse clima a Sauvignon Blanc atingiu seu apogeu, resultando em vinhos extremamente vivazes, de grande qualidade que destacaram a Nova Zelândia no mundo. Existem, no entanto, outros lugares onde são produzidos vinhos com a Sauvignon Blanc com qualidade. Nas regiões frias do Chile, África do Sul, e com controle de técnicas de cultivo na Austrália, Califórnia e até no Brasil.

 DOMAINE COLLIN CRÉMANT DE LIMOUX BRUT CUVÉE TRADITION

                 Antes de começarmos a degustação propriamente dita, preparamos nossas papilas com esse ótimo Crémant de Limoux, da região do Languedoc. Trata-se de um espumante elaborado pelo método tradicional, com as uvas Chardonnay, Chenin Blanc, Pinot Noir e Mauzac. Muito fresco, aromático e leve. Além da boa acidez, bom corpo e sabores cítricos, pêra e maçã. Foi uma bela introdução para vinhos de verão.

Saca rolha - Sauvignon Blanc

MAISON SCHRÖDER&SCHŸLER CHARTRON LA FLEUR BORDEAUX SAUVIGNON BLANC 2011

                O 1º vinho da noite veio de Bordeaux, da região chamada Entre-deux-mers, que é o triangulo entre os rios Dordogne  e Garonne, e onde se produz a maioria dos vinhos brancos secos de lá. Esse vinho já havíamos provado no desafio de Bordeaux-margem esquerda x margem direita. Mas sempre é bom repetir o mesmo vinho, porém em um contexto diferente. Nesse caso, ele mostrou toda a personalidade que está impressa no estilo de Bordeaux, com as características da Sauvignon Blanc. Ou seja, muito aromático e fresco, apesar da estrutura densa, encorpada e boa persistência. Um vinho bem complexo, que vai evoluindo sempre. Ótima acidez, que o faz um bom acompanhante de comida e no final, sem perder o frescor, mostrou seu lado mineral, com um sabor de cinza ou fumaça. Muita elegância!

 WILD ROCK INFAMOUS GOOSE SAUVIGNON BLANC 2012

         O 2º vinho, veio justamente fazer um contraste, em relação ao anterior, mostrando a versatilidade que uma única casta, com tratamento diferente (clima, solo, cultura, etc ) proporciona vinhos com a mesma característica, porém com personalidade diferente. Da Nova Zelândia, região de Marlborough, esse chegou marcando  presença! Com uma vivacidade incrível, aromas típicos herbáceos da SB de grama cortada, mineralidade de maresia, cítricos e acidez que fazia salivar. Com o tempo apareceu algo defumado que foi evidenciado pela mousse de haddock e salmão defumado que tínhamos para acompanhar os vinhos. Grande persistência!

 BELLAVISTA ESTATE BUENO SAUVIGNON BLANC 2012

          O 3º vinho, veio da região da Campanha Gaúcha no Rio Grande do Sul. Fruto da fusão entre a Miolo e a Bellavista Estate, de propriedade do Galvão Bueno (o jornalista esportivo ) que se aventurou no mundo dos vinhos e criou a linha Bueno. Contou com a assessoria do enólogo Michel Rolland, e investiu na produção de vinhos de qualidade Premium. Esse, 100% SB, no início causou uma certa estranheza no nariz, algo químico, canforado. Talvez uma mineralidade, que logo foi se transformando. Apareceram ervas aromáticas ( funcho, manjericão ) e um leve frutado ( marmelada ). Boa acidez, bom extrato com frescor. Um vinho muito agradável!

 CASA SILVA COOL COAST SAUVIGNON BLANC 2012

         O 4º vinho, do Vale do Colchágua, no Chile, que é sub dividido em três regiões: Costa ou Paredones, nas escarpas da cordilheira dos Andes. Entre Cordilheiras, zona plana e central e Andes, região de altitude onde está a sub região de Apalta. E foi na região da Costa ou Paredones, de frente para o Oceano Pacífico, que a SB de adaptou melhor por ser uma região mais fria, menos ensolarada, que recebe os ventos oceânicos, além do solo pedregoso. De lá pudemos provar um vinho quase transparente, muito fresco, cítrico, mineral e com ótima acidez. Apesar de sua leveza, tinha uma forte presença aromática e estrutura na boca com certa cremosidade e longa persistência. Acompanhou bem o queijo de cabra, mas acho que escoltaria bem desde  pescados simples, até pratos mais cremosos. Muito versátil!

 JOSE PARIENTE SAUVIGNON BLANC 2009

         O 5º vinho veio de uma região que não tem a tradição da Sauvignon Blanc. Na Espanha, em Castilla y Leon, uma grande planície ao longo do rio Duero, encontra-se uma D.O. (denominação de origem) chamada Rueda. Nesse local a uva principal é a Verdejo, mas a SB também é autorizada. Aqui mais uma vez, o clima é o grande determinante na produção de uvas com qualidade para criação de vinhos frescos e bem estruturados. Com dias de grande amplitude térmica, verões quentes e longos, e invernos muito frios, influência marítima do oceano Atlântico pelos ventos que se guiam através vale do rio Duero (o mesmo que atravessa Portugal, como Douro ).

         Esse vinho começou timidamente mostrando alguns aromas vegetais, herbáceos e com algum tempo, toda a tipicidade do SB apareceu com força. Muito bem equilibrado na acidez, corpo, e sensação alcoólica na boca de calor. No final, me pareceu um pouco pesado (acho que o fator idade influenciou), deixando de lado aquele frescor que sempre se espera desse tipo de vinho.

 CONCHA Y TORO TERRUNYO SAUVIGNON BLANC 2011

          Nosso 6º vinho veio do Chile, mais precisamente do Vale de Casablanca. Trata-se da linha Premium da gigante Concha y Toro, que possui vinhedos nessa região, com vocação para o cultivo das castas Chardonnay e Sauvignon Blanc. Suave no nariz, mostrando muita elegância e sutileza. Sem arestas que chamem a nossa atenção para algo, a despeito de qualquer outra. É o que se pode dizer de um vinho com equilíbrio. Acidez e frescor que cumprem a expectativa que se espera de um Sauvignon Blanc.

CHATEAU DE TRACY MADEMOISELLE “T” POUILLY FUMÉ 2011

               O 7º, e último vinho da noite! Voltamos  à região onde tudo se originou. Pouilly-Fumé, no Vale do Loire na França. São vinhos excepcionais e profundos, principalmente como de uma maneira natural, simples e direta, conseguem descrever, todo aquele “terroir” presente ali há tantos anos. Seus SB são secos, minerais e refrescantes com um leve toque defumado e esse não fugiu à regra. Um vinho para viajar! 

          A Sauvignon Blanc, depois da Chardonnay, é a casta branca mais conhecida e plantada no mundo. Os vinhos elaborados com ela, apresentam grandes variações, expressando as características dos diferentes terroir aos quais ela encontra facilidade em se adaptar. Gosta de climas marítimos, frios, nebulosos, solos calcários e arenosos. Os vinhos geralmente são frescos, sem amadurecimento em madeira, para serem consumidos jovens, com comidas leves. Por isso são ótimos no verão e combinam muito com o nosso clima e a nossa culinária costeira de peixes e frutos do mar.

         Aproveite esse verão, que pelo jeito será longo, e ponha sua garrafa de SB no gelo e refresque-se! ”   Bem meus amigos, por hoje é só e semana que vem tem mais. Falando de vinhos, Garimpando Gostosuras com a amiga Rejane, dicas e curiosidades de nossa vinosfera e “otras cositas más”! Um ótimo fim de semana para todos, salute e kanimambo.

        

  

   

 

 

Merlots Premium Brasileiros ás Cegas

Começamos o ano de 2014 encarando paradigmas sobre o vinho brasileiro. Decidimos provar alguns dos principais e mais conceituados Merlots nacionais colocando-lhes um adversário no mesmo patamar para que tivéssemos um real parâmetro comparativo, um exemplar da Patagônia argentina. Pessoalmente, acho que na relação Qualidade x Quantidade, temos hoje o melhor Merlot da América latina, quiçá das Américas. Há ótimos vinhos chilenos, argentinos e até americanos, porém a média de nossa produção é realmente muito boa e com os mais diversos estilos, afinal Michel Rolland andou por aqui e deixou seu legado, sendo vinhos aos quais os seguidores de Baco deveriam dar um pouco mais de atenção enterrando seus preconceitos. Não acredita?! Tudo bem, mas pelo menos lhes dê uma chance; prove e às cegas!! .     

         Tendo dito isso, vou deixar a amiga e confreira Raquel Santos, a porta voz da Confraria Saca Rolhas, nos passar sua opinião sobre o evento e vinhos e no final dou um pitaco sobre o que provamos. Diz aí Raquel!

          No nosso primeiro encontro do ano, resolvemos começar pondo o pé no chão e ordem na casa.  Não que o ano que passou tenha sido ruim, longe disso. Basta ver quantas vezes a Confraria Saca Rolhas foi citada na lista dos “Deuses do Olimpo” neste blog! Realmente foi muito bom. Ótimas degustações, ótimos vinhos!

         Resolvemos fazer uma degustação às cegas, com vinhos nacionais, equivalentes, de qualidade premium e elaborados com a uva Merlot, das safras entre 2005 a 2008. Sabíamos que entre eles havia um intruso e isso sempre é bom para desequilibrar as referências pré concebidas e mexer um pouco com nosso sensorial.

         O fato de conhecermos melhor o que temos por aqui, poderia nos dar parâmetros para compará-los com outros merlots já degustados em outras ocasiões, do mesmo nível, em termos de qualidade, faixa de preço, e perceber da evolução da produção brasileira. A uva Merlot, proveniente da região de Bordeaux na França, proporciona vinhos com taninos macios, aromas elegantes e sabores frescos, frutados que evoluem muito com o tempo. Atualmente já é consenso entre os enólogos que é a casta que melhor se desenvolveu na serra gaúcha.

         Pudemos comprovar isso na taça com os belos exemplares que nos foram selecionados:

Salton Desejo 2006 – Aromas muito frescos de ervas, especiarias, cítricos ( lembrando casca de laranja). Na boca era suave, com média acidez, taninos finos e pouco corpo. Com o tempo, evoluiu bastante na taça, mostrando outro lado, mais consistente de madeira, couro e chocolate. Bento Gonçalves/RS. Preço médio: R$75,00

Miolo Terroir 2008 – Ataque alcoólico com presença de acidez e taninos. Na boca é muito frutado e vai se equilibrando cada vez mais com o tempo. Vale lembrar que esse vinho foi promovido pelo produtor como “melhor Merlot do mundo” depois de vencer uma competição internacional em sua faixa de preço. Vale dos Vinhedos/RS. Preço médio: R$130,00

 Pizzato DNA 99 2005 – Sua primeira safra, proveniente de um único vinhedo, que gerou seu famoso Merlot de 99, mereceu destaque pela qualidade e complexidade. De aromas frescos, mentolados e elegantes. Muito equilibrado, e grande potencial de evolução na taça. Foi se modificando incessantemente, com sabores e aromas sedutores. Vale dos Vinhedos/ RS. Preço na Vinícola: R$170,00

Valduga Storia 2006 – Muito aromático, com especiarias, madeira e frutas. Na boca, a madeira se confirma e aparecem nuances de caramelo, tostado, chocolate amargo, etc….. evolui muito na taça. Muito equilibrado! Bento Gonçalves/RS. Preço médio R$160,00

 Patritti Primogénito 2009 – À primeira vista, ou melhor, à primeira fungada, causou estranheza, por algo químico ou muito forte que não conseguimos identificar. Pareceu-nos bem diferente dos anteriores. Sabores marcantes de especiarias (anis), pinho, ameixas, frutas vermelhas e madeira bem incorporada. E apesar da potencia inicial, demonstrou bom equilíbrio e vocação gastronômica, com destaque para a acidez que pedia algo que o acompanhasse ou fizesse um contraponto. Esse era nosso intruso, que chegou metendo o pé na porta, mas depois se comportou muito bem! Patagônia/ Argentina. Preço médio: R$110,00

Merlots na Confraria Saca Rolhas

 Ao fim da degustação, algumas características ficaram evidentes para nós: Houve uma significativa evolução dos vinhos de qualidade em nosso país. Apesar de não se mostrarem desde o início, na taça, deixam claro seu potencial evolutivo, porém ao mesmo tempo que crescem na taça, também se cansam  logo. São como crianças felizes e saudáveis, que depois de um dia de brincadeiras agitadas, caem no sono instantaneamente em qualquer canto.

         Outra questão que me chamou atenção, depois pesquisando o assunto, foi a tentativa da mídia ou mesmo do produtor, de equiparar o produto nacional com o estrangeiro. A ideia de igualar seu produto a um Bordeaux ou promover um vinho como “o melhor Merlot do mundo”, soa, a meu ver,  um pouco exagerado. Eu, defensora que sou do vinho brasileiro, acho que temos muito à caminhar nesse sentido. Além disso temos a questão do custo Brasil, onde os impostos aqui aplicados não são nada incentivadores, tanto para produtores como para consumidores. Enfim, isso é assunto para muitos outros posts e que temos que continuar pensando e adequando à nossa realidade.

         Essa foi uma degustação para refletirmos o que foi, o que é e o que poderá ser, no futuro a produção de vinhos no Brasil. Se olharmos para trás, nos anos 80, quando a produção era ínfima e o que é hoje, podemos ver que existe uma grande evolução. E se compararmos com os países que produzem vinho à séculos, nós estamos apenas começando.  

       Como disse deixei para o fim meus pitacos sobre mais este encontro da Confraria. Como a degustação foi ás cegas, deixei para abrir os rótulos somente após uma votação quanto ao melhor vinho da noite. Houve uma clara divisão, porém a maioria optou pelo vinho mais pronto e mais redondo de todos, o Salton Desejo, seguido do DNA e do Primogênito. Pessoalmente, achei que o DNA e o Primogênito roubaram a cena um degrau acima dos demais, mas isso é muito pessoal! Incrível a vida ainda presente nesse DNA com já oito anos nas costas e que ainda promete grande evolução na garrafa, quem conseguir guardar verá! Por outro lado, afora o posicionamento de preço do Desejo da Salton que está muito em linha com o mercado, o restante está num patamar que realmente pretende ser exclusivo, vinho para poucos e, considerando que cada um monta a estratégia que lhe for mais interessante, algo que temos que respeitar ainda mais quando vendem tudo o que colocam no mercado.

     Não podia deixar de ressaltar que o Storia 2005 segue sendo imbatível. Já tinha provado o 2008 e agora o 2006, mas ficaram bem aquém da primeira edição deste ícone da Valduga, uma raridade no mercado que quando achado passa das absurdas 400 pratas! Enfim, mais uma noite muito agradável em que aprendemos um pouco mais das coisas desta nossa complexa vinosfera com toda a sua diversidade e variáveis, tendo tido como abertura o saboroso e fresco Angas Brut, o espumante australiano mais exportado, que preparou nosso palato para o que estava por vir. Kanimambo, salute e um ótimo fim de semana para todos lembrando que ainda temos algumas poucas vagas disponíveis para dia 13 na Vino & Sapore.

 

      

Rioja e seus Vinhos

Hoje a Espanha amplia seu leque de regiões produtoras para o mundo, porém Rioja sempre será a marca principal e símbolo de um país que gera grandes e inesquecíveis vinhos, haja visto que o melhor vinho do ano para a revista especializada Wine Spectator, foi exatamente um Gran Reserva de Rioja, o Cune Imperial 2004 que, em 2011 e com outra safra, já fez parte de meus Deuses do Olimpo!  No encontro deste mês da Confraria Saca Rolha, foi a vez de conhecermos e provarmos alguns destes vinhos e, através deles, tentar conhecer um pouco da história por trás da região, seus sabores e mistérios. Eis o que nossa porta voz e confreira, Raquel Santos, tem para nos relatar sobre o encontro e os vinhos.  

        Mais um encontro da confraria, final de ano chegando e  todos esperam que o calor chegue também, certo? Errado! Nosso começo de primavera tem sido bem atrapalhado, com ondas de frio pegando todo mundo de calça curta…..Por outro lado, veio a calhar a nossa escolha do tema desse mês: Vinhos da Espanha. Mais precisamente da região de Rioja. Digo isso, porque se existisse uma só palavra que definisse o estilo desses vinhos, seria “versatilidade”. São vinhos de personalidade forte, mas que se adaptam muito bem às circunstâncias.

         A região, que está localizada ao norte do país, recebe a influência dos climas atlântico e mediterrâneo. Abrigada ao norte pela Sierra rioja-map by Quentin Sadler-2013Cantábria e ao sul pela Sierra de la Demanda, é cortada pelo Rio Ebro. As temperaturas variam de acordo com as sub-regiões: Rioja Alta – com clima Continental, e influência do mar Cantábrico, tem invernos muito frios e verões quentes e secos. Rioja Alavessa – com clima de influência atlântica e mediterrânea, com invernos frios e chuvosos e verões amenos. Rioja Baja –  influência mediterrânea, com clima mais quente e seco.

         Além do clima, convivem ali diferentes culturas. Rioja Alavessa, do lado norte do rio Ebro, a província de Álava é basca, com sua própria língua, e politicamente luta para ser um país independente. Do outro lado do rio, Rioja Alta, na província de San Vicente de la Sonsierra (oeste) e Rioja Baja na região de Logroño (leste). Contudo, essas diferenças parecem desaparecer quando se fala da uva Tempranillo.

         Muito versátil, ela ocupa quase todo esse território e reina soberana. E ainda mostra-se muito amigável com outras variedades que  complementam e valorizam suas qualidades: A Garnacha, a Mazuelo e a Graciano. Com elas, produzem vinhos que podem variar de delicados a potentes, dependendo da maturação, evolução e envelhecimento nas barricas de carvalho.

         Igualmente acontece com sua principal casta branca: A Viura, que juntamente com a Malvasia de Rioja e a Garnacha Blanca, resultam num vinho fresco, fácil de beber e acompanham bem uma refeição. Por outro lado, é tradicional na Rioja o processo de passagem por barricas também para os brancos. A evolução é surpreendente, resultando vinhos muito vibrantes e ricos em sabor.

         Esse processo de afinamento que consiste na maturação do vinho, depois da fermentação, em barricas de carvalho é uma técnica que os espanhóis dominam como ninguém. O objetivo é enriquecer o conjunto sem ofuscá-lo. O passo seguinte é o tempo que o vinho depois de maturado, clarificado, filtrado (ou não) e engarrafado ficará  “envelhecendo” na cave antes de ser comercializado.

         A classificação de qualidade dos vinhos da Espanha é baseada nesse processo de elaboração, e foi dividido em quatro categorias:

   Joven ou Cosecha: Brancos e Tintos – sem passagem por barrica

  Crianza: Brancos – mínimo de 6 meses em barrica

               Tintos ( 2 anos)– mínimo de 12 meses em barrica + 12 meses em garrafa

  Reserva: Brancos ( 1 ano)– mínimo de 6 meses em barrica + 6 meses em garrafa

             Tintos ( 3 anos)– mínimo de 12 meses em barrica + 24 meses em garrafa

  Gran Reserva: Brancos (4 anos)– mínimo de 12 meses em barrica + 36 meses em garrafa    

                   Tintos (5 anos)- mínimo de 24 meses em barrica + 36 meses em garrafa

          Começamos a degustação com um branco fermentado em barrica:

    Rioja - Luis Canas Viura Barricado II     Luis Cañas 2010 – Da Rioja Alavessa, elaborado com 90%Viura e 10% Malvasia. Um branco fermentado em barrica sobre as lias, onde permanece por 3 meses. Muito fresco, com aromas florais e baunilha. Na boca lembra abacaxi e casca de limão. Enche a boca com ótimo extrato. Bem típico da região.

         

O segundo vinho da noite foi um 100% Tempranillo, da região de Rioja Alta:

         Sierra Cantabria Selección 2011. Bem frutado, com especiarias e chocolate. Na bocaRioja - Sierra Cantabria seleccion aparece uma mineralidade quase que salgadinha. Muito equilibrado e madeira bem incorporada. Acompanha bem uma refeição, aperitivos, ou mesmo sozinho para relaxar. Leve, gostoso e despretensioso. Lembram quando falei de vinhos versáteis? É esse!

         

O terceiro foi um Crianza, 100% tempranillo, também de Rioja Alta:

Rioja - Finca Nueva Crianza         Finca Nueva 2007. A madeira é o que aparece primeiro dando as boas vindas! Depois, muito suavemente e em camadas aparecem aromas de tabaco, folhas de chá, alguma erva mentolada (cânfora). Na boca se mostra mais frutado, com álcool presente, mas bem colocado juntamente com os taninos finos e boa acidez. Um vinho bem instigante…e o rótulo é lindo!

