Assunto até Tenho, Falta é Estimulo

           É, os amigos e fiéis leitores já certamente se deram conta que não venho escrevendo com a costumeira assiduidade, mas fica aqui um ponto de indagação que compartilho com meus amigos enoblogueiros. Porquê essa fobia de ter que escrever e postar todo o santo dia? Temos tanto assim a dizer? Será que não estamos exagerando no volume de informações que publicamos na ânsia de sei lá o quê? Quem consegue ler tudo o que publicamos diariamente e quanto disso tem efetivamente importância? O que é que nos move; fama, dinheiro, projetos, competição, realização pessoal? É fuga ou missão?

            Eu confesso que ando á procura da chama e dos ideais que me fizeram iniciar este blog e minha coluna há pouco mais de dois anos e meio. Ando numa fase em que tenho tido muito mais interesse em curtir o vinho do que tentar interpretá-lo. Hora de querer buscar mais satisfação do que razão, hora de quebrar as barreiras da mesmice sem ter que virar o mundo de cabeça para baixo, hora de quebrar paradigmas e dizer que vinhos que eventualmente possam apaixonar alguns, a mim pouco me dizem e outros, absolutamente comuns para aqueles, a mim me apaixonam. Afinal, quem é dono da verdade ?

           O que faz com que gastemos horas pesquisando, provando e escrevendo? O que nos move? Quem sabe a paixão? Creio que é por aí, sim, porém a paixão também pode ser doentia e em alguns momentos até cegar e afetar a ordem de prioridades de nosso dia-a-dia. Tétrico, crise existencial, não nada disso, somente um momento de reflexão necessário na busca do fio da meada para retomar o caminho com mais tesão e criatividade. Bom é curtir grandes momentos na companhia de amigos, , como os promovidos pelo amigos Marcio Marson da Eivin, ontem á noite, e Rui e João Pedro em Portugal, fazer descobertas, conferir, garimpar, nos deixar surpreender e até nos decepcionar com o doce néctar, porém sem deixar de perder o foco do que é realmente importante nesse processo. É esse equilíbrio, essencial a tudo na vida, e essa harmonização que me parecem ser o principal fundamento que deve permear nossas ações e pensamentos.

         No fritar dos ovos, quem sabe a resposta não seja; menos com mais intensidade?! Só algo para refletirmos durante o fim de semana enquanto preparo os posts da semana que vem. Salute e kanimambo pela visita. Quer ver e ler sobre as coisas do vinho? Aproveite, tem pancada de informação aqui do lado, basta pesquisar em categorias. Em dia de mais pontos de interrogação do que de exclamação, um toque mais descontraído com um pouco do célebre Analista de Bagé. Nos vemos por aqui.

Conclusões

          Quanto mais milito nesta nossa vinosfera, mais conclusões tiro das coisas que nela acontecem. Eis algumas que me têm chamado a atenção:

Vinho Brasileiro – apesar de minhas sérias restrições á filosofia comercial da grande maioria das vinícolas, limitações/erros na distribuição e certa miopia mercadólogica, temos que reconhecer o grande avanço tecnológico e de qualidade alcançado, uma verdadeira revolução se compararmos o hoje com dez anos atrás. O mercado, no entanto, ainda padece de muito preconceito que os fatos contestam. Só neste blog, em degustações às cegas com uma banca de 13 degustadores experientes, temos alguns claros exemplos disto:

  • Desafio de Vinhos Merlot – Campeão Valduga Storia 2005 entre 12 vinhos do mundo inteiro.
  • Desafio Assemblages do Novo Mundo (até R$85,00)-  Campeão Salton Talento 2005 entre 12 vinhos da Argentina, Chile, África do Sul, Austrália e Estados Unidos.
  • Desafio Bordeauxs até R$100,00 – O vinho surpresa foi um corte bordalês brasileiro de santa Catarina e um dos melhores vinhos tintos nacionais, VF da Vila Francioni que ostentou um elogiadíssimo segundo lugar.
  • Desafio de Vinhos Portugueses até R$100 – O vinho surpresa foi mais uma vez um brasileiro, o Castas Portuguesas 2005 da Miolo que alcançou um honroso oitavo lugar entre 14 vinhos de diversas regiões produtoras portuguesas.
  • Desafio Uvas Ícones – Este foi recém realizado e ainda não postei, mas mais uma vez um Merlot brasileiro foi muito bem obrigado (veja na semana que vem aqui).

