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Malbec – Qual a Melhor Região Podutora, Um Desafio às Cegas!

Bem, que a uva ícone argentina é a malbec e que ela originou na França a maioria já sabe, só que existe o Chile que corre por fora com algumas outras boas e interessantes opções de bons vinhos. Cerca de 70% dos Malbecs do mundo vêm da Argentina, mas ainda semana passada tomei um ótimo e surpreendente chileno, o Odfjel Orzada, porém hoje não é dia de falar dele nem dos Malbecs chilenos e sim da degustação ás cegas que organizei na Vino & Sapore onde coloquei seis rótulos de três diferentes países numa disputa direta á cegas. Vinhos da França, do Chile e da Argentina, por supuesto!

Foi um exercício hedonístico realizado com 13 apreciadores de vinhos, seguidores de Baco com sede de conhecimento e descobertas de novos sabores. Coloquei duas faixas de preço como parametrização de comparativo, uma de R$75 a 100 e a segunda de R$100 a 135. Interessante esse parâmetro porque por muitas vezes vimos o mais barato dando pau nos mais caros o que, desta vez, não ocorreu!

Um importante aspecto a considerar também, é que em Cahors (França), berço da uva, a AOC permite que com apenas 70% da cepa o vinho pode ser rotulado como Malbec, sendo comumente cortado com Tannat e Merlot. Outros rótulos presentes também levam um “tempero” de outra uva, porém em porcentuais bem menores. Como sempre, tentei trazer para a taça vinhos menos conhecidos tendo tido para isso o apoio dos importadores Mistral, Decanter, Wine Mais, Almeria e Berenguer imports

Malbecs do Mundo às CegasNa Faixa de R$ 75 a 100 – Chateau Chevaliers Lagrezzete 2005, Riglos Quinto 2010 e Perez Cruz Edicíon Limitada 2012

  • Chateau Chevaliers Lagrezette é francês de Cahors . A Malbec é aqui complementada por cerca de 12% de Merlot e 3% de Tannat, gerando um vinho saboroso, com aromas de média intensidade, taninos finos, retrogosto frutado com leve toque de especiarias . A idade parece que começa a pesar e gostaria de rever este vinho de uma safra bem mais jovem (2010 para cá) pois o potencial estava lá, porém foi sumindo na taça!
  • Riglos Quinto, argentino de Mendoza e o segundo vinho do produtor. Leva 12% de Cabernet Franc e com somente 6 meses de barrica de 2° uso, é pura fruta, nariz intenso, fresco, cremoso na boca, textura sedosa e muito bem equilibrado é um vinho que não nega fogo sempre que é aberto. Elegante, é um vinho que chama a próxima taça.
  • Perez Cruz Cot Edicion Limitada, é o representante chileno nesta gama de preços e para não variar, voltou a se dar bem. Cot é um dos nomes pela qual a malbec era mais conhecida na região de Cahors, a outra era auxerrois, tendo a Perez Cruz usado esse nome no rótulo em função da origem dos clones em seus vinhedos. Tem um temperinho de 5% de Petit Verdot e 2% de Carmenére e um dos vinhos com maior passagem em barrica que provamos nessa noite, 14 meses. A madeira está bem presente, porém sem se sobrepor á fruta, edoso, fruta madura, especiarias, boa textura num corpo médio, final de boca fresco com um leve toque amentolado. Um destaque nesta faixa!

Na Faixa de R$100 a 135,00 – Arroba Malbec de Autor 2009, Loma Larga Malbec 2009 e Chateau de Haut-Serre 2009

  • Arroba Malbec, do enólogo Carlos Balmaceda. ´, com apenas 5.000 garrafas produzidas foi o único 100% Malbec na disputa. De Mendoza, é exuberate no nariz, fruta madura, denso e carnudo, equilibrado, taninos doces e aveludados mostrando sua cara sem excessos e bem integrados, final de boca longa com notas achocolatadas. Um vinho que fez a cabeça de muita gente tendo mostrado muita tipicidade tanto da uva como da região.
  • Loma Larga Malbec, o representante chileno desta faixa de preços mexeu com o sensorial de muitos dos presentes. Vem de Casablanca o que quer dizer uma região mais fria com forte influencia marítima devido a sua proximidade com o mar e levou um tempero de 5% de Syrah. Doze meses de barrica imperceptível, só 20% novas, dando suporte a frutos negros, toque floral muito interessante, meio de boca gordo, acidez bem presente, harmonioso com um final longo e apetecível.
  • Chateau de Haute-Serre , o menos típico de todos os vinhos que se apreentaram. De Cahors, vem com 30% de tannat e merlot o que na minha opinião desvirtua um pouco pois altera em demasia as característica da uva principal que é a malbec. Tendo dito isso, é um vinho surpreendente e marcante que criou alvoroço na mesa. A complexidade impera tanto nos aromas como no palato, notas de salumeria, terra, algo mentolado e até arriscaria um leve alcaçuz, tudo muito equilibrado, ótima textura, bom corpo, taninos muito finos com um final longo com toques de café e cacau, bem diferente e saboroso.

Malbecs do Mundo Vino e SaporeComo estava servindo, as anotações acima foram rabiscadas num papel para posterior consulta e muitas sensações se perdem com o tempo, porém acho que o resumo está bem perto da realidade e os participantes podem, e devem, comentar e corrigir á vontade. Mais uma noite muito agradável em que os três primeiros vinhos foram também os mais caros:

3° Lugar – Arroba Malbec (Argentina/Mendoza)
2° Lugar – Loma Larga Malbec (Chile/Casablanca)
AND THE WINNER IS!
Chateau de Haute-Serre Malbec (França/Cahors)

Chateau de haute-serreUm Belo Vinho!

Na somatória das notas o país vencedor foi o Chile, seguido de França e Argentina. Até um próximo Desafio as Cegas, quando surpresas acontecem! Salute e kanimambo.

O Outro Cabernet Chileno

È, há umas duas semanas falei de um e tinha prometido o segundo em seguida, mas o trampo está pesado então está faltando tempo para colocar a escrita em dia, porém não esqueço minhas promessas, não, só tarda! rs Falei do Lauca Reserva Cabernet Sauvignon e hoje quero compartilhar com os amigos e amigas o In Situ Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2010. Mais um vinho desta uva que mostra bem a boa adaptação aos diversos terroirs chilenos. O Lauca é do Vale do Maule e este é de Aconcagua, o que gera algumas diferenças, porém entre eles uma linha mestra, a ausência da excessiva piracina que tanto me incomoda em boa parte dos vinhos chilenos. O produtor é a Viña San Esteban e esta linha de produtos me atrai bastante porque afora o prazer na taça, também dá um alivio no bolso entregando mais do que se espera em função do preço.

Gosto do In Situ Big Red Blend (que nem é tão big assim!) que conjuga muito bem a Cabernet, com Petit Verdot e algo de Carmenére na casa dos R$56, mas este 100% Cabernet traz algo mais! O enólogo, Horácio Vincente, é  filho do proprietário, formado em Bordeaux e essa influência se sente bem em seus vinhos CAM00300com um algo mais de sofisticação. O In Situ Gran Reserva Cabenet Sauvignon, leva 90% desta cepa à qual ele adiciona um tempero de 5% cada Carmenére e Cabernet Franc, e deixa “amadurecer” em barricas francesas e americanas de 225 litros por cerca de doze meses.

O resultado é um vinho que atrai á primeira “fungada” mostrando uma fruta vermelha viva e fresca, e um toque algo terroso (bosque molhado), de boa estrutura tânica, densoe de bom corpo sem ser excessivo ou pesado,  complexo, elegante, textura aveludada, boa acidez e harmônico com uma leve pimenta de retrogosto e boa persistência. Um Cabernet muito bem feito, sem exageros nem maquiagem com a madeira a dar apoio ao conjunto sem jamais se sobrepor. Pelo preço, na casa dos R$75 a 80,00 acho que é uma boa opção a vinhos de marca mais famosa e mais caras, porém sem a qualidade e equilíbrio que este apresenta e prazer que nos dá. Como já disse anteriormente e por diversas vezes, é esse o barato do garimpo, encontrar estes rótulos menos midiáticos de produtores de menor porte que nos surpreendam. Se você gosta de Cabernet Sauvignon, eis uma boa opção ao seu dispor no mercado.

Espero que curtam! O VSE Cabernet, o de gama de entrada deles, é um vinho bem feito que já comentei por aqui há uns cinco anos atrás e dizem que o In Situ Laguna del Inca, seu vinho top, também é muito bom e esse eu botei na alça de mira para uma próxima oportunidade provar. Se você provar antes, ou já conhecer, me diz algo? Bem gente, a conclusão que tiro é que este produtor se dá bem com a Cabernet em sua propriedade e cantina o que pode ser um fator a se considerar quando nos depararmos com seus vinhos no mercado, ojo! Bem, hoje é só e amanhã falarei um pouco da degustação às cegas que armei com Malbecs chilenos, argentinos e franceses, mais surpresas! Kanimambo e uma boa semana para todos.

Dois Bons Cabernets Chilenos

Por mais que insistam em fazer da Carmenére a uva ícone chilena, ainda acho que as principais uvas comerciais chilenas são mesmo a Cabernet Sauvignon e a Syrah. Na Cabernet, o que mais me incomoda é o excesso de piracina (pimentão verde) em boa parte dos vinhos assim como aquela goiaba verde, aromas que não me seduzem e que, por muitas vezes, se repetem na boca. Quando provo um vinho que foge dessas características, isso já me aguça o palato e se o preço está em acordo com meu bolso, então me seduz de vez e foi isso que ocorreu com dois vinhos em dois patamares de preço diferentes, um Reserva e um Grande Reserva. O primeiro que compartilharei com os amigos hoje, foi mais uma revisita a um vinho que já tinha curtido muito em 2009, confirmei em 2011 e agora revisito mais uma vez e reconfirmo tudo o que já tinha comentado sobre ele e que o fez ser destaque aqui no blog há época, é o Lauca Cabernet Sauvignon Reserva, hoje importado pela Mercovino.

CAM00298Da região do Vale do Maule, passa por oito meses em barricas francesas e americanas. A primeira grande surpresa é a ausência total dos tradicionais aromas de goiaba e pimentão, com a paleta olfativa mostrando muito mais seu agradável e sedutor caráter frutado com notas de baunilha sutis mostrando o bom uso das barricas. Na boca, taninos muito bons, equilibrado, bom corpo, rico, álcool bem integrado formando um conjunto muito prazeroso e, como dizem meus conterrâneos, apetecível com um final saboroso de boa persistência que nos chama à próxima taça. Como o preço se encontra numa faixa ao redor dos 55,00 Reais, temos aqui, na minha opinião, um best buy com uma elegância e finesse pouco presentes em vinhos nesta faixa.
Ainda durante a semana voltarei a falar dos Cabernet Chilenos com um outro rótulo, um Gran Reserva. Até lá, Salute, kanimambo e uma ótima semana para todos. Ah, ia-me esquecendo, reservem o período de 21 a 25 de Agosto para viajar comigo a Mendoza! Ainda esta semana os detalhes, porém será uma experiência enogastronomica como visita a 8 bodegas, lagar de azeite e 4 refeições harmonizadas descobrindo novos sabores, aguarde!!

Um Encontro do Saca Rolha com a Nebbiolo

nebbiolo1         A maioria de nós amantes e desbravadores desta imensa vinosfera, entre eles os confrades da confraria Saca Rolha, sabemos que o famoso Barolo é elaborado com esta saborosoa uva, porém o que muitos não sabem é que há muito mais Nebbiolo além do Barolo, pois esta reina no Piemonte! Desta feita os amigos se reuniram para provar um pouco do que se faz no Piemonte com esta uva porém com um enfoque maior nos Barolos e suas diversas gamas de qualidade e preço. Como sempre, nossa porta voz Raquel Santos compartilha com os amigos sua experiência e percepção dos vinhos tomados. Para preservar o caixa, somente 4 vinhos desta feita complementados por rótulos fora do tema.

 

Dizem que a primeira vez, a gente nunca esquece. Pois bem, lembro-me perfeitamente do meu 1º Barolo. Foi num jantar de família, lá nos anos 90, em que o vinho que seria servido, veio acompanhado de várias histórias que faziam dele algo especial. Entre elas, a famosa citação de Voltaire: “O vinho dos reis e o rei dos vinhos”. Outra coisa que chamou atenção, foi o fato de serem de longa guarda e nunca deveriam ser consumidos antes de pelo menos uns 10 ou 15 anos de descanso na adega. Depois desse dia, comecei a ler mais sobre as histórias que acompanham essa cultura enogastronômica e me apaixonei pelo assunto.

Os vinhos de Barolo, região delimitada (DOCG-Denominazione di Origini Controllata e Garantita), são feitos exclusivamente com a uva Nebbiolo, que leva esse nome por causa da névoa típica (nebbia) que cobre a região na época da sua colheita. Por ser uma espécie muito temperamental, com ciclo longo e maturação tardia, adaptou-se muito bem na região noroeste da Itália, aos pés dos Alpes. Pela proximidade da fronteira com a França, adquiriu algumas influências, como o próprio nome da região: Piemonte – Pied-du-mont (pé do monte), vindo de um dialeto piemontês, repleto de palavras gaulesas. Além disso, há relatos que a história da viniviticultura de Barolo se desenvolveu no início do sec.XIX com a contratação de um enólogo francês para melhorar as técnicas usuais, que produziam um vinho adocicado, comum na época. Ele então fez com que essa bebida se tornasse mais seca, ao estilo de Bordeaux. Passou a servido nas mesas da nobreza e caiu nas graças do rei Vittorio Emanuele II.
A partir daí, ganhou fama e continua até nos dias atuais competindo com os maiores do mundo, como os grandes Brunellos, na Itália e na França com os vinhos de Bordeaux e Borgonha. O estilo dos vinhos de Barolo, se caracterizam pela personalidade forte. Como dizem os italianos: “vini dei pensieri” (vinhos de pensamentos). São austeros, complexos, profundos e exigem a total atenção de quem os bebe. Apesar disso, não deixam de acompanhar muito bem uma refeição, característica sempre presente em qualquer vinho italiano.

Barolo landscape

Quando se fala da região delimitada de Barolo, deve-se levar em consideração, além da Nebbiolo que tem seu nome originado da palavra nebbia (névoa) muito comum na região, única casta autorizada, o clima, e também o solo. Trata-se de uma região montanhosa, com suas pequenas colinas, composta basicamente de “marga”, que é uma mistura de argila e calcário. Porém, existe uma diferença entre o lado leste e o lado oeste, que é bem significativa. No lado leste, chamado de Helvético, apresenta maiores quantidades de ferro e é mais avermelhado. Já o lado oeste, chamado de Tortoniano, aparecem mais manganês e magnésio com aparência mais clara. Isso faz grande diferença no resultado final dos vinhos. As parcelas plantadas no solo Helvético, onde localizam-se as comunas de Castiglione Falletto, Serralunga d’Alba e Monforte d’Alba, resultam em vinhos mais austeros, com boa acidez e taninos pronunciados. Pode-se dizer que é um estilo mais tradicional dos vinhos de Barolo. Já as plantações no solo Tortoniano, onde estão localizadas as comunas de La Morra e Barolo, resultam em vinhos mais aromáticos, com taninos mais dóceis, ao estilo mais moderno, que não exigem tanto tempo de guarda.

Aqui, aparece o mesmo conceito de “Crú”, da Borgonha. Isto é, usando as uvas plantadas numa única parcela, para elaborar um vinho, consegue-se a real expressão do terroir. No caso da Borgonha, usam exclusivamente a Pinot Noir e em Barolo, a Nebbiolo. É muito interessante perceber as semelhanças e as diferenças, entre essas gigantes produtoras de vinho, que embora utilizando a mesma filosofia, obtêm resultados tão peculiares! Quanta coisa a ser considerada quando nos deparamos com uma mera taça de vinho! E quando dentro da taça tem um Barolo, a coisa fica séria. No caso desse nosso encontro da confraria, onde ele foi o foco principal, começamos aos poucos, como se pisássemos em ovos.
Começamos como de costume com um espumante para preparar as papilas:

Cava NU Reserva Brut da Bodega Maset
Um Cava, da região da Catalunya, muito fresco, cítrico, com alguns toques florais e final seco na boca.

ROMIO Nero d’Avola Terre Siciliane 2012
Para entrarmos no clima italiano: um vinho leve, com boa acidez e muita fruta (groselhas). No final, aparecem notas defumadas, de tabaco e carvão. O solo vulcânico da Sicilia, se fez presente.

nebbiolo night

Piero Busso Barbaresco Mondino 2008.
Já em território piemontês, a Região de Barbaresco (DOCG) divide com Barolo o título de melhores vinhos produzidos exclusivamente com a Nebbiolo. Muito aromático, floral (violetas), herbáceo, terra úmida, mineral. Acidez, taninos e álcool bem equilibrados. Vinho agradável e gastronômico, que acompanhou muito bem um patê de lebre com tomilho, evidenciando ainda mais as ervas aromáticas.
Depois dessa introdução, já estávamos preparados para os convidados de honra, três Barolos:

O primeiro, do produtor Dezanni – Barolo 2007.
Um estilo mais tradicional ( Serralunga d’Alba ), já com seus 7 anos de amadurecimento, mostrou-se muito fresco, frutado (principalmente frutas negras como ameixa, amoras e cerejas maduras). Madeira bem incorporada aos aromas mais secos de especiarias, como aniz, cacau e tabaco. Taninos presentes e bem equilibrados com a acidez e ótimo corpo.

O segundo, do produtor Cascina Ballarin – Barolo Tre Ciabot 2005.
Estilo mais moderno ( La Morra ), que apesar dos seus 9 anos de maturação, evidenciou um primeiro ataque alcoólico, que pedia um tempo de aeração em decanter. Com o tempo na taça, o álcool se dissipou mostrando os aromas de madeira verde, florais e frutas. Taninos finíssimos e delicados, bem encorpado e acidez equilibrada.