          No quarto vinho o assunto foi ficando mais sério:

         Marques de Murrieta Reserva 2007. Um vinho tradicional da região de Rioja Alta, nas Rioja - Marques de Murrietaproximidades da província de Logroño. Elaborado com 85% Tempranillo, 8% Garnacha, 6% Mazuelo e 1% Graciano. Permanece 20 meses em barrica e 24 meses em garrafa. Muito equilibrado, com ótima acidez, taninos macios e corpo que permanece um bom tempo na boca. Vai se mostrando aos poucos, nuances de fruta madura, um leve defumado, um toque de madeira abaunilhado, ervas perfumadas que remetem à vinha d’alhos… enfim, uma nebulosa caminhada que exige tempo e paciência para percorrer. Aos que se dedicarem a ela, a recompensa será infinita, pois permanece na memória por muito tempo.

          O quinto e último vinho, para encerrar a noite com chave de ouro:

 Rioja - Lan Gran Reserva        Lan Gran Reserva 2003. Mais um de Rioja Alta, este vinho foi feito com 85% Tempranillo, 10% Mazuelo e 5% Garnacha. Antes da comercialização, passa por 24 meses em barricas de carvalho e depois mais 36 meses em garrafa. Um belíssimo exemplar, que apesar dos seus 10 anos, ainda demonstrava muito potencial para evoluir. O mérito de um Gran Reserva não é o tempo que passa em barrica e sim se há extrato suficiente no vinho para receber essa longa permanência. Esse conseguiu e ainda está em fase de crescimento.

          O tempo de vida de um vinho depende de vários fatores. Quanto maior for seu extrato, volume de álcool, acidez, açúcar e taninos, maior será sua durabilidade. É um erro pensar que quanto mais velho, melhor é o vinho. Cada vinho tem seu tempo certo de vida e assim como as pessoas, uns envelhecem bem, outros nem tanto. Todo vinho tem sua infância, juventude, maturidade e velhice. O momento em que podemos encontrar seu esplendor, é uma tarefa difícil, que funciona como um belo aprendizado na base da tentativa e erro. Tanto um vinho bem jovem pode ser encantador, nos mostrando sua vivacidade e inquietude, quanto um envelhecido que mesmo já tendo passado do seu ápice, retratando suas “rugas”, ainda pode ser uma experiência interessante. Nessa hora, o caráter ou a personalidade é que conta. A diferença pode ser algo bem parecido entre brincar com uma criança de 1 ano ou conversar com uma pessoa de 100 anos!

         A decisão do melhor momento para apreciar um vinho está nas nossas mãos. Enófilos  como na nossa confraria, curiosos e apreciadores de um bom vinho em geral, nunca faltarão. E se depender de mim……

Uma Noite Portuguesa Com Certeza!

DSC02922A confraria Saca Rolha comemorou seu segundo ano de vida em grande estilo e as taças que aguardavam por nós nesse dia, eram muitas! A amiga Raquel, nosso porta voz aqui no blog, deu um show com seu texto aqui abaixo, mostrando bem o que aconteceu nessa noite tão especial. Um momento para lá de saboroso com a sempre gostosa companhia dos confrades e confreiras, bons vinhos e interessantes experiências enogastronomicas. Enfim, fiquem com o texto da Raquel que está maravilhoso e também me despertou saudades!

A emoção é um estado momentâneo em que o indivíduo que se expõe a uma experiência qualquer, se manifesta através de reações somáticas. Essas reações podem ser medo, alegria, raiva, etc… Isso tudo são explicações técnicas, psicológicas, mas e quando se tem a sensação nostálgica de algo que nunca vivenciamos? Como por exemplo: Saudade de Portugal, suas paisagens, cheiros, cores e sabores.  Esse é o ponto! Eu nunca estive em Portugal, e de alguma forma, matei as saudades de lá! Foi numa noite de comemoração com amigos, em volta de uma mesa portuguesa com certeza!Colina Brut Nature

            Logo que chegamos, brindamos ao encontro com o excelente espumante Colinas Reserva Brut Nature. Elaborado pelo método tradicional, super aromático, lembrando avelãs, creme pâtisserie, biscoito e um delicado floral ao fundo. Na boca, ao contrário do que sugeriam os aromas adocicados, era sequinho, com boa pérlage e longa persistência. Quem ainda não conhece os espumantes portugueses, não sabe o que está perdendo!

            Hora de sentarmos à mesa e para a surpresa de todos, a imagem de uma enorme garrafa alongada (Magnum), típica da região de vinho verde, nos deu a dimensão do que ainda estaria por vir!  Era um Soalheiro 2011, 100% alvarinho, que fez par perfeito com os camarões empanados e fritos. O Soalheiro é reconhecidamente um clássico dessa região, onde a ótima acidez, corpo, aromas frescos, cítricos, minerais e herbáceos, são perfeitamente equilibrados. Eu já me daria por satisfeita ali mesmo, mas o show devia continuar.

soalheiro magnum

            Esperávamos por uma harmonização inusitada: caldo verde e vinho verde tinto. Para acompanhar, foi-nos apresentada a famosa broa portuguesa que nada mais é que um pão camponês feito de farinha de milho branco. Apesar de já ter ouvido falar desse pão, que aparece como ingrediente nas receitas de bacalhau, é muito raro ser encontrada por aqui. Mesmo com tantas padarias e seus proprietários lusitanos em São Paulo, apenas uma delas fabrica a broa portuguesa como na sua origem, estilo camponês com sua côdea (casca crocante). Esse pão era um dos ingredientes da “sopa do cavalo cansado”, que os camponeses comiam regado pelo vinho verde tinto (quente e polvilhado com açúcar), Linhares Tintodepois de um dia de trabalho duro. Essa sopa levantava até defuntos!

            O vinho verde tinto tem sido menosprezado por sua rudeza. Com alta acidez, taninos potentes e baixa graduação alcoólica, faz dele um vinho duro e áspero. Por essa razão os produtores tem dado preferência aos brancos onde se consegue melhor qualidade. O vinho escolhido foi o Quinta de Linhares 2010, região do Minho. Como já era de se esperar, um vinho “duro” com taninos ásperos, boa acidez e bem aromático. Muitos torceram o nariz pra ele, até a hora de harmonizá-lo com o caldo verde, a partir daí, tudo ficou mais macio e principalmente dentro do contexto: A broa, azeite, caldo verde e o vinho. Não ficou difícil enxergar coerência nisso tudo. Os hábitos culturais aparecem ao acaso, mas não permanecem por acaso.

             Depois dessa imersão cultural (será que foi lavagem cerebral, rs..rs..), já estávamos até com sotaque(e saibam que portugueses de verdade lá só haviam 2!).

Então foi chegada a hora do Bacalhau. Muito bem executado, de maneira simples, com muito azeite, alho, cebolas e suas batatinhas. Para acompanhá-lo, três regiões importantes: Dão, Alentejo e Douro.

Clipboard Portugal & Bacalhau

            Casa da Passarela – Vinhas Velhas – 2008.(Dão)

            Aromas inebriantes logo de cara! Um leque enorme que alternavam-se com o passar do tempo na taça. Muito equilibrado na acidez, taninos macios e ótimo extrato. Um vinho que me surpreendeu pela elegância. Não dividiria a atenção dele com mais nada. Talvez……… só um queijinho da Serra da Estrela, rs..

            Herdade deSão Miguel  – Touriga Nacional  2010. (Alentejo)

            Mostrou-se bem discreto no nariz. Já na boca, cheio de fruta, bem encorpado e equilibrado. Junto com o bacalhau, salientou as ervas que temperavam o prato.

            Altano Reserva – Quinta do Ataíde -2008. (Douro)

            Produzido pela família Symington, um dos maiores produtores do Douro e  famosos pelo Porto Graham’s. Esse vinho, também elaborado com Touriga Nacional, mostrou aromas de azeitona, frutas secas e alguma mineralidade. Denso, enche a boca, com notas de madeira bem incorporadas. Quanto a harmonização, as opiniões divergiram. Eu gostei mais deste com o bacalhau.

            Depois de muito comer e beber, gostar mais desse ou daquele vinho, tínhamos que tirar a prova dos nove, certo? Pensando nisso, um dos confrades nos agraciou com um bônus e tanto!

           Casa Ferreirinha – Reserva Especial – 2003.Casa Ferreirinha

            Esse vinho é um ícone da região do Douro ao lado de seu irmão-mor “Barca Velha”. Os dois são produzidos a partir de uvas do mesmo vinhedo, são envelhecidos em barricas de carvalho, engarrafados e depois de anos, dependendo da qualidade da safra, são rotulados. As safras excepcionais serão Barca Velha e as outras Casa Ferreirinha. Só posso dizer uma coisa: se o Ferreirinha já é um vinhaço, imagino o outro!!!!!  Na taça ele já mostra uma cor intensa e escura. Aromas extremamente frescos e elegantes que vão evoluindo com o tempo, como se pedindo a nossa companhia, fica nos entretendo o maior tempo possível. Amável, robusto, cheio de sabor. Um vinho de caráter que valeu muito conhecer.

            E para encerrar a noite com chave de ouro, o vinho mais dourado que já provei!

            Quinta do Portal – Moscatel do Douro – Reserva 2000.

            Dizem que a primeira impressão é a que fica. Talvez……mas a última faz com que uma história tenha começo, meio e fim. E quando o fim é bom, vamos lembrá-la para sempre. Acho que nesse caso, esse Moscatel só deixou boas lembranças. A começar pela cor , um alaranjado brilhante, incrível. Os aromas, voluptuosos, de amêndoas, erva doce, anis, mel, etc… Por mais que eu tente descrever, jamais conseguirei chegar perto das sensações que vivi. Acompanhou como um imã o toucinho do céu.

             Comecei esse texto falando de emoções, nostalgia de lugares nunca antes visitados. Há quem diga que a linha que separa a fantasia da realidade é muito tênue. Partilhar algum tipo de experiência, que envolva a boa mesa, bons vinhos com bons amigos, nos ajuda a vivenciar situações inesquecíveis. Afinal, navegar é preciso!

Quinta do Noval Moscatel 2000 com Toucinho do Céu

Bem, depois disso, só me resta dizer um kanimambo especial à Raquel por esta descrição tão saborosa dos momentos vividos nesse encontro, e desejar que tenhamos condições de celebrar nosso terceiro ano com as mesmas emoções. Salute e uma ótima semana para todos com, preferencialmente, mais vinhos de Portugal.

 

 

 

Rhône e seus Vinhos na Confraria Saca Rolha

Mais uma vez a amiga e confreira Raquel Santos nos relata sua experiência em mais um agradável encontro desta nossa gostosa Confraria. Mais que os vinhos, a oportunidade de pelo menos uma vez por mês podermos desfrutar da companhia dos amigos. Desta feita “viajamos” para a região de Côtes-du-Rhône na França e, para variar, uma diversa e saborosa seleção de rótulos culminando com uma soberba surpresa! Vejamos o que a Raquel tem a nos dizer:

  “O vale do rio Rhône, está localizado entre os Alpes Suíços e o mar Mediterrâneo. Ao norte, está a cidade de Lyon, que além de ser um polo industrial, também possui um entorno rural que abastece toda a região com uma produção de excelente qualidade. Ao sul, está a cidade de Avignon, que se desenvolveu quando no século XIV o Papado mudou o Castelo de Roma para a região e começaram a cultivar as primeiras videiras.

Mapa do Rhone - Dobra Vinoteka

Percorrendo os vinhedos que margeiam o rio Rhône de norte a sul, pode-se perceber uma grande diferença de clima, solo, e variedade das uvas. Ao norte, (Rhône Setentrional), o clima é continental com verões bem quentes e invernos frios. As videiras são plantadas em penhascos pedregosos de granito, entremeados de florestas de carvalho que refrescam o ar pela neblina ao amanhecer. A uva predominante é a Syrah. Resultam em vinhos robustos, de cor escura e longevos. Para os brancos, destacam-se a Marsanne, Roussanne e Viognier.

 Desta região, degustamos um “ Brunel de la Gardine” – 2007 – da região de St-Joseph.

        Syrah 100%, aparentemente um pouco fechado, mas aos poucos foi mostrando uma riqueza de aromas e sabores que seduziu os mais incrédulos. Talvez pelo equilíbrio, ficou mais difícil identificar uma característica isolada. Aromas de frutas, frescor e um leve defumado, alternavam-se com com a textura macia na boca sem perder intensidade.

        Continuando o passeio, em direção ao sul, (Rhône Meridional), podemos notar que à partir de Montélimar as características da região se transformam. O clima passa a ser mediterrâneo, com influências do mar. Os verões são quentes e o inverno ameno, mas as vezes chega a 0 grau. Os ventos frios que vem do sul (Mistral) fazem as chuvas serem fortes e rápidas, baixando a temperatura rapidamente à noite. Os vinhedos se expõem ao sol forte durante o dia, que também aquecem as pedras que cobrem todo o solo, protegendo a videira do frio à noite. Aqui predomina a uva Grenache que junto com a Mourvèdre, Cinsault, e também a Syrah. Das variedades brancas, encontra-se a Marsanne, Roussanne, Viognier, Clairette, Bourboulenc, entre outras que são vinificadas para tintos, brancos e rosés.

Clipboard Rhone

            Além das diversidades de solo e clima, a região do Rhône meridional, é mais recortada no que diz respeito às apelações de origem. A mais comum delas é a de Côtes du Rhône, usada genericamente. As denominações que indicam o nome das comunas provenientes, representam um fator de maior qualificação. É o que acontece no caso dos Côtes du Rhône-Village, que representa 95 comunas qualificadas.

Degustamos o “Clos Petite Bellane“-Valreas –  Um Côtes du Rhône-Village de 2007.

Logo já percebemos um aroma bem frutado, característica das castas mediterrâneas (Grenache/Syrah). Boa acidez, taninos presentes, porém delicados. De médio corpo e mostrou muita evolução na taça. Aromas herbáceos com algumas especiarias (pimenta verde e anis).

De outras duas pequenas propriedades (Cru), incrustradas entre Côtes du Rhône e Côte du Rhône-Village, foram degustados:

“Château Saint Roch Brunel” – Lirac -2008.

Aromas florais e frutas vermelhas. Bom equilíbrio entre acidez, taninos e extrato. Madeira bem incorporada. Corte de Syrah/Grenache/Mourvèdre.

Domaine la Monardière Les 2 Monardes” – Vacqueyras -2006.                                                            

Ataque floral, sobrando um pouco de álcool. O mais austero deles. Acidez e taninos bem  incorporados que alternavam com um sabor picante e frutas doces e maduras. Aromas que evoluíram bem na taça.

          Ainda circundando a região do Rhône Meridional, não poderíamos deixar de conhecer a região icônica de Chateauneuf du Pape. Conhecida não só pela sua história, mas também pela qualidade, produz vinhos com até treze castas, embora, na prática, nunca se utilize todas elas. A Grenache domina nos tintos. Os brancos, produzidos em menor quantidade, são encorpados e estruturados, com aromas delicados e grande persistência gustativa. A região demarcada fica ao norte de Avignon, onde está localizado o Castelo Papal de verão em ruínas. O clima é muito árido, pedregoso, onde só os arbustos de lavanda e tomilho selvagem, sobrevivem ao vento e a grande amplitude térmica do dia. Foi com grande prazer que conhecemos dois exemplares desse terroir:

“Domaine Font de Michelle” – 2010–

Elaborado com 70% Grenache/10% Syrah/10% Mourvèdre/10% outras: Cinsault/Counoise/Terret/Muscardin. A primeira sensação no nariz, é de frescor, ervas  aromáticas (alecrim/tomilho) e florais. Na boca, revelou-se voluptuoso, apesar de ser jovem. Me pareceu um pouco tímido (sem ser um defeito), necessitando que déssemos mais tempo a ele. Elegante muito bem equilibrado, com vocação gastronômica pela acidez bem incorporada. Grande potencial de guarda.

“Château de Beaucastel” – 2001

Essa preciosa garrafa veio da adega dos amigos Luiz e Ana, que gentilmente nos presenteou. O Beaucastel, juntamente com o Clos des Papes, são os únicos que ainda usam as 13 variedades das castas permitidas em Chateauneuf du Pape. Diferentemente do anterior, já mostrou todo seu potencial de prazer! Muito aromático (flores, frutos vermelhos silvestres, fruta seca, amêndoas, baunilha, etc….etc….e etc….). Na boca confirmava todas essas qualidades com muita elegância, mostrando através da rica paleta gustativa, as cores, sabores, e cheiros daquela paisagem.

O vale do Rhône  tem a questão do clima muito presente. Através dos seus vinhos pode-se viajar, como num filme, que nos conta a história e ensina a cultura de uma civilização. E o melhor dessa historia é quando nos identificamos com ela e temos a impressão que também podemos pertencer um pouquinho à tudo aquilo.

 Basta descobrir o caminho das pedras. “.

Seis Syrahs no Saca Rolhas

        Tenho degustado muita coisa legal em diversas degustações fora e também na Vino & Sapore, mas a falta de tempo não me tem permitido colocar no papel e tela essas experiências. Uma destas ocorreu ainda esta semana quando a confraria Saca Rolhas se reuniu para degustar vinhos Syrah de diversas origens. Uma bela degustação com um patamar de qualidade muito boa. Dois rótulos australianos, um francês, um português, um chileno e um sul-africano disputaram o título de melhor da noite.

Knappstein Shiraz 2008 (Austrália)– vinho de boa tipicidade da região, fruta madura, boa acidez, taninos equilibrados e um final de boca macia é um vinho redondo e fácil de gostar que possui uma ótima relação Qualidade x Preço x Prazer. Daqueles vinhos que, mesmo não sendo arrebatadores, terminam rápido na taça e pedem mais uma! (R$85)

St. Joseph Brunel de la Gardine 2007 (França/Rhône)– é sempre um prazer levar este vinho á boca por sua complexidade, riqueza de sabores e forma como ele se abre na taça tanto no sentido olfativo como no palato. Mais uma vez mostrou que é um vinho muito agradável porém se dá melhor com comida do que solo. Belo vinho, muito equilibrado, sem arestas e o quarto melhor do painel o que mostra que degustamos coisa muito boa nesta noite. (R$105)

Secreto Syrah 2009 (Chile)– na cor já mostra toda a sua diferença de terroir e conceito, mostrando-se cremoso na boca, fruta bem madura, boa estrutura, madeira bem presente, mas tem algo mais nessa composição do que somente Syrah, só não sabemos o quê e o produtor não diz! Saboroso, mas um degrau abaixo dos demais. (R$71)

Schild Estate Shiraz 2008 (Austrália/Barossa)– um senhor vinho que demora a abrir no olfato mas explode na boca causando um emaranhado de sensações. O 2005 já era muito bom e reinou por muito tempo nas diversas degustações que promovi ao longo dos últimos 4 anos, mas este chegou para chacoalhar o mercado e não é á toa que chegou onde chegou na avaliação da critica internacional, em especial da Wine Spectator que o destingiu com o sétimo lugar entre os top 100 de 2010. Muito rico, fruta madura (ameixa vermelha?) perfeitamente equilibrada com uma acidez no ponto e taninos muito finos e elegantes, um final de boca interminável em que aprecem nuances de tabaco, baunilha e pimenta. Não sei se é um blockbuster, mas certamente é difícil encontrar um vinho desta qualidade por pouco mais de 100 Reais. Faturou a noite com cinco primeiros lugares entre os doze participantes presentes, valendo cada tostão! (R$110)

Corte de Cima Syrah 2009 (Portugal/Alentejo)– para mim a maior surpresa da noite, um alentejano de grande qualidade que seduziu a maioria a ponto de alcançar a segunda posição da noite tendo sido para alguns o vencedor! Equilibrado, macio, madeira bem integrada, frutado e suculento, final muito saboroso, especiado, envolvente e de longa persistência, fazendo jus á fama deste produtor é uma das estrelas do Alentejo possuindo um portfolio de muita qualidade. (R$98)

Raka Biography 2009 (África do Sul) – escuro e denso mostrando-se muito equilibrado despertando sensações diferentes e alguns “uaus” entre os confrades e confreiras presentes. Talvez a melhor garrafa deste vinho que já tive oportunidade de provar. Aromas intensos e muito peculiares (café tostado/mineral/tabaco), encorpado, entrada de boca impactante mostrando uma personalidade muito própria e diferenciada de todos os outros vinhos tomados. Chegou de mansinho e levou o terceiro lugar da noite. (R$97)

        Este é somente nosso segundo encontro e já alcançamos, a meu ver, um patamar de qualidade muito bom com vinhos de preços médios. Agora é seguir garimpando trazendo á prova outros rótulos na busca de novas sensações e sabores. Junte os amigos você também, monte sua própria confraria  ou participe de degustações pois é uma ótima e agradável forma de ganhar litragem e descobrir os rótulos que mais lhe agradam sem ter que gastar muito,  transformando sua próxima compra em algo mais seguro reduzindo o risco de decepções.

       Uma curiosidade sobre os vinhos elaborados com esta cepa é de que afora a Austrália onde ela virou ìcone, o Chile vem produzindo alguns exemplares de muita qualidade, inclusive de clima mais frio, e na África do Sul onde ela está presente nos melhores vinhos de corte produzidos assim como em varietais. Garimpe por lá, você não deverá se frustar com as descobertas!

Salute e kanimambo