Existe a Safra Perfeita?

A meu ver, e na da maior parte dos entrevistados, a safra perfeita colheita-e-vinificacao1é uma verdadeira utopia desde os primórdios dos tempos, quando o egipcios produziam vinho lá pelo século III a.c.. Não existe a safra perfeita porque não existe perfeição em nada neste mundo, já que sempre algo pode melhorar, ainda mais quando estamos à mercê da tão mal tratada mãe natureza. No entanto, o que faz uma grande safra? Esta foi uma pergunta que me foi feita por diversas vezes e, mesmo sabendo a resposta, acredito que não tem gente mais competente para dar esse esclarecimento do que os enólogos e produtores de vinho que lidam com o vinho, a terra e as entepéries da natureza. Mais do que gente que fala de vinho, fui atrás de gente que FAZ vinho e/ou convive com ele na produção há décadas! Conversei com alguns que, gentilmente, me prestaram seus comentários que listo abaixo. No entanto, de forma genérica, a qualidade da safra é determinada pelo nível harmônico entre baixos rendimentos, baixas temperaturas com ausência de calor extremo e variações demasiado altas durante o amadurecimento e colheita assim como um menor índice de chuvas durante a época da colheita . Esses principais fatores regem a qualidade das safras permitindo que as uvas atinjam um melhor nível de maturidade produzindo fruta de altíssima qualidade que certamente será demonstrada nos vinhos produzidos. Também perguntei o que é importante para produzir bons vinhos. Eis algumas dessas respostas:

 

foto2Gabriel Cancino Enólogo da Caliterrea (Grupo Chadwick), Chile

1.- sanidad de la uva

2.- capacidad de esperar la madurez óptima (ausencia de lluvias)

3.- rendimientos controlados

4.- adecuada extensión de la temporada (no menos de 150 días)

5.- una buena planificación (recursos suficientes en la bodega)

 

dosroques6_luisLuis Lourenço – Quinta dos Roques (Dão) – Portugal

Para a safra perfeita (se é que tal coisa existe) precisamos de um inverno frio para induzir um “adormecimento” das plantas  durante algumas semanas e chuvoso para que tenhamos suficiente água no solo durante todo o ciclo vegetativo.

Uma Primavera suave, pode ter chuva em Abril mas não muito frio para evitar a geada e acima de tudo um Maio e princípio de Junho, que é o período da floração, sem chuva e com um pouco de vento para ajudar na polinização.

O Verão deve ser quente, sem exageros, com um ou dois aguaceiros para repor humidade no solo e noites frescas para manter uma boa acidez natural nas uvas.

Muito importante é não haver chuva durante a vindima para que tenhamos uvas bem maduras e saudáveis sem qualquer tipo de doença.

Com as condições acima, será muito provável obtermos uvas bem equilibradas, com boa maturação, aromáticas, taninos firmes mas elegantes, boa concentração e boa acidez. Devo dizer que ainda estou à espera da safra perfeita… mas isso é uma das coisas boas de ser produtor de vinho – esperarmos sempre melhorar e ter esperança na natureza!

 

emmanuelEmmanuel Delaille – winemaker e proprietário da Domaine du Salvard – Loire – França

1/ Sanidade das uvas durante o ano inteiro, especialmente no verão.

2/ Controle de rendimentos. Muita uva na vinha é ruim, assim como pouca também o é pois gera excesso de concentração.

3/ Clima ameno, sem chuvas em demasiado nem seco demais.

4/ Calor é importante, mas sem exageros. Quando muito forte como em 2003, o calor mata os aromas e reduz a acidez.

5/ Controle de qualidade na cantina, desde a colheita, passando pelo processo de vinificação até a última garrafa na caixa. Cada detalhe faz a diferença e é extremamente importante.

 

papaMarcelo Papa – enólogo da Casillero/Concha Y Toro – Chile

El bajo rendimiento, es decir, la presencia de parras con menos uvas, la ausencia de lluvias y un clima más frío en términos generales –  y más fresco en los dos últimos meses- le dio  mayor tiempo a las uvas para madurar. La maduración lenta permitió cosechar las uvas  en el momento óptimo, teniendo como resultado una cosecha perfecta.

El clima es un factor importante en el resultado final. En los años de clima frío se logran vinos mucho más elegantes. La maduración lenta de las uvas nos entregará vinos elegantes, suaves, de mejor acidez natural,  con colores espectaculares y muy concentrados

 

jmpJoão Machete Pereira – Symington Family Estates (Douro) – Portugal

Chuva Mágica:

Começando pelo Inverno, altura em que a vinha se encontra dormente, é extremamente importante ter bastante chuva e naturalmente temperaturas baixas pois queremos que a terra absorva o máximo de água possível para que os lençóis friáticos possam ficar totalmente recarregados. Esta será a reserva de água para a videira na altura de maior calor, o Verão. No Douro a irrigação está totalmente proibida.

Com o início da Primavera, a videira desperta do seu período de hibernação invernal, e para que a fase seguinte possa acontecer, a floração, é necessário que as temperaturas subam. Esta para mim é uma fase extremamente crítica, é bastante importante que as temperaturas não subam em demasia para que a floração se possa dar de uma forma gradual. Durante a floração um pouco de chuva é sempre bem-vinda pois funciona como um tipo de “poda em verde” natural. Assim a floração será mais pequena e a qualidade de fruta que iremos ter posteriormente será maior. Desta forma a videira poderá concentrar mais energia para cada flor, que irá depois dar lugar à fruta, a uva. É também importante que a chuva não seja demasiada caso contrário a floração não se irá dar, como em todas as outras fases (e talvez como em tudo na vida!) é necessário que seja na quantidade certa.

 

A fase seguinte em que a flor se irá transforma em uva, é importante que não haja chuva e que as temperaturas subam de uma forma gradual. O ideal é que as temperaturas de cerca de 40º C que possam aparecer unicamente a partir de meados de Agosto, na fase final da maturação. No final de Agosto,início de Setembro, caso o Verão tenha sido quente (como normalmente é aqui no Douro) as uvas deverão já estar ligeiramente enrrugadas começando a dar sinais de cansaço…por volta desta altura (e talvez esta é a parte mais importante) se podermos ter um pouco de chuva para que a uva possa recuperar um pouco de todo o calor do Verão é ideal. Aqui mais uma vez é importante que seja na conta certa caso contrário é extremamente prejudicial!

 

 Após esta chuva é importante que as temperaturas altas continuem durante o mês de Setembro e Outubro para que a vindima possa ser feita nas melhores condições. A fase final que também é extremamente importante é acertar com o dia para começar a vindima. Por aqui normalmente dizemos que a vindima começa no Verão e acaba no Inverno. Penso que esta expressão transmite bem o que é a altura ideal para começar a colher as uvas: tentamos aproveitar ao máximo os últimos raios de sol do Verão sem apanhar as chuvas de Outono.

 

Assim sendo, para ter uma safra perfeita é necessário além do calor, ter um pouco desta “chuva mágica” nestes três períodos.

 

         Tenho mais declarações e comentários, italianos/franceses e americanos, porém creio que os acima já mostram claramente que o clima e suas intempéries é que reinam sobre o vinho. Quanto muito, a tecnologia de vinificação conjuntamente com o conhecimento do individuo é que poderão corrigir alguns dos problemas surgidos na vinha numa má safra. Como exemplo gosto sempre de mencionar dois estupendos rótulos de 2002, considerado uma das piores safras Européias (desastrosa em alguns países) na última década; o Barão do Sul Garrafeira (Portugal) e o Marqués de Murrieta Reserva (Espanha) dois vinhos deliciosos e muito equilibrados.

        

luis-leao Finalizo com uma declaração de Luis Morgado Leão, enólogo da Herdade do Pinheiro, Alentejo, Portugal; “Não há requisitos básicos para uma boa colheita, mas sim uma série de fatores que influenciam a qualidade e quantidade dessa mesma colheita, tendo as práticas enológicas uma ação muito pequena nessa qualidade. Cada vez mais os bons vinhos são feitos na vinha e só nos resta a nós enólogos trabalhar bem e respeitar o que dela vem, dando continuidade no trabalho de adega”

 

Salute e kanimambo.