        Contra fatos não há argumentos, e existe gente que precisa abrir a mente e coração deixando-se emocionar pelos bons vinhos tintos nacionais, inclusive os de gama média. Nem falo dos espumantes!

 

Que preço é mera indicação de qualidade, não fato – mais uma vez os Desafios de Vinhos são clara comprovação disto com diversos vinhos surpresa de baixo valor, o Desafio Merlot e o Desafio Assemblage do Novo Mundo são ótimos exemplos, superando os “big shots”.  Aliás, fica muito claro que nome e camisa não ganham jogo, aqui interessa performance na taça e na hora H, às cegas, é que o bicho vira homem e mostra ao que veio. Os laureados nem sempre demonstram na taça o glamour apregoado pela mídia e, como não tomamos rótulo nem pontuação, ( ou você toma?) o que realmente importa é o doce néctar dentro da garrafa e na sua taça!

 

Vinhos baratos são ruins – Há uns 50 dias que estou trabalhando num novo painel de vinhos até R$50,00 (já tenho algumas listas postadas em outros momentos), que divido em duas faixas; até R$30 e acima. Abaixo de R$30 tem gente que, com o preconceito acima mencionado, nem olha. Bem, se o bolso está recheado e só se toma vinho de vem em quando, tudo bem já que realmente os muito bons e ótimos vinhos estão na sua grande maioria acima disto, porém tenho me surpreendido com uma série de rótulos altamente recomendados que tenho garimpado. Como tomo vinho diariamente, os vinhos do dia-a-dia são essenciais  e, se o preço não se adequar ao bolso, é falência na certa! rsrs Aguardem, na semana que vem começo a falar disso, mas existe sim muita coisa interessante e, na faixa de R$31 a 50 então, nem se fala!

 

Que gosto pessoal influi na pontuação – Existem críticos que querem nos convencer de que suas pontuações são meramente técnicas, para mim uma verdadeira falácia. Impossível não nos deixarmos levar por subjetividades que fazem a própria essência do vinho. Por isso as notas dadas por Robert Parker e equipe serem tão diferentes do Hugh Johnson, Decanter e companhia. Por isso um vinho que alguém detesta, ser apreciado por outro.  Seu guru? Definitivamente aquele com que você tenha mais sinergia de gostos e estilo. Tome alguns rótulos recomendados por diversos criticos, avaliadores, degustadores, amigos, blogueiros, etc., defina os que mais têm a ver com você e seu paladar usando suas dicas como referência na hora da compras futuras.

Salute e kanimambo

Au Revoir Saul.

              O Mestre se foi, mas deixa um enorme legado para a maioria de nós pobres mortais. Aprendi e sigo aprendendo muito com ele e seus livros. Foi “Tintos & Brancos” que me abriu a cabeça para o mundo dos vinhos. Com ele aprendi a apreciar vinhos e a me deixar levar pelas sensações despertadas ao olfato e ao palato. Foi muito mais que um crítico, foi um professor e, acima de tudo, um homem humilde, generoso e respeitoso com as pessoas apesar de seu enorme conhecimento e litragem o colocarem num degrau acima de todos nós. Me lembro de uma vez que o vi sentado no wine bar da Expand no shopping Iguatemi aqui em São Paulo, mas hesitei em chegar pois não queria importunar. Lhe disse isso num comentário em seu blog e a sua resposta foi “na próxima não deixe de chegar”. Pois bem, houve uma próxima e cheguei, tendo o prazer de ter tomado uma taça com ele, algo que guardarei na lembrança para sempre.

              De seus ensinamentos tirei uma frase, que desde o dia que iniciei este blog deixei registrado na página “Sobre”, aqui acima, tirada de um texto dele publicado no dia 13 de Dezembro de 2007, se é que a memória não me falha. Dizia ele ” Aliás, quando se fala em vinhos, NUNCA há uma palavra final, mas sim opiniões, que podem ou não ser bem sustentadas. Só uma opinião importa, a sua.  O vinho só existe para dar prazer. Se ele deu prazer, cumpriu sua função, independentemente de regras cânones e opiniões alheias. Costumo dizer que o vinho precisa descer do pedestal no qual foi colocado por alguns esnobes e pretensos entendedores e ser colocado em seu lugar, que é o copo. Nada mais chato que um esnobe do vinho, que fala pomposamente, como se ele fosse o único ungido a entender termos herméticos.”