O terceiro, do produtor Pio Cesare – Barolo 2007.
Trata-se de um grande produtor, que possui vários vinhedos espalhados pela região do Piemonte. Esse Barolo, por exemplo é feito com castas provenientes dos arredores de Serralunga d’Alba e de outras regiões. Pode-se dizer que tem um estilo mais moderno, porém evidenciando todas as características tradicionais de Barolo. Aromas muito sutis e delicados. Bom corpo que sustenta muito bem os taninos aveludados e a acidez agradável. Aos poucos, vai mostrando frutas vermelhas e frutas cristalizadas. Algo licoroso, como um bombom de chocolate recheado de licor e cerejas. As especiarias ( alcaçuz, anis ) e os florais ( rosas, violeta, jasmim ) , vão se alternando com notas de chocolate, cacau e um fundo terroso, criando um dinamismo e uma riqueza de sabores que convidam ao próximo gole sem cessar. Um vinho que é pura sedução e nos levou a pedir bis!

Desde aquele meu primeiro encontro com um Barolo há vinte anos atrás, até agora, aprendi muita coisa. Principalmente que os vinhos podem mexer com você, independente do conhecimento que se possa ter sobre eles, ou da qualidade e fama que podem trazer estampado no rótulo. É imprescindível considerar as situações que acompanham aquela taça que está a sua frente. Onde bebemos, com quem compartilhamos, se estamos felizes ou tristes, se faz frio ou calor…….enfim, as variáveis são muitas e com certeza irão interferir naquele momento.
Dizem que o enófilo é uma pessoa que busca reviver sensações, experiências passadas e perdidas no tempo através do vinho. Por isso, ele busca incessantemente em cada garrafa algo que simplesmente deseja reencontrar. Eu, particularmente acho que no fundo torcemos para que nada conhecido seja encontrado. O processo dessa procura é sempre muito mais rico e cativante. Que não nos faltem vinhos!

 

P.S.: A experiência com esses três Barolos que acabo de descrever, me fizeram lembrar de uma música do Chico Buarque, que conta a estória de um encontro de uma mulher (Teresinha), com três amores na sua vida. Lembram? Aquela que diz que o primeiro chegou como quem vem do florista, o segundo chegou como quem chega do bar e o terceiro chegou como quem chega do nada.

As Uvas Brancas de Portugal

Em Portugal as uvas brancas abundam de Norte a Sul e eventualmente você poderá até se deparar com uma Chardonnay, Sauvignon Blanc e Gewurztraminer aqui ou acolá, porém o país é berço de uma série de castas muito interessantes sendo o país que, por km², possui a maior seleção de uvas autóctones, são cerca de 250 diferentes variedades . Portugal tem a cultura dos vinhos de lote (corte, assemblage, blends, etc.) com duas ou mais uvas, porém nas uvas brancas a vinificação delas como monocastas, em estreme (varietais) são bastante comuns especialmente com as castas Encruzado, Alvarinho, Arinto, Loureiro e Antão Vaz. Hoje vou listar algumas das principais castas brancas locais e em que região encontrá-las. Entre nessa viagem e curta os bons vinhos brancos lusos, garanto que não faltará prazer!

Folha - albarino_alvarinho1Alvarinho – Região do Minho (vinhos verdes) em especial na sub região de Monção e Melgaço onde atinge seu apogeu! Existe em algumas outras poucas regiões onde um ou outro eventual rótulo poderá se sobressair, porém em nenhuma outra é tão exuberante. Vinho marcado pelo aromas florais (laranjeira, tílias) e sabores que nos remetem a frutos de boa acidez como a grape-fruit e laranja.

Folha - antao_vazAntão Vaz – a marca da Região do Alentejo onde é, por muitas vezes, elaborado em blend com a Arinto e a Chardonnay, porém é comum sua vinificação em monocasta. Normalmente dá vinhos de maior corpo com notas aromáticas que lembram acácia, e erva cidreira e na boca frutos amarelos como pêssego, manga e damasco com acidez moderada. Vinhos que se mostram melhor após dois ou três anos em garrafa.

Folha - Arinto-parraArinto – Muito presente no Minho e Douro, onde também é conhecida como Pedernã, é também encontrada em diversas outras regiões, porém com maior destaque na Região Lisboa, especialmente no DOC Bucelas onde aparece como monocasta, assim como no Alentejo onde aporta acidez nos lotes com Antão Vaz.

Folha - AvessoAvesso e Azal – uvas essencialmente usadas na elaboração de vinhos verdes na Região do Minho, mas que elaborados como monocasta resultam em vinhos bastante interessantes. A Azal é mais floral com sabores mais cítricos, enquanto a Avesso dá vinhos um pouco mais encorpados e harmoniosos.

Folha - BicalBical – é típica da região das Beiras, nomeadamente da zona da Bairrada e do Dão (onde se denomina “Borrado das Moscas”, devido às pequenas manchas castanhas que surgem nos bagos maduros). A par da casta Maria Gomes, a Bical é uma das mais importantes castas da região. Esta casta é de maturação precoce, por isso os seus bagos conservam bastante acidez. Os vinhos produzidos com esta casta são muito aromáticos, frescos e bem estruturados. Na Bairrada a casta Bical é muito utilizada na produção de espumante

folha - Cerceal-Br-folhaCerceal – Também grafada como Sercial, é cultivada em diferentes regiões vitícolas. De acordo com a região pode apresentar características ligeiramente diferentes. São conhecidas a Cercial do Douro e do Dão, a Cerceal da Bairrada e a Sercial da Madeira, também denominada de Esgana Cão no Douro. As principais características das variedades da Cercial são a elevada produção e boa acidez. Mais presente nas Beiras (Bairrada/Dão/Beira Interior) em lote com a Bical e Maria Gomes.

Folha - encruzadoEncruzado – a rainha dos brancos no Dão, produz vinhos exuberantes, complexos e únicos com boa longevidade. Os vinhos são de cor citrina, com bom teor alcoólico e com uma grande delicadeza, elegância e complexidade aromática, com notas vegetais, florais e minerais.São finos e elegantes no sabor, denotando um notável equilíbrio álcool/ácidos.

Folha - godello_gouveioGouveio – mais presente no Douro, aparece também no Dão. É tradicionalmente usado em blend com a Viosinho e outras uvas regionais, porém sendo ótima opção na elaboração de espumantes. Vinhos que apresentam um excelente equilíbrio entre acidez e álcool, caracterizando-se pela sua elevada graduação, boa estrutura e aromas intensos. Além disso, são vinhos elegantes com boa capacidade para uma boa evolução em garrafa.

Folha - fernao_piresMaria Gomes – conhecida por esse nome no centro e norte de Portugal, especialmente na região da Bairrada, é designada como Fernão Pires mais ao sul onde também tem papel preponderante nas regiões Tejo, Lisboa e Setúbal. Gera vinhos muito aromáticos (lichia, rosas, tilias) maior teor alcoólico, mas com uma certa falta de acidez o que a faz ser usada na maioria das vezes como complemento em blends de vinhos brancos.

Foto - loureira_loureiro1Loureiro – mais uma uva com forte presença essencialmente na região do Minho. Menos acídula que a Alvarinho, gera vinhos muito equilibrados de muito boa intensidade aromática onde predominam as notas cítricas e florais. Na boca mostra-se tradicionalmente muito harmoniosa com nuances de casca de laranja, nectarina e algo de maçã verde. Apesar de ser vinificado, mais recentemente, como monocasta é comum a vermos associada com a casta Trajadura, Arinto e Alvarinho nos vinhos de lote denominados Vinhos Verdes.

Folha - viosinho1Viosinho – casta típica da região do Douro, também Trás os Montes, onde é muito usada em vinhos de lote com Gouveio e Malvasia Fina entre outras. Produz vinhos bem estruturados, frescos e de aromas florais complexos. Normalmente são também alcoólicos e capazes de permanecer em garrafa durante largos anos.

           Outras uvas regionais menos importantes; Rabigato (Douro/Dão/Minho), Malvasia fina (Beiras e Douro), Siria ou Roupeiro (Alentejo e Tejo), Rabo de Ovelha e Perrum (Alentejo), Trajadura (Minho). Bem, por hoje falei só das castas brancas, mas em breve retorno ao tema com uvas tintas tradicionais portuguesas que são mais um monte! Salute, kanimambo e uma ótima semana para todos lembrando que se alguém quiser adicionar algo, fique á vontade.

Fontes de pesquisa: Infovini / Guia de Vinhos ProTeste / Comissões reguladoras vitivínicolas / Vine to Wine Circle.

Harmonizando Vinhos e Pratos Franceses

O segredo de uma boa harmonização, que não é uma ciência exata, a meu ver passa pela soma de diversos fatores e não só de vinhos e pratos, mesmo que esses sejam os protagonistas. É essencial que a atmosfera (local) seja adequada, que as pessoas sejam entusiastas e de boa e que o custo caiba no bolso pois, caso contrário, indigestões podem ocorrer! rs Tudo isso estava presente no dia o que resultou numa noite muito agradável que gostaria de compartilhar com quem não pôde estar presente. Falarei separadamente de cada prato e vinho, finalizando com minha impressão (nota) para a harmonização deste gostoso encontro na Casa de Culina da Chef Sandra Souza.

casa de Culina V

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Casa de Culina - Harmonização vouvrayRecepção – as boas vindas foram dadas com um espumante que curto muito é uma bela opção aos bem mais caros champagnes. Um Cremant (espumante francês elaborado pelo método champenoise) do Loire, Domaine Vigneau-Chévreau Vouvray Brut elaborado com 100% de Chenin Blanc. Complexo, perlage muito fina e persistente, seco, notas cítricas com algum brioche sutil e um frescor bem presente fazem deste Cremant um espumante deveras sedutor. Para acompanhar, a Chef Sandra elaborou um Blinis de Créme Fraiche com caviar que casou muito bem. Na harmonização sempre buscamos um resultado que seja superior á soma aritmética dos dois o que ocorreu neste caso. Harmonização nota 7/10

 

Entrada – O vinho escolhido foi o Domaine Servin Chablis AOC 2012. Eu fui seduzido há Jantar Frances Chablispoucos meses, pelo irmão mais “galardoado” deste vinho de entrada, um belo 1er Cru de ótimo preço e achei que este rótulo poderia se dar bem com uma entrada de Suflê de Queijo Camembert com Gruyere. Por sinal o suflê estava muito bom e o vinho muito vibrante. Algum abacaxi, leve floral, damasco em perfeito equílibrio, ótima acidez e uma mineralidade marcante, adoro os vinhos de Chablis! Ambos muito bons, mas a harmonização não saiu como eu esperava, pois faltou untuosidade ao vinho para encarar o suflê. Harmonização apenas mediana, nota 5/10, acho que devíamos ter levado adiante a ideia das vieiras!

 

Jantar Frances PinotPrimeiro Prato – A esta altura o pessoal já estava ficando animado e foi hora de apresentar os convivas ao delicioso magret de pato da Chef que eu tinha provado fazia dois dias e adorado! O segredo foi um molho á base de carne, creme de leite, cogumelos e uvas verdes, estava absolutamente di-vi-no! Delicado, macio e rico de sabores, complexo tal qual o sedutor L. Tramier Bourgogne Rouge Le Minée 2011 que se mostrou um vinho com os mesmos predicados e aqui o resultado foi próximo da perfeição! Um plus a mais é o preço deste vinho (R$79), outro ponto importante a se considerar quando se harmoniza, e difícil encontrar um Pinot básico da Borgonha com essa qualidade e tipicidade nessa faixa, um vinho que surpreende. Esta harmonização, para mim, bateu os 9/10 pontos.

 

Segundo Prato – este Boeuf Bourguignon com Fettucine é uma das especialidades da Chef que usa um pouco de Jantar Frances Bordeauxchocolate amargo na preparação o que lhe dá uma complexidade a mais. Para harmonizar escolhi um Bordeaux do Haut-Médoc de que gosto muito e rebate a máxima de que um bom Bordeaux tem que ser caro. Com um preço ao redor dos 110 reais, o Peyremorin de Villegeorge 2010 é um belo vinho que deve seguir evoluindo por mais uns dois anos porém já se mostra pronto a beber. Aquela riqueza de sabores típica da região em que a Cabernet é protagonista, apresenta médio corpo, taninos finos, boa acidez e cresceu bem com o prato mostrando seu viés gastronômica. Uma boa harmonização, dei-lhe nota 7,5/10.

 

Jantar Frances SauternSobremesa – quando comecei a servir as taças já senti que o clima ia esquentar! Chateau La Bouade 2010, um Sautern econômico (R$110 na garrafa de 500ml) que vale muito a pena tendo seus aromas tomado conta do pedaço. A harmonização foi clássica, com Crème Brulée, mas QUE crème brulée, dos deuses! A Sandra realmente se superou neste prato que acabou brilhando e criando uma harmonização digna do final de uma grande noite, um Grand Finale inesquecível ao qual só posso dar nota 10, maravilha!

Como sempre, esses eventos são fruto de parcerias, tivemos a colaboração de duas importadoras, a Premium e a Viníca assim como a Casa de Culina, inauguramos a casa, que é um atelier gastronômico onde pequenos grupos podem se reunir num ambiente muito especial e aconchegante, tudo sob a batuta da Chef Sandra Souza. Uma kanimambo especial a todos e aos presentes que fizeram do evento mais um momento muito especial com muita alegria e Joy de Vivre. Como já diria o famoso, impagável e já falecido colunista social dos anos 80 e inicio de 90, Ibrahim Sued, “ademã que eu vou em frente”, santé!

Clipboard Jantar francês

Vinho de Reflexão, Um Moscatel Roxo de Setúbal 1998

Tem um monte de gente que, cada vez que você fala de vinho de sobremesa, viram a cara e dizem não gostar. O interessante é que em diversos eventos de degustação que promovi e coloquei um vinho doce, de sobremesa, em prova, estes acabaram sendo os rótulos mais vendidos do evento. O fato me leva a concluir que a maioria é do tipo; “não provei e não gostei” tudo aquilo que tentamos mostrar aos nossos filhos ser errado! O grande segredo desses vinhos é o profundo equilíbrio entre o residual de açúcar e a acidez. Já provei um Tokaji Essencia com 200grs/l de açúcar residual e estava magnífico, digno de vir acompanhado da famosa almofadinha!!

Já eu, salvo algumas exceções nojentas (rs) adoro provar de tudo e vinhos de sobremesa são uma de minhas paixões. É difícil encontrar bons vinhos de sobremesa baratos, a produtividade costuma ser pequena, mas há exceções sendo que a maioria destes são vinhos de colheita tardia sul americanos, mas hoje quero falar deste verdadeiro elixir dos deuses produzido pela Quinta da Bacalhôa com esta pouco conhecida e rara variedade de moscatel, aparentemente autóctone da região de Terras de Setúbal, o Moscatel Roxo, vinho licoroso, fortificado (adição de aguardente vínica), com cerca de 18º de teor alcoólico!

CAM00302         Como costumo dizer, há vinhos que não sabemos se cheiramos ou bebemos, pois este é daqueles por quem nos apaixonamos à primeira fungada e mais do que beber, é de lamber!!! Extremamente sedutor, com notas florais que me fazem recordar laranjeira e rosas, com algo de frutos secos e mel, talvez até influenciado pela incrível cor amarelo dourado, quase topázio, uma verdadeira preciosidade. Tudo isso, no entanto, não convence se quando chega à boca esses aromas morrem e são substituídos por um liquido xaropento, enjoativo e sem vida. Este Moscatel Roxo da Quinta da Bacalhôa é o oposto de tudo isso, pois possuí uma acidez maravilhosa que lhe aporta uma personalidade muito vibrante, elegante, de grande leveza e maciez que convidam ao próximo gole. Absolutamente encantador, um adolescente de dezesseis aninhos, nove ou dez dos quais envelhecendo em meias pipas de carvalho, anteriormente usadas na produção de whisky, devendo, conforme pesquisado, ainda evoluir por mais vinte, trinta ou mais anos! Para tomar devagar, após o almoço, jantar ou a qualquer hora, sorvendo todas as suas nuances e desfrutando de toda a sua riqueza de sabores.

Ele é a sobremesa, um vinho para tomar olhando o horizonte e ver o sol se pôr, um vinho de contemplação e reflexão, para agradecermos a dádiva da vida e o privilégio de poder tomar um néctar desses. Para quem queira acompanhar com algo, penso que um Toucinho do Céu (típico doce conventual português) ou um Panetone de Zabaione italiano poderão ser grandes parceiros.

A uva, de cor arrocheada em vez de branca como a Moscatel “comum”, é tida como uma mutação regional da mesma e algo rara (pouca área plantada) com volumes pequenos de produção, gerando vinhos algo mais secos e complexos que os Moscateís tanto das regiões de Setúbal como do Douro (Favaios). Considerando-se o que o vinho é, o preço nem é caro pois anda na casa dos R$200 a 230, porém quem tiver a chance de passar no Duty Free de chegada no Brasil, vi no site por USD37, uma baba! Para quem quiser se aventurar em outros vinhos Moscatel Roxo deste quilate, minha recomendação fica com o Domingos Soares Franco Coleção Privada 2001, outro néctar de lamber os beiços e não esquecer tão cedo.

Salute e kanimambo, uma ótima e doce semana para todos.

Paradoxo Merlot

Hoje tem Wine Bar com a Salton e, como convidado a participar do evento, recebi algumas garrafas para prova. Tínhamos para almoço de Domingo um singelo lombo no forno com batatas e arroz então decidi me antecipar (normalmente atraso, rs) ao encontro do Wine Bar e acabei abrindo esta garrafa do Paradoxo Merlot 2012 para acompanhá-lo. Nada de complexidades nem grandes rasgos culinários e o vinho acompanhou bem a essa premissa.

          O nome, bem bolado por sinal e com uma certa dose de poesia, vem do fato que há alguns anos atrás se achava impossível ter qualidade de vinhedos nessas regiões e; quando o impossível se torna realidade, se converte em paradoxo. Este vinho é elaborado com uvas de parceiros da vinícola na Campanha Gaúcha que tem mostrado, junto com Encruzilhada do Sul, ser uma região produtora de grande futuro. Já mencionei num post anterior sobre vinhos desta vinícola, que gosto de sua politica de precificação e qualidade, produzido muitos bons vinhos de entrada de gama e médios, com consistência. Este é mais um exemplo disso que falei, pois é um vinho na casa dos 25 Reais que entrega o que promete e disso eu gosto.

Salton Paradoxo merlot e lombo         O lombo levemente temperado com ervas e vinho branco se apresentou á mesa bem suave e o vinho; com taninos macios e maduros, boa fruta e acidez no ponto,  prima pelo equilíbrio o que o fez um parceiro à altura do prato não passando por cima nem ficando devendo, que é o que se procura numa harmonização. Apesar de seis meses de barrica (50/50 francesa e americana) que acredito deva ser de segundo ou terceiro uso, a madeira se mostra bem integrada deixando umas notas de especiarias mais presentes no final de boca de média persistência, talvez fruto dos seis meses em garrafa antes de ser colocado no mercado. Acho os Merlots nacionais os melhores (relação qualidade x quantidade) da região e este vem comprovar isso numa faixa de preço difícil de encontrar concorrentes argentinos e chilenos (da mesma uva) com a mesma estirpe.

          Hoje á noite, tendo um tempinho, não deixe de acompanhar o Wine Bar com a Salton pois tem novidade na área e eu também estou curioso em provar o Septimum! Salute, kanimambo e nos vemos mais tarde

Oito Anos Falando de Vinhos e Alguns Destaques – Brasil III

Neste primeiro lote de Destaques destes últimos oito anos dedicados aos vinhos do Brasil, os espumantes teriam que obrigatoriamente estar presentes e com eles termino esta série. Temos bons vinhos tintos, porém é nos espumantes que o vinho brasileiro se projeta internacionalmente como, em minha modesta opinião, a quarta força mundial no quesito Quantidade com Qualidade. São inúmeros os bons rótulos, porém dois vinhos são especiais, o Orus Rosé do Adolfo Lona e o Geisse Terroir Nature do Mário Geisse ambos conceituados enólogos com anos de serviço prestados ao desenvolvimento do espumante nacional.

DSC03152Orus Pas Dose Rosé– O provei pela primeira vez em 2011 num evento promovido pelos amigos de longa data e blogueiros, Evandro e Francisco (2 Panas). Postei o que segue; “um espumante rosé nature apaixonante, de pequena produção e uma incrível delicadeza! Daqueles caldos que deveriam vir, como costumo definir, de fraque e cartola para a mesa. Uma surpreendente criação de alguém que tem história na vinicultura tupiniquim, o Sr. Adolfo Lona, é o ORUS Pas Dose Rosé! A cor já impressiona saindo fora daqueles tradicionais tons rosados e cereja, para algo mais sutil. Visualmente a perlage se mostra muito fina, abundante e consistente nos convidando a levar a taça á boca onde ele se mostra em todo o seu esplendor deixando-nos sentir estrelas no céu da boca. Elegante e fino, rico, equilibrado, complexo e sedutor, um rosé que conseguiu desbancar vinhos de maior renome e preço. Corte de Chardonnay, Pinot Noir, Merlot vinificado em branco e Merlot vinificado em rosé. Doze meses em contato com as leveduras e mais doze descansando em garrafa e somente 608 garrafas produzidas, ou seja, mais uma daquelas raridades para poucos e entusiastas amantes do doce néctar.” De lá para cá já andou por diversas vezes em minha taça e nos meus posts, só confirmando a minha primeira impressão sobre este que se tornou um clássico dos espumantes nacionais e a cada ano estou lá na fila esperando algumas das poucas (não chega a 700) garrafas produzidas.

DSC03123Cave Geisse Terroir Nature 2009 – mais um nature, desta feita branco, e mais uma maravilha engarrafada. Já o conhecia de velhos carnavais, mas sempre achei que o Nature “básico” deles já era muito bom e que este não merecia as glórias que lhe atribuíam. Este da safra 2009 no entanto, me virou a cabeça e mostrou que é realmente um grande espumante que, entre os brancos, é a meu ver o que mais se destaca nacionalmente mesmo havendo alguns fortes concorrentes no mercado. Em Novembro de 2013 o coloquei numa degustação às cegas com mais outros sete concorrentes entre eles alguns grandes espumantes das regiões de; Champagne, Franciacorta, Cava e Trento tendo o Terroir Nature ganho a degustação na opinião de 23 consumidores que estiveram presentes ao evento. A produção não passa das sete mil garrafas e é um corte de meio a meio (varia em função das safras) do melhor Chardonnay e Pinot Noir do vinhedo localizado em Pinto Bandeira. Tremendamente sofisticado, com uma perlagem fina, intensa e de longa duração que explode na boca com notas de macã verde, citrinos e alguma levedura, o famoso brioche, sutil, delicado, fino e sedutor, um grande espumante que deixa muito champagne famoso no chinelo.

            Ambos os vinhos estão na casa dos 125 Reais, metade de alguns importados renomados, porém ainda tem gente insistindo em beber marca, que pena porque estão perdendo preciosos caldos, trocando qualidade e prazer por pretenso glamour! Enfim, hoje é Sexta, “the day after” a abertura da copa e por um mês só se vai falar disso, mas não aqui, porque navegar é preciso. Um ótimo fim de semana para todos e nesta Segunda (16/06) todo mundo de olho em Salvador quando Portugal e Alemanha protagonizam a final antecipada da copa! rs Salute e kanimambo.

Oito Anos Falando de Vinhos e Alguns Destaques – Brasil II

Nesta semana me dediquei a dar os destaques brasileiros destes últimos oito anos de labuta e estudo de nossa vinosfera. Como disse anteriormente, os destaques não tratam necessariamente dos melhores vinhos (esses listo todos os anos), mas sim daqueles que conseguiram me surpreender e deixaram marcas em minha memória. Hoje quero compartilhar com vocês alguns rótulos a mais dos vinhos brasileiros que tive o privilégio de provar; Quinta do Seival Castas Portuguesas – Dal Pizzol Touriga Nacional – Churchill Cabernet Franc e Storia 2005. Esses quatro marcaram bem minha trajetória destes anos de escriba do vinho, porém o Dal Pizzol há muito não provo (2008!) e preciso revê-lo.

Dal Pizzol Touriga      Dal Pizzol Touriga Nacional 200 Anos, Safra 2007 – Em 2008 tive a oportunidade de estar presente no lançamento deste vinho no conceituado restaurante português, Antiquarius aqui em São Paulo. ” Esta foi a primeira colheita desta uva plantada em 2002 pela Dal Pizzol na região de Bento Gonçalves, gerando um vinho muito agradável que chega num momento oportuno já que se estava celebrando 200 anos da vinda da corte Portuguesa para o Brasil, na bagagem de quem, vieram as primeiras garrafas de Touriga Nacional. Com uma produção de 12.000 garrafas, o Dal Pizzol Touriga Nacional não passa por madeira sendo um vinho pronto para beber. No nariz, possui um primeiro ataque frutado e fresco de boa intensidade. Na taça evolui deixando aparecer alguns toques florais bem típicos da casta. Na boca é suave, elegante, com taninos maduros e um teor de álcool bem comportado, 13º. Bastante equilíbrio e harmonia num vinho leve que, certamente, agradará fácil. Mudou o terroir, mas a essência da uva está lá. Gostei; um vinho correto, fácil de beber que recomendo. O rótulo comemorativo aos 200 anos, é um caso á parte, de muito bom gosto, nos convidando a levar a taça á boca.” Na época foi lançado a R$35,00 a hoje, pelo que pude pesquisar, anda na casa dos R$55,00. Provei numa degustação ás cegas em 2011 e foi bem em minha opinião, tendo se colocado entre os top 5 entre 18 concorrentes presentes à prova.

Quinta do Seival Castas Portuguesas – Sai ano entra ano, um vinho confiável, de preço médio que castas 2005surpreende os mais incautos e o meu amigo e enólogo Miguel de Almeida tem grande responsabilidade por isso. O primeiro que me surpreendeu foi o da Safra de 2005, provado em 2009, um corte de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz produzido pela região de Campanha, próximo da fronteira com o Uruguai. Surpreendente e prova inequívoca da melhora de qualidade dos vinhos brasileiros. Frutos negros maduros com algo resinoso no nariz, madeira bem colocada, fruta passa, bem estruturado com taninos finos, equilibrado, saboroso com um final de boca agradável e de boa persistência em que se manifestam nuances herbáceas. De lá para cá o Alfrocheiro ficou fora, mas segue sendo um vinho que agrada sobremaneira e às cegas surpreende muita gente, tendo participado de um Desafio de Vinhos portugueses como intruso e conseguido o 8º lugar entre 14 rótulos na disputa. Meus amigos blogueiros portugueses, Pingas no Copo e Copo de 3, não me deixam mentir, o vinho mais próximo de um Dão feito fora da região! Creio que na época andava na casa dos R$45 e hoje perambula na casa dos 60 Reais.

DSC06414          Churchill Cabernet Franc – este comecei a tomar faz uns três anos e não mais consegui parar. O 2006 (600 gfs) estava divino, o 2008 (1500 gfs) repetiu a dose e o 2011 (3000 gfs) não negou fogo, porém agora temos que aguardar chegar o 2012 pois as outras safras se esgotaram! Ano passado na revista Gowhere Gastronomia o indiquei como o melhor vinho nacional da atualidade, sempre levando em consideração o preço obviamente! Um projeto de Nathan Churchill com a Valmarino, é um “vinho complexo de boa textura e nariz muito interessante em que frutos negros e notas tostadas dão suas caras com grande intensidade formando uma paleta olfativa sedutora. Mais para encorpado, este 2008 está muito jovem e precisa de uma de aeração para mostrar todo seu potencial e uma temperatura mais para alta, em torno dos 19 a 20º C.” Foi isso que disse em Janeiro de 2012 e não mudaria uma palavra sequer ao falar do 2011 que chegou a harmonizar com galhardia um bom Queijo da Serra português! Um belo, complexo e elegante vinho que deve melhorar muito com o tempo, pena que não consigo lhe dar esse tempo(!), e custa por volta dos R$85,00. Aguardo ansioso pelo 2012!

Storia 2005 – O vinho que que me ajudou a quebrar alguns paradigmas com relação aos vinhos brasileiros e, Storiavejo assim, também um marco de mudança mercadológica nos vinhos da Valduga que mudou radicalmente seu marketing e design a partir desse vinho. Foi marcante porque ás cegas levou muitas degustações de porte contra vinhos de igual valor ou superior de várias partes do mundo. De lá para cá degustei mais duas safras, a de 2006 e a de 2008, porém não me pareceram à altura do 2005 que virou cult e objeto de colecionadores que hoje chegam a pagar, pelo menos quem tem é isso que pede, valores entre R$400 a 500 a garrafa. Um grande Merlot que provocou na concorrência uma corrida para produzir similares vinhos premium mostrando que esta uva pode gerar, sim, grandes e longevos vinhos. Em 2009 escrevi sobre ele; “Complexo nos aromas, fruta madura, capucino, algo floral entrada de boca marcante, denso, fruta compotada, taninos doces em total equilíbrio com a boa acidez deixando-o redondo, rico, aliando potência e elegância num final de muito boa persistência com notas achocolatadas e de café.”

Com estes quatro vinhos finalizo os destaques de vinhos tranquilos brasileiros, mas não sem antes ressaltar um rótulo para ficar de olho a despeito do preço, o Pizzato DNA 99 da safra 2005, vinhaço, que é um outro vinho candidato a se tornar um épico e um vinho a ser acompanhado através das safras. Existem outros bons rótulos nacionais e aqueles que se destacam por sua grande qualidade, porém sua política comercial eleva o preço às alturas e esses casos eu exclui, não acho que façam o mínimo sentido! No próximo post sobre estes destaques brasileiros dos últimos 8 anos, dois espumantes que para mim são, na atualidade, o que de melhor se faz por estas terras. Até lá, salute e kanimambo.