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Um Domingo em Mendoza!

Dia complicado de visitas a bodegas em Mendoza, pois tem gente por lá que também precisa de descansar! Afora isso era dia de eleições locais, mas mesmo assim, dois grandes momentos; a visita á Decero e à O. Fournier onde também almoçamos. No dia anterior tínhamos iniciado nossas atividades com uma visita para lá de especial, à Michelini Bros então estávamos ávidos por mais neste lindo dia de Domingo e as surpesas que ele nos traria.

finca-decero-logo-rgbA Decero é uma Bodega muito jovem começada do zero em 1999 por um casal de Suiços que tinham em mente um projeto especifico a executar e por isso mesmo queriam algo que eles mesmos pudessem moldar ao seu jeito e forma. É linda, perfeitamente integrada a uma paisagem encantadora. Uma voltinha rápida para uma visita às instalações da bodega, prova de barricas com o enólogo residente Tomás Hughes e chegamos numa linda sala de degustações com uma vista que faz com que qualquer vinho tenha um gosto para lá de especial, imagina quando os vinhos possuem esta qualidade!

Os vinhedos chamados de Remolinos, em função dos redemoinhos (foto no slide show abaixo) que se formam no campo, começaram a ser plantados em 2000 e as primeiras colheitas experimentais realizadas em 2004 e 05. Finalmente em 2006 as primeiras colheitas comerciais foram realizadas, lançadas ao mercado dois anos depois e o sucesso veio rapidamente. Hoje se produzem cerca de 420 mil garrafas anuais e os troféus e medalhas começam a se amontoar. Para quem não conhece, recomendo a visita, o lugar e os vinhos merecem atenção sem desmerecer o atendimento muito simpático e eficiente, porque isso é essencial!

Já esteve presente no Brasil, porém em função do fechamento da importadora, busca outro representante para nossas terras e eu espero que achem logo, pois seus vinhos valem muito a pena, dois deles em especial são grandes destaques e vinhos inesquecíveis. Localizada em Lujan de Cuyo em uma de suas principais sub-regiões; Agrelo, só produz vinhos tintos. Você pode ver mais da bodega clicando aqui, mas agora deixa eu compartilhar com vocês os vinhos que lá provamos e nos foram apresentados pela simpática Daiana.

Decero Malbec 2012 – Boa tipicidade, floral, taninos finos bem presentes, boa persistência e harmônico, acidez bastante equilibrada. Bom vinho

Decero Cabernet Sauvignon 2013 – Frutos negros bem presentes, especiarias, jovem, taninos firmes e elegantes, gostei muito e, a meu ver, entre os três desta gama o vinho mais vibrante que mais me entusiasmou mostrando que estas terras de Agrelo realmente dão ótimos Cabernets!

Decero Syrah 2012 – Taninos doces, especiarias, boa intensidade e textura, amável na boca, um vinho bastante agradável, bem feito e fácil de tomar.

Decero Mini Ediciones Petit Verdot 2011 – somente cerca de 12.000 garrafas produzidas e um vinho surpreendente para a maioria que o prova pela primeira vez. Não é a toa que na safra 2012 levou o Troféu de melhor Vinho de Mendoza na Wines of Argentina Awards e Melhor Vinho Argentino entre USD30 a 50! Absolutamente sedutor, na contramão de tudo o que, a principio, se espera de um varietal 100% desta uva. Sem excessos, fino, nariz intenso e boca extremamente elegante com taninos de grande finesse. Uma garrafa é pouco!!

Decero Amano 2011 – baita vinho, encantador, conheci pela primeira vez na degustação Premium da Wines of Argentina em Setembro/14 (veja aqui meus destaques) e depois voltei a prová-lo em Novembro quando em Mendoza e agora novamente. Em todas as vezes senti enorme prazer ao tomá-lo, um grande vinho, um assemblage de primeira linha em que o viés velho mundista mais tradicional de perfeito equilíbrio, elegância, daqueles vinhos que já nos seduz na primeira fungada! Blend de Malbec, Cabernet Sauvignon, Tannat e Petit Verdot é um grande vinho, complexo e sedoso na boca, fruta exuberante um vinho que me encanta e não é à toa que foi o único vinho argentino a ganhar por três vezes o troféu de Melhor Red Blend acima USD50 na Wines of Argentina Awards!!

Clique na imagem abaixo para ver o slide show da visita à Decero. Dia lindo e a imagem é a vista que tínhamos da mesa de degustações, não é deslumbrante?!

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O. Fournier – saímos da Decero e rodamos pouco mais de uma hora até chegarmos à incrível O. Fournier com seu O Fournier logoprojeto arquitetônico ímpar, moderno e marcante. Conheci a O. Fournier e o José Manuel Ortega Fournier, em uma degustação aqui em Sampa no ano passado (relatado aqui) e me encantei por seus vinhos e diversidade de uvas trazendo um pouco da cultura ibérica para este longínquo recanto de Mendoza no extremo sul do Vale do Uco. Em função do atraso, a visita á bodega e suas instalações foi algo corrido, porém sua estrutura e design, das torres de concreto que são tanques, á enorme e incrível sala de barricas e coleção de arte, um momento realmente marcante que nos deu sede e abriu o apetite para o que estava por vir, um delicioso almoço harmonizado no restaurante Urban capitaneado pela Chef Nadia, esposa do José Manuel.

Deles, no entanto, falo em um post em separado porque este já tá longo demais. Inté, saúde, kanimambo e seguimos nos encontrando por aqui ou em qualquer outro lugar de nossa vinosfera. Uma ótima semana para todos.

Encontro com o Alvarinho Pouco Comum e …..

CAM02030Domingo a dois, o que não é muito comum, e o cozinheiro de Domingo lá se meteu a mestre cuca. Como já disse por diversas vezes, me esforço mas sou limitado me falta conhecimento e o talento, no entanto algumas coisa invento e desta vez precisava bolar algo, para variar, porém fácil e dentro de minha limitada capacidade. Trouxe um Alvarinho Pouco Comum, gosto deste vinho e de seu custo, e apesar de poder harmonizar com um monte de pratos, de costelinha na brasa a feijoada, fui mesmo foi no tradicional!

Trouxe da loja um novo produto da Marithimus, peixe e frutos do mar de Santa Catarina, um bacalhau no azeite com azeitona pois já pensei na entrada e deu muito certo, simples bruschettas de bacalhau. Eis a receita para os amigos, fácil e rápido!Marithimus Bacalhoada
Pão italiano, põe no forno para dar uma tostada, tira e esfrega nele (bem delicado para não ficar forte) um dente de alho. Tomate fresco descascado e cortados em pequenos pedaços, um frasquinho de 100grs de Bacalhau Marithimus. Depois da esfregadinha do alho, jogar sobre as fatias de pão, um pouco do azeite do bacalhau e volta para o forno para dar mais uma tostadinha. Retira, coloca o tomate e o bacalhau voltando para o forno para terminar. Não deu 15 minutos para fazer tudo isso e eu fiz tudo no forno elétrico.

CAM02033Enquanto isso, tinha um filé de corvina me aguardando marinando por cerca de uma hora com um pouco de sal, pimenta do reino, um pouquinho de limão e um leve toque de vinho branco. Preparei um refogado de cebola (1/2), alho (1/2 dente grande), dois tomates frescos sem casca cortadinho (parte usei na bruschetta) e azeitona preta portuguesa picada, gosto da Maçarico que é mais saborosa, mas qualquer uma dá. Coloque um fio de azeite na frigideira e dê uma selada no peixe, reserve numa forma. Enquanto isso ligue o forno prepare o refogado. Refogado pronto, coloque em cima do peixe e leve ao forno por cerca de 15 minutos e tá pronto. Sirva com arroz branco, adoro minha panela japonesa que faz tudo solo!

Bruschettas de bacalhau, peixinho no forno, minha loira (rs) e uma garrafa de Alvarinho, nada mau para um Domingo preguiçoso sem computador! Ah, o Alvarinho Pouco Comum, é o nome mesmo, é um dos bons Alvarinhos disponíveis no mercado com preço mais em conta, em torno dos 70/75 reais, e vale muito a pena. O nome Pouco Comum não sei de onde veio não, mas a meu ver ele possui uma acidez mais moderada e maior corpo que a maioria, com bom volume de boca sem perder a tipicidade da casa, então pode ser daí. O produtor é a Quinta da Lixa o que já é, por si só, uma boa indicação de qualidade e eu gosto, não é um Soalheiro, mas é justo e cumpridor! rs

Tá aí gente, dá para qualquer um se divertir e até fazer bonito com quem interessa, basta boa vontade porque o resto é facim, facim! Ah, bagunçou tem que limpar né, essa é a parte mais chata da cozinha, ou não? Kanimambo e no próximo post falarei um pouco da surpreendente Decero e a incrível O. Fournier em Mendoza, um grande Domingo passado lá em Mendoza com os amigos que me acompanharam na viagem de Abril.

Mais Que Vinho, Um Conceito de Vida – Família Michelini

Em Mendoza existe gente fazendo coisas diferentes de forma diferente, só precisa ter a mente aberta e a indicação certa para descobrir essas coisas. Mais do que vinho, este projeto é um conceito de vida então permitam-me lhes apresentar, para quem ainda não conhece, o Matías Michelini e sua família. São quatro irmãos, três enólogos (Matías, Gerardo e Juan Pablo) e o Gabriel, que têm a pureza da terra como preceito maior, seja no vinhedo, na bodega, mesa e na vida como um todo. Mas vão além disso, são revolucionários na busca de suas quimeras e liberdade de criação.

Na primeira parada de nossa visita de Abril a Mendoza, tivemos o privilégio de sermos recebidos pelo Matías Michelini em suas novas instalações em Tupungato, no condomínio The Vines, onde ele mantém a sede da Michelini Bros em que produz com seus irmãos algumas preciosidades em seus tanques de cimento (ovos) e ânforas que ele próprio desenhou. Este novo projeto é todo biodinâmico, buscando a essência e pureza da natureza em volumes limitados. É um local para deixar fluir a inspiração e criatividade num processo de plena liberdade possuindo uma energia especial. Aqui ele pacientemente esperou por nossa chegada com quase uma hora e meia de atraso devido a problemas de voo, nos recebendo com o fogo aceso e uma taça de espumante na mão, incrível simpatia, homem de poucas palavras e muito carismático, cativou a todos os presentes. Por aqui tudo é pequeno; instalações, numero e tamanho de tanques, sala de barricas e produção, as exceções são a grandeza dos personagens e a qualidade de seus produtos.

A comida, tudo orgânico, estava maravilhosa, os vinhos divinos e os convivas radiantes, não poderíamos ter começado melhor e em pouco tempo as agruras da viagem tinham ficado para trás! Hoje, compartilho virtualmente com vocês alguns desses  momentos e os vinhos provados aproveitando para dar uma dica, quando comprarem um vinho, tentem conhecer o enólogo por trás dele. Se estiverem frente a frente com um vinho do Matías, Gerardo ou Juan Pablo podem mergulhar de cabeça pois a experiência certamente será diferente do que estão acostumados a provar de caldos mendocinos! Ainda farei uma matéria sobre eles, mas por enquanto fiquem com seus vinhos e o vídeo abaixo com imagens de nossa visita.

A Passionate Wines é um projeto do Matías tão somente e melhor nome não poderia ter escolhido, pois é fruto de sua paixão e inquietude refletida em cada garrafa. Provamos vinhos dos diversos projetos dos irmãos, porém foi através de minha introdução à Passionate Wines que aqui viemos parar.

Espumante Zorzal Extra-Brut – devido ao atendimento a um de nossos companheiros de viagem que não estava bem, perdi esta prova, porém os comentários de quem o tomou foram altamente elogiosos. Elaborado com Semillon (cerca de  2/3) com Chardonnay. Da El Zorzal e um vinho a rever!

Montesco Água de Roca Sauvignon Blanc – pura mineralidade e sutilezas num vinho único fermentado em tanques de plástico de 1000 litros! É a natureza em sua forma mais pura em Gualtallary, uma das partes mais altas de Mendoza no Vale do Uco na base dos Andes, onde a acidez também aflora. A uva é colhida em 5 diferentes momentos durante o mês de colheita, de forma a poder-se retirar delas diversas características que comporão esta obra de arte engarrafada. Limitado a 5000 garrafas ano, é um vinho único e diferenciado até no teor alcoólico, meros 9,5%!! Vibrante, sutil e elegante, adoraria ter sempre em casa! Projeto Passionate Wines

Matias Clipboard Bodega

Calcáreo Bonarda – fermentado em ânforas desenhadas pelo próprio Matías, únicas no pedaço, uvas advindas de um vinhedo orgânico de Gualtallary plantado em 2005, amadurece em barricas de 1º e 2º uso francesas passando posteriormente por um estágio de 6 meses de garrafa antes de finalmente chegar a nossas taças. A Bonarda em sua quintessência, uva de pouco valor até cerca de 15 anos atrás, mostra aqui todo o seu valor de forma apaixonante e marcante. Mineral mostrando bem seu terroir, fruta abundante, ótima estrutura tânica e textura agradável que enche a boca, alguma especiaria, concentrado longo, um belo vinho que surpreendeu a maioria dos presentes e precisa de tempo para mostrar todo seu esplendor. Projeto Michelini Bros e produção limitada a apenas 6.000 garrafas por safra.

Demente – um projeto demente de unir uvas provenientes de quatro vinhedos distintos de Cabernet Franc e Malbec, de Diferentes alturas e solos. Depois, colhidas em tempos diferentes e adicionadas ao mosto já em fermentação. Um vinho decorrente da liberdade de criação e veia revolucionária de um enólogo em constante busca do diferente, do inusitado. O vinho arrebatou os presentes, eu já conhecia, confirmando toda a exuberância que eu já relatei; uma paleta olfativa intensa, um verdadeiro bosque de frutos silvestres com nuances florais. Entrada de boca marcante, ótima textura, acidez gostosa se fazendo presente e pedindo um teco de bife de chorizo (rs), taninos finos, final longo algo mineral e muito apetitoso. Doze meses de barrica francesa e limitado a apenas 3.000 garrafas e difícil de achar até por lá!

Já quase meia-noite e nós lá! Dó do anfitrião e sua equipe que tão bem nos recebeu, mas ele ainda tinha mais asas na manga. Como costume de alguns na Argentina, terminou a degustação com um branco seco que acompanharia a sobremesa, pouco doce, e daria uma refrescada na boca após dois vinhos tão intensos. Acho interessante esse conceito que vale usar em degustações.

Via Revolucionaria Semillon Hulk – não pela força, mas pelo verde! Sim, aqui a acidez é bem acentuada, vido de um vinhedo com pouco mais de 40 anos, sem passagem por madeira e com uma produção ínfima, não passa de 500 garrafas. Com apenas 11% de teor alcoólico, colhido cedo, preservou a fruta em sua essência. Nuances florais, cítrico, fresco e muito bem balanceado, só lamento que tão tarde e no final de uma incrível refeição e grandes vinhos tintos, muita emoção à flor da pele, não tivemos tempo de apreciá-lo com o devido cuidado. Na próxima passagem por lá vou querer comprar algumas par melhor curtir o vinho.

Matias Clipboard jantar

Bem, primeiro dia finalizado e de cara mostrando toda a diversidade de uma região produtora. Sem nenhum Malbec, viriam às taças em outros dias, mas descobrindo novos sabores pelas mãos de alguém muito especial e de uma família, tanto quanto ele, sonhadora e sem medo de ousar, nos presenteando generosamente com os frutos dessa picardia, da liberdade bem manejada e com conhecimento. Verdadeiros vinhos de autor, vinhos com alma que me fazem finalizar este texto de hoje, citando Gerado Michelini no livro do Matías (Los Otros):

Los padres son la tierra, el suelo, la raiz.
Los hermanos las ramas, los cargadores, la fuerza.
Nuestras mujeres, grandes compañeras, la brisa fresca de la mañana.
Nuestros hijos, la flor, la fruta dulce, el racimo que crece
El vino es el encuentro

Por hoje chega, já fiquei com uma saudade danada deste momento! Um ótimo fim de semana e kanimambo pela visita.

Fotos minhas e do amigo e companheiro de viagem, Godinho. Para ampliar clique nelas.

Enogastronomia Portuguesa = Diversidade!

Diversidade, acho que está no sangue, esse é meu brado, esse é meu lema e não abro mão! Falo muito sobre o assunto porque é algo inerente ao meu ser e quando vejo a mesmice em que se coloca a gastronomia portuguesa, me deixa algo P da vida porque há muito mais por lá do que só Bacalhau, Sardinhas e Caldo Verde! Como no vinho e na enormidade de uvas autóctones portuguesas que enriquecem sobremaneira a vitivinicultura lusa, assim é a gastronomia do país, pequeno mas vasto em sabores! Um amigo me enviou em pdf, um livro intitulado Receitas e Sabores dos Territórios Rurais editado pela Minha Terra – Federação Portuguesa de Associações de Desenvolvimento Local que é uma preciosidade. Por sinal, o livro entrou em meu wish list! Se alguém estiver indo a Portugal e quiser me trazer um livro desses, pago na entrega aqui! rs

O papo hoje vai longe, então prepare-se, mas creio interessante para os amantes da boa gastronomia que, em Portugal vão achar uma diversidade de sabores incrível. A regionalização enogastronomica portuguesa é imensa e passa por fortes influências das ex-colônias. Cada região tem seus pratos e suas peculiaridades, sua cultura e hábitos baseado em seu meio ambiente típico, o que costumamos chamar de terroir, conceito este ampliado á gastronomia. Achei bastante interessante o que Maria Proença, da Idade dos Sabores, expôs em suas notas introdutórias ao livro:

Decido começar por onde deveria, talvez, terminar: sublinhar as palavras de Stefano Padulosi – “levar um garfo ou uma colher à boca é a última etapa dum percurso demarcado pela história e pela geografia”. E eu acrescentaria: pelas tradições, pelas crenças, pela carência ou pela abundância, pela necessidade ou pela festa, pela partilha.
Julgo que esta formulação enquadra bem o lugar da cozinha no contexto dum território, porque aqui a cozinha não se dissocia do seu meio mas é nele que se inspira e se alimenta. A noção de território implica uma interação, uma dialética entre a paisagem, o clima, as atividades dos homens, as suas práticas, o seu saber-fazer, e ainda o resultado dessas mesmas práticas: os produtos agrícolas locais.
A propósito, Laurence Berard afirma: “Existe uma grande familiaridade entre os produtos e as pessoas. Importa identificar estas produções para as dar a conhecer e melhor as valorizar: assim podemos contribuir para voltar a dar sentido ao território”. Digamos, pois, que cada território é um espaço socialmente decifrado, apropriado e construído.
Neste livro é o conceito de território que ganha destaque, entendido que deve ser como um campo complexo que obriga a um método de análise e de interpretação multidimensional: recursos ambientais, economia, cultura, política, história e identidade, tradições e saberes, informação e divulgação. É neste contexto que a gastronomia local recupera algumas das ideias que a devem nortear. A cultura alimentar encontra a sua diversidade na manutenção e valorização do território, na especificidade e qualidade dos seus produtos, na promoção do que é genuíno ao mesmo tempo que desenvolve estratégias para a sua inserção num espaço mais amplo.

Tudo isto para chamar a atenção para diversas outras deliciais regionais da gastronomia fora os já para lá de manjados bolinho de bacalhau, pratos de bacalhau e caldo verde que todos conhecem. Preparem-se para curtir uma imensidão de sabores quando de visita à terrinha, aproveite e explore alguns destes pratos dependendo da região em que estiver:
Região Norte – Trás os Montes, Minho, Douro:
Arroz de lebre, Perdiz Estufada, Guisado de javali, Migas de peixe, Ensopado de Borrego,, Presunto cru de Chaves, Javali no pote com castanhas, Cozido Barrosão, Folar, Lampreia, Sável no forno, Cabrito assado, Arroz de Cabidela, Alheiras de Mirandela com grelos, Arroz de Favas, Bifes de Alvarenga, Cabrito da Gralheira, Broa (pão) e os doces Toucinho do Céu, Leite Creme, Pudim de castanhas, Rabanadas, Pudim Abade de Priscos entre outros.

Região Centro – Dão, Bairrada, Beiras
Sopa do Vidreiro, Enguias fritas, Leitão à Bairrada, Arroz de lampreia, Morcela de arroz de Leiria, Arroz de mariscos, Vitela de Lafões, Escabeche de trutas, Arroz de Zimbro, Queijo da Serra, Cabrito recheado, Pão da Mealhada, Borrego estufado, Chanfana, Bucho recheado, Arroz de miúdos, Sopa de Castanhas, Coelho à caçadora, Feijoada de Lebre, Borrego assado, Morcelas, Panela de forno e os doces Tigeladas, Pudim de requeijão, requeijão com doce de abóbora, arroz doce e pastéis de Vouzela entre outros.

Região Lisboa, Setúbal e Ribatejo:
Migas de bacalhau, Cabrito de Torres Novas, Queijo do Azeitão, Caldeirada do mar, Sopa de Saramagos, Sopa de Pedra, Ostras de Setúbal, Carne de Porco com enguias, Pombo estufado, Cabrito assado, Fataças, Ensopado de enguias, Açorda de Savel, Açorda de camarão, Coelho bravo frito, Carneiro guisado, Fritada de camarão com açorda, Sardinhas assadas, Frango na púcara e do mar os tradicionais chocos,ameijôas, navalhas, berbigão, camarões e lagosta. Doces; Fios de ovos, Fatias de Tomar, Figos, Fogaças de Alcochete, Pastéis de feijão, Celestes de Santa Clara, Lampreia de ovos, Pastéis de nata (Belém) e barrigas de freira entre outros.

Região Sul, Alentejo e Algarve:
No Alentejo reina o porco preto e ótimos queijos. Cachafrito de Cabrito, Sarapatel, Assada de peixe, Sopa de lebre, Ensopado de Borrego, Carne de Porco à Alentejana, Arroz de lagosta, Ensopado de enguias, Sopa de lebre, Açorda á Alentejana, Cozido de grão, Arroz de lampreia, Lombinhos de javali, Borrego estufado, Açorda de ovas, Veado com castanhas, Pato bravo com mostarda, Perdiz de escabeche, Fritada de porco, Sopa de tomate, Papas com conquilhas, Mioleira de porco, Arroz de pombo, Cataplana Algarvia, Lulas recheadas, Arroz de polvo, Lombo de porco na banha, Galinha cerejada e os doces; Manjar branco, Ovos de Portoalegre, Bolo da sogra, Sericaia com ameixas d’Elvas, Trouxas de ovos e Fatias do Céu entre outros.

Na próxima vez em Portugal, ouse! Visite seu porto seguro, mas descubra novos sabores sempre acompanhados de vinhos regionais que certamente harmonizarão à perfeição. Kanimambo pela visita e seguimos nos encontrando por aqui.

Argentina sem Malbec e Cabernet Sauvignon.

A cada viagem que faço gosto de trazer na mala algumas garrafas de vinhos provados que se destacaram na minha taça e que gosto de compartilhar com 12 de meus amigos apreciadores de vinhos, clientes e leitores do blog, são as degustações Vinhos da Mala. Desta feita o tema que escolhi é Argentina sem Malbecs e Cabernet Sauvignon e se realizará na Vino & Sapore no próximo dia 19 de Maio (Terça-feira) a partir das 20 horas. Ainda não encontrei o lugar para montar estes eventos em Sampa, então por enquanto só por aqui na Granja Viana mesmo, porém espero já em Junho ter solucionado isso, aguardem! Os vinhos provados não estão disponíveis no Brasil, salvo uma ou outra exceção e o foco, como sempre, é no inusitado e na diversidade, principal objetivo de todo o meu trabalho em nossa Vinosfera. Eis a seleção que fiz para este evento.

Ramanegra Espumante Extra-brut – os hermanos adoram espumantes extra-brut e este elaborado pela Casarena com Chardonnay, Viognier e Sauvignon Blanc , um blend inusitado, me chamou a atenção. Espero que também vos surpreendam.

Montesco Água de Roca Sauvignon Blanc– como a água que nasce entre rochas, a mineralidade é seu principal chamariz, mas tem muito mais neste vinho que mostra uma Sauvignon Blanc argentina diferente e tratada com esmero pelo Matías Michelini um enólogo revolucionário que anda na contramão das modas na busca pela pureza.

Cara Sur Criolla – poucos conhecem a uva Criolla e muito menos haverão de ter tomado um vinho elaborado com ela. Este descobri jantando no delicioso Siete Cocinas do amigo Pablo del Rio que também gosta de “viajar”! Com apenas 900 garrafas produzidas, este é um projeto dos enólogos Sebastian Zuccardi e Francisco Bugallo no vale de Calingasta em San Juan com uvas de vinhedo com mais de 80 anos de idade. Um pinot autóctone?! Só provando para tirar conclusões.

Decero Petit Verdot – Um clássico vinho que recentemente ganhou em sua safra mais nova o Troféu de Melhor Vinho Tinto de Mendoza escolhido na Wines of Argentina Awards. Divino é pouco para falar deste que mostra uma Petit Verdot mais cordata e extremamente elegante, porém sem perder sua tipicidade. Soy un incha deste vino!

Zaha Cabernet Franc – a uva da vez na Argentina e este exemplar nos vem pelas mãos de mais um enólogo importante da nova geração, Alejandro Sejanovich com uvas da sub-região de Altamira no Vale do Uco, Mendoza. Um vinho em que as uvas são colhidas em três diferentes momentos de maturação para compor uma sinfonia engarrafada. Provei e gostei, muiiito.

*Calcáreo Bonarda – mais um vinho marcante do amigo e enólogo Matías Michelini em sua nova empreitada com seus irmãos na Michelini Bros. Somente 6.000 garrafas produzidas num vinhedo de apenas 2 hectares todo cultivado de forma biodinâmica. Uma obra de arte que desperta emoções especiais com uma uva não tão nobre, mas que gera alguns grandes vinhos quando bem trabalhada. Para você conferir.

Decero Tannat – Para finalizar, deste vinho a Decero produz apenas 700 garrafas e neste caso vamos provar juntos, pois ainda não o conheço, porém não resisti e tive que trazer uma garrafa para compartilhar com os amigos presentes. Este só se compra na bodega ou na Suíça para onde os proprietários (suíços) levam o restante. Conheço ótimos Tannats argentinos de Salta, porém por Mendoza não abundam, então vamos curtir juntos esta experiência?

Sorry sold OutEsses serão os protagonistas da noite e se você, como eu, gosta de provar coisas diferentes sentir novas emoções e se deixar levar pelo desconhecido, então não deixe de participar. As vagas estarão limitadas aos primeiros 12 amigos que efetivarem suas reservas, seis ja tomadas, então não dê mole! O valor a ser pago no ato da reserva é de R$120,00 por pessoa e inclui os vinhos, água, pãozinho, queijo e chorizo espanhol, café e na Vino & Sapore o estacionamento é gratuito. O *Cálcareo virá direto da Argentina e ficamos sujeitos a que ele chegue a tempo, caso não aconteça, este será substituído por um outro grande Bonarda, o El Enemigo de Alejando Vigil, só que este já tem por aqui.

Fico no aguardo de sua confirmação, Kanimambo e amanhã tem mais. Cheers!

Onze Vinhos Australianos em Dois Tempos

Em parceria com a KMM, principal e histórica importadora de vinhos australianos no Brasil promovemos encontros de duas confrarias para mostrar um pouco da diversidade dos vinhos de “down under”! Sim, por lá também existe diversidade e, mesmo com a Shiraz sendo a protagonista dos melhores vinhos, há opções outras a serem exploradas. Vinhos para todos os gostos e bolsos pois já podemos nos “divertir” a partir dos 50 Reais. Quebramos alguns paradigmas e descobrimos alguns ótimos vinhos, vejam só:

Quinta Divina – alguns dias antes da viagem a Mendoza, uma noite para lá de saborosa com a Marli (KMM) iniciando os trabalhos com uma curta apresentação sobre o vinho nessa ilha continente em que o consumo chega a cerca de 30 litros per capita ano. Seis vinhos que comentarei muito resumidamente

Austrália - Deg Quinta Divina

Oxford Landing Chardonnay 2011 – amadeirado sem exageros, cremoso, balanceado com nuances cítricas porém os frutos brancos dão suas caras por aqui de forma mais acentuada. A galera gostou bastante e se surpreendeu, mas os australianos também são bons de brancos e consomem bem!

Brokenwood Pinot Noir 2008 – bom pinot, aromaticamente complexo, frutado com notas tostadas e terrosas, equilibrado, um meio termo entre novo e velho mundo, taninos sedosos com boa tipicidade e algumas especiarias num final de boca longo.

Sandalford Premium Shiraz 2004 – mais de dez anos nas costas e vendendo saúde, este vinho é tudo o que se espera de um bom Shiraz australiano com especiarias, notas terrosa, boa fruta madura, equilibrado, textura gostosa, taninos ainda vivos e elegantes, médio corpo, longo final de boca, uma delicia.

Jim Barry Cover Drive 2010 Cabernet Sauvignon – Apaixonante e sedutor são dois adjetivos que cabem bem neste vinho fino e elegante que surpreende quem espera grandes estruturas tânicas. Todo ele muito sutil e aromaticamente muito rico, é daqueles vinhos em que uma garrafa em dois acaba rapidinho!

Calabria Saint Macaire 2012 – uva quase extinta, só dois hectares plantados na Calabria Wines e uma certeza, marcante e de muita personalidade! Diferentes aromas florais que aguçam nossa curiosidade , rico e intrigante, impossível ficar impassível a seus atributos.

Element Late Harvest 2009 – um Late Harvest diferente do que estamos acostumados. Primeiramente é um corte de seis uvas, mesmo que a Chenin Blanc e Verdello estejam mais presentes, depois é suave, leve, fresco com apenas 8% de teor alcoólico vai bem com queijos azuis e sobremesas frescas podendo até encarar uma beira de piscina ou pratos asiáticos mais condimentados. Vinho bastante polivalente.

Brinde à Vida – da confraria anterior trouxemos dois vinhos, mas nos restantes quatro exploramos novos rótulos e sabores.

Austrália - Deg Brinde à Vida

Angas Brut Cuvée – um bom espumante elaborado com Pinot com Cghardonnay, boa perlage, seco, complexo, brioche bem presente, amendoado com camadas cítricas e boa acidez surpreendem .

Poker Face Semillon/Sauvignon Blanc 2013 – um branco que me agrada muito e foi surpresa para a maioria. Blend típico de Bordeaux, a Semillon se dá muito bem na Austrália, é muito balanceado e refrescante, cítrico, notas de grape fruit, frutos tropicais tipo carambola me vieram à mente, vinho para pedir bis!

Three Steps Shiraz 2009 – um vinho de gama de entrada com cinco anos de garrafa e ainda respirando com vigor é algo surpreendente. Confesso que estava temeroso, mas mostrou estar muito bem integrado, saboroso, redondo, vale bem o que se paga.

Tatachilla Cabernet/Syrah 2010 – talvez o menos empolgante de todos neste dia. Bom, sem arestas, mas também sem nada que empolgasse. Fruta madura abundante, alguma especiaria, taninos bem integrados, fácil de agradar.

Jim Barry Cover Drive Cabernet Sauvignon – não vou me repetir, mas babo só de pensar! rs

Tatachilla MaClaren Vale Syrah 2004 – Mais um grande Syrah mostrando grande vigor e complexidade com já dez anos nas costas. Ótimo e balanceado volume de boca, rico com especiarias bem presentes, fruta madura (ameixa) , notas de café, vinho marcante com personalidade própria, talvez o vinho que mais encantou a galera e desafiou o Jim Barry Cabernet para levar o caneco de melhor da noite.

Element Late Harvest – Não vou me repetir, mas é uma boa opção para quem queira substituir o Moscatel!

Dois foram os paradigmas quebrados nesses dois dias. Primeiro o de que vinhos australianos são caros, provamos vinhos bem acessíveis. Segundo de que vinhos em garrafas com screw cap (tampas de rosca) somente para vinhos jovens e de qualidade inferior, tomamos belos vinhos com mais de dez anos ainda muito vibrantes e cheios de vida.

Bem, mais um monte de novos sabores mostrando que na Austrália, como na maior parte dos países produtores, procurando a gente sempre encontra diversidade. Recém cheguei de viagem a Mendoza, em breve começo a falar dessa experiência e de mais uma Degustação da Mala, e mais uma vez conferi isso! Por hoje é só, kanimambo e seguimos nos vendo por aqui ou nas estradas de nossa vinosfera, cheers!

Uma Páscoa da Hora!

Mais do que mesurarmos nossa Páscoa pelo consumo, fica a certeza de que a reunião familiar e a curtição de algumas tradições são o que realmente nos enche o coração de felicidade. Ontem foi um dia assim e mais do que nunca reiterei minha convicção de que alimentar a imaginação das crianças, deixando-as serem crianças, é essencial. Tudo tem seu tempo e o tempo de 5 anos é acreditar no Coelho!

Isso, obviamente, não impede que junto com as celebrações não possamos nos esbaldar em pratos e taças cheias do que de melhor podemos elaborar e/ou comprar. No nosso caso aqui em casa os dois! Para iniciarmos os trabalhos alguns queijinhos e patés enquanto esperávamos todo mundo chegar, devidamente regado com um saboroso Contessa Borghel Rosé Dry Spumante do Friulli (Itália). Como é fácil e gostoso este espumante, agrada até quem é chegado tão somente nos Brut da vida. Muito fresco, acidez muito bem balanceada faz com que a doçura acabe ficando em segundo plano. Gosto bastante, é muito versátil (comida japonesa, frutos do mar grelhados ou fritos, comida Thai, etc) e já escrevi aqui sobre ele.

Como preparo para o prato principal de Bacalhau à Brás, que aqui em casa leva batata frita mesmo não palha (argh!), abrimos uma relíquia de 1999, um Quinta da Bacalhôa. Um clássico português da região Setúbal, mostrou-se cansado, já arrastando os pés! Sem taninos nem fruta, notas acentuadas de evolução, um prazer porém sem vibe! Seguramos um pouco para ver se encarava o prato, mas acabamos por abrir o que seria o vinho da refeição, um ótimo Dão, o Casa da Passarela Vinhas Velhas CAM017462008 que estava tinindo. Como complemento ao Bacalhau à Brás, modéstia à parte ficou da hora, uma travessa só de batatas ao murro, pedido do neto que as queria esmurrar, e que mesmo não sendo o acompanhamento tradicional do prato, nos souberam muito bem!!

A Casa da Passarela é um dos cultuados produtores do Dão de quem meu amigo Pingus Vinicius é fã incondicional e eu, mesmo não os conhecendo com a mesma intimidade, aos poucos também me transformo num. Que belo vinho; rico, fino, de grande equilíbrio que casou com o prato à perfeição e nos encheu de prazer. O que faltou de “vibe’ no primeiro, sobrou aqui, um vinho para se tomar sem parcimônia. Também já falei dele aqui, então não vou me alongar mais do que o costume (rs) e você poderá ler mais no link. Bão demais, mas ainda não estava contente, faltava algo!

Cada um tem seu Secret Spot, este é o meu! Rs Moscatel do Douro, 40 anos, Casco VII. Elixir dos Deuses, poesia engarrafada, daqueles vinhos que deveriam vir acompanhados de uma almofada para nos ajoelharmos em preces de agradecimento. Impressionante este vinho elaborado pelo amigo Rui Cunha e que me foi trazido por um outro, o Leandro quando de sua viagem a Portugal. Acompanhou o Toucinho do Céu à perfeição, um verdadeiro nirvana, uma pena que só tinha uma garrafa, vai deixar saudades! Ontem não dava para comer mais nada à noite, então ficamos só nos chocolatinhos que o Easter Bunny nos trouxe e mais uns goles dessa preciosidade única! Rs

Eta Domingo de esbórnia enogastronomica! Muito bom, mas o melhor foi o sorriso estampado na cara de meu neto ao lhe lermos a cartinha que o coelho tinha deixado para ele pedindo sua ajuda na distribuição dos ovos! Como ajudante do Easter Bunny, se sentiu nas nuvens e nós viajamos com ele torcendo para que tenhamos pelo mais um ano destes, pois com cinco aninhos, em breve sabemos que o sonho se transformará na realidade e o dia perderá um pouco de seu encanto! Saúde a todos, kanimambo pela visita e ainda temos 4 vagas para o grupo que ira comigo a Mendoza no feriado de Tirandentes, vem comigo?!

Quebrando Preconceitos na Argentina

Mesmo os mais experiente enófilos certamente têm lá suas cismas com alguns vinhos, produtores, regiões, uvas, etc.. Eu sempre falo que jamais se deve dizer que não se gosta de uma uva ou estilo de vinho, país ou região, porém não sou diferente de ninguém e neste último ano “quebrei” a cara algumas vezes porque tinha me deixado levar por atitudes que critico!

1 – Não era chegado em Malbecs! Não gostava de vinhos em que existe uma sobre extração e madurês das uvas que gera vinhos com taninos doces e enjoativos depois de duas taças, sigo não gostando, só que generalizei quando não devia. Para minha grata surpresa, nestes últimos dois anos viajando por aquelas terras descobri vinhos que me fizeram mudar meus conceitos; alguns mais potentes que outros, mais robustos, outros mais polidos porém em todos prevaleceu o equilíbrio e finesse de taninos. Há Malbecs e Malbecs, só tem que achar os seus e eu andava tomando os errados! Isso não me faz gostar menos dos blends que tanto venho elogiando e que seguem sendo minha preferência, porém certamente me fez rever opiniões formadas que tinha.

2 – Os vinhos da Andeluna não faziam minha cabeça! Aí provei o Passionado 4 Cepas, um blend de Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Malbec e Merlot dos quais a bodega produz apenas 5000 garrafas por safra, quando dá! Um vinho de lamber os beiços e pedir mais, apesar do preço algo salgado. Não importa, mais um preconceito no ralo e não foi o único, porque tinha a mesma impressão dos vinhos da Cobos e aí provei os vinhos Bramare Regiões (single vineyards) também me surpreenderam, especialmente o Marchiori!

3 – Grandes conglomerados do mundo do vinho só produzem vinhos padronizados e sem personalidade, as famosas “coca-colas” do mercado. Eh, eh, mais uma vez me danei! Visitei a Norton que até produz alguns vinhos básicos bem legais e descobri um novo mundo. Já tinha provado e elogiado sua linha Finca Predriel, mas agora viajei por um mar mais amplo e vim de lá apaixonado por seus vinhos e sua bodega. Tanto que fiz questão de a incluir na minha próxima viagem a Mendoza, uma forma de compartilhar com os amigos que virão comigo o que eu vivenciei!

Aprendi há muito anos de que em nossa vinosfera não existem verdades absolutas, porém existem momentos em que me deixo levar pela onda esquecendo o meu racional que é tão importante quanto o emocional nessas horas! Mantenha sempre a porta aberta, navegue sempre, porque navegar é preciso, descobrindo novos sabores e novas emoções, nunca se deixe “enquadrar”, pois o nirvana poderá estar na próxima curva, no próximo porto ou na próxima taça! Bon Voyage, um ótimo fim de semana, cheers e kanimambo pela visita. Vem comigo a Mendoza?!

Sacando Rolhas de Vinhos Uruguaios

Mais uma vez a Confraria Saca Rolha viajou por águas desconhecidas para a maioria, os vinhos do Uruguai. Gosto bastante do estilo dos vinhos deste simpático país, algo mais tradicionais com uma tocada mais europeia do que novo mundista já tendo escrito aqui sobre ele, já faz um par de anos! Não é só de Tannat que o mundo vitivínicola uruguaio é composto, porém nossa experiência deste encontro se debruçou sobre ela e alguns blends onde ela é protagonista. Ainda faremos outras incursões por estas terras, mas hoje a surpresa foi grande, pois ninguém botava muita fé não! Eis o que nossa porta-voz, confreira e amiga tem a compartilhar conosco sobre mais esta gostosa noite!

Quando decidimos escolher os vinhos do Uruguai como tema do nosso encontro, confesso que senti pouco entusiasmo geral da turma, ou mesmo uma postura “burocrática”, como quem pensa: Afinal, temos que conhecer de tudo!

O Uruguai é um país pequeno, que faz fronteira com o Brasil e Argentina. Tem sido destaque na mídia, seja pelo estilo de governo implementado por seu ex-presidente, José Mujica, ou como a nova rota turística que tem atraído muitos visitantes, que agora não mais procuram só cassinos ou praias. Entre polêmicas e excentricidades que caminham na contra mão das altas performances, tecnologia de ponta, consumo sem freios, via-se uma ação mais voltada ao humano, simples e verdadeiro. O fato é que o Uruguai está na moda e o franco desenvolvimento do enoturismo faz parte de tudo isso.

A historia da vitivínicultura no Uruguai começa em 1870, quando os imigrantes bascos trouxeram mudas da cepa Tannat. O clima temperado com influência marítima do Atlântico e do rio da Prata, o solo argiloso e calcário, garantindo a drenagem, os ventos das correntes marítimas dissipando o alto índice de umidade, favoreceram o desenvolvimento das vinhas. Atualmente a Tannat que tem como berço o sudoeste francês (Madiran), é sua uva ícone. Sua principal característica é a tanicidade, por isso o nome, muito presente. Pode-se comparar até com a Baga portuguesa, cuja vinificação exige muito trabalho para domá-la. É sempre um desafio transformá-la em vinhos dóceis e macios.

Chegada a data, já com a seleção dos vinhos feita, partimos para desvendar essa terra ainda desconhecida.
Para preparar as papilas, tivemos o elegante espumante italiano Contessa Borghel Rosé Dry. Sua delicadeza com aromas de rosas e frutas de bosque nos colocou no ponto inicial do que vinha pela frente.

Saca Rolha Uruguai

A principal região produtora, Canelones, fica ao sul do país, próximo à Montevideo. E o primeiro vinho veio de lá: Pisano – Rio de los Pájaros – Tannat 2011.
Sutil no nariz demonstrando alguma fruta e traços defumados. Na boca é bem equilibrado, com boa acidez, taninos macios e bom corpo. Evolui bastante na taça. Fácil de beber.

A região de Carmelo, à sudoeste, tem se desenvolvido muito nos últimos tempos por conta do turismo nos arredores de Colônia do Sacramento. Com pequenos produtores investindo no local, apareceram novas vinícolas e entre elas está a Narbona que tem a assessoria do enólogo Michel Rolland. Narbona Blend I 2013 é um vinho assinado por ele, cujas variedades e safras não são divulgadas (faz parte do marketing). A cor intensa e aromas complexos reforça esse mistério. A princípio aparecem aromas de tabaco e cacau. Depois vai se abrindo num leque intenso e bem amalgamados de frutas em compota, defumados e algo mineral. Na boca tudo isso se confirma com um toque alcoólico que se evidencia, sem atrapalhar o equilíbrio. Muito aromático e longo.

A família Carrau tem grande tradição na produção de vinhos na região de Rivera e em Canelones (39 kms de Montevideo) onde se encontram seus primeiros vinhedos. Rivera, por outro lado, está localizada no centro-norte do país, quase na divisa com o Brasil. Bodegas Carrau – Grand Tradicion 1752 foi uma edição comemorativa aos 250 anos de existência da vinícola. Essa safra, de 2010 mescla as melhores uvas Tannat, Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc obtidas no ano. O resultado foi um vinho delicado, com elegância e sutileza. Mostra equilíbrio com taninos muito finos, acidez e corpo médios. Vale ressaltar que durante a degustação ficou a impressão de tratar-se de um vinho inferior. Mas a meu ver ele ficou prejudicado pela forte presença e opulência do anterior. Isso acontece quando comparamos vinhos e mostra que a interferência da situação deve ser levada em conta.

A região de Maldonado, já em direção às praias banhadas pelo Atlântico, bem conhecida pelo turismo próximo à Punta del Leste, também tem se desenvolvido na área vitivínicola. A Alto de la Ballena é uma nova bodega, estabelecida nos anos 2000 nessa área, e teve sua primeira colheita em 2005. Um dos destaques da sua produção nos foi apresentado: Alto de la Ballena – Reserva Tannat/Viognier 2010.
Muito aromático, cheio de flores e frutas. Leve tostado e frescor mineral. Na boca mostrou-se bem equilibrado, com taninos presentes, corpo com muita fruta e acidez que fez salivar. Evolui bem na taça realçando a madeira bem colocada, com especiarias e final herbáceo.

Também da região de Canelones, a Bouza Bodega Boutique se destaca como produtora familiar que investe numa pequena escala de produção em prol de qualidade. Elaborado com 100% Tannat, provenientes de uma única parcela dos vinhedos:Tannat A8 Parcela única 2011.A cor muito escura e a densidade quase sem transparência já chamou a nossa atenção de imediato! Nariz complexo, mostrando sua passagem por madeira, onde os aromas tostados e de especiarias dão abertura para os vários que ainda vieram na sequencia. Quando provamos dava até a sensação de viscosidade, pelo grande volume que apresentava em boca. Os taninos bem presentes, equilibravam-se na mesma proporção com a acidez. Um vinho “musculoso”, potente, que sustentaria muito bem uma refeição com carnes gordurosas, defumados, queijos maturados, etc. Muito bem feito e agradável, apesar da sua robustez, que mostra à que veio.

Definitivamente, acho que aquela pré- disposição de pouco interesse em conhecer os vinhos do Uruguai, caiu por terra com tanta qualidade na taça! O clima propício, continental de influência marítima(que vai desde ao norte do país com verões quentes e invernos muito frios, até à beira do estuário do rio da Prata), já foi até comparada com a mesma situação geográfica existente em Bordeaux. E apesar das comparações, sua história é única, assim como seus vinhos. Seja pela simplicidade de seu povo de alma camponesa, espírito de luta, ou pelas paisagens pampas com horizontes a perder de vista. O desejo de conhecer muito mais esse país que tem nos surpreendido tornou-se maior. E tudo isso por conta do que vimos refletido dentro daquelas garrafas.

Gulfi Valcanzjria, Não Parece Mas É!

Poderia ser o nome de uma cidade ou algum bicho estranho, mas é vinho mesmo e dos bons! Gulfi é um produtor localizado na planície de Chiaramonte Gulfi na Sicília Oriental e mais do que uma vinícola é um resort onde a enogastronomia é protagonista. Produtor orgânico, trabalha com uma vasta coleção de cepas autóctones, apostando na tradição porém sem perder de vista o que a modernidade lhe pode oferecer inclusive no uso parcimonioso de uvas internacionais como neste caso.

Estava atrás de alguns vinhos brancos sicilianos para compor meu portfolio na loja, já tinha achado um gostoso Catarratto, e a Decanter me enviou este vinho para prova, uau! Como teste, para não ficar só com minhas impressões, o coloquei numa degustação de confraria em que o tema eram vinhos de uvas brancas autóctones da Itália. Provamos saborosos vinhos elaborados com Pinot Grigio, Rebolla Giallia, Verdichio dei Castelli de Jeisi Classico e Kerner (há controvérsias quanto à origem) culminando com este vinho que, mesmo com os bons rótulos apresentados até então, fez com que fisionomias se transformassem, vinhaço!

È branco, adoro vinhos brancos e há muito digo que é a pós-graduação no mundo do vinho, um blend de duas uvas autóctones que me eram totalmente desconhecidas, Caricanti e Albanello, com Chardonnay. As uvas brancas sicilianas mais conhecidas são as: Gracanico, Inzolia, Grillo e a Catarratto, então foi mais uma viagem de aprendizado e mais uma descoberta, adoro nossa vinosfera! Agora preciso provar as outras coisas desta vinícola, fiquei com água na boca.

Gulfi ValcanzjriaBem, mas falemos do vinho, mais sobre a vinícola e seus conceitos vocês podem fazer que nem eu que fiquei seduzido pelo que provei, visitem o site do produtor clicando aqui. Disse que fisionomias se transformaram e é vero, houve um uau generalizado ao levar a taça ao nariz e depois á boca, um vinho de muita personalidade em que o conjunto fala mais alto que as partes envolvidas. Um vinho marcante e muito equilibrado, boa intensidade aromática puxando para o cítrico porém com nuances de amêndoas tostadas e sutis notas florais. A ficha técnica fala só de inox e estágio sobre lias, porém acho que deve ter uma leve passagem por barricas usadas, sei lá, feeling! Na boca boa acidez, porém com uma certa untuosidade que creio vir da Chardonnay, seco, ótima textura, rico e complexo, um vinho que, em sendo 2010, creio estar no seu auge , nos traz muito mais do que só frescor e energia, traz muito boa persistência e maturidade, um vinho que nos deixa feliz! Uma grande surpresa que me agradou sobremaneira e fez a cabeça de todos presentes, mesmo com um preço estimado entre R$ 130 a 140,00.

Aliás, preciso montar um Desafio de Vinhos às cegas só de vinhos brancos nesta faixa de preços, um embate entre diversas uvas e países, acho que daria um encontro hedonístico da hora!! Enfim, queria compartilhar esta belezura com os amigos, bom proveito! Cheers, kanimambo e nos vemos por aqui ou por aí nas estradas abençoadas por Baco. Ah, na última hora achei esse vídeo com uma degustação do vinho por um sommelier italiano, interessante! Vejam e comentem, gostaria de vossa opinião.