           Saul, uma boa viagem para onde quer que estejas indo neste momento. Que chegues em paz e que Baco te receba de braços abertos com uma garrafa na mão e uma taça na mesa. Esta é a singela homenagem de um eterno aprendiz que um dia leu que “não adianta ser luz se não for para iluminar o caminho de alguém”. Meu caro, fique certo que foste luz  e que iluminaste o caminho de muita gente. Meus pêsames áqueles que mais perto dele estavam e a sua família, a perda é muito maior e muito mais sofrida. Bebel e Sebastian, um beijo meus amigos. Salute mestre, um brinde especial em sua homenagem e vamos em frente porque, como você sempre disse

 “O negócio é passar bem”.

Saul Galvao

Esta imagem está no blog da Bebel e Sebastian ‘Espaço Gourmet” e adorei, tem tudo a ver com o Saul.

Vale dos Vinhedos: visite antes que desapareça

        Gente, desculpem, mas quem veio aqui hoje atrás dos resultados do Desafio de Vinhos Portugueses não o encontrará. Escrevo tudo em Word antes de postar por segurança (?!) e ainda faço back-up, mas deu pau no bendito! Perdi tudo o que tinha feito, são 14 vinhos, e isso às 11 da noite! Vou passar o dia refazendo em outro computador, obviamente, até porque Murphy não falha e não tinha feito o back-up, mas prometo que amanhã estará no ar.

       Enquanto isso, “deliciem-se” com mais uma aberração de nossos políticos sem quaisquer escrúpulos que, tristemente, assolam nosso país de norte a sul mostrando que não necessitam de terroir específico para se multiplicarem. Será que o povo da região não pode fazer nada para reverter essa situação ou será que apoiam esse disparate, pelo menos de quem de fora vê? Pelo menos descubramos os partidos e vereadores envolvidos para que os possamos punir exemplarmente nas próximas eleições dando-lhes ZERO votos! Enfim, cabe-nos alertar, mas somente a população local pode tomar ações para tentar reverter esse descalabro.  Esta mensagem foi recebida do pessoal da Academia do Vinho (link aqui do lado), um dos melhores sites brasileiros sobre vinho e merece todo o destaque possível.

Vale dos Vinhedos: visite antes que desapareça

É triste constatar que mais uma vez a ganância fala mais alto e se sobrepõe à seriedade, à responsabilidade e ao bom senso.

Não é só no Congresso Nacional que aqueles que deveriam zelar por nossos interesses estão muito mais interessados nos próprios bolsos. Semana passada, uma tropa de choque de vereadores na Câmara Municipal de Bento Gonçalves aprovou, para fins residenciais, o loteamento de parte do Vale dos Vinhedos, antes área considerada rural. O que leva alguém a votar favoravelmente a uma proposta tão absurda? A quem interessa tanto empenho nessa aprovação? Quanto vale o show?

O Vale é uma linda região de produção agrícola, com longas extensões de vinhedos e umas casinhas aqui e ali, além das vinícolas. Somente pessoas sem qualquer responsabilidade ambiental e a mínima consciência de dinâmica urbana, não perceberiam que não há infra estrutura que permita receber grandes quantidades de pessoas para morar. Especulação imobiliária, crescimento desordenado, poluição visual, sonora e do ar, contaminação do lençol freático, trânsito caótico, nada disso combina com o Vale dos Vinhedos.

O condomínio aprovado tem lotes de 200 metros quadrados: centenas de casas em lotes minúsculos, milhares de pessoas habitando uma região que não tem a menor condição de se adequar a isso.

Crescimento urbano é um tema seríssimo e deve ser discutido com extrema responsabilidade porque as consequências são irremediáveis.

Centenas de pessoas no Vale garantem sua renda na entressafra da uva com atividades ligadas ao turismo. É a beleza das características naturais do Vale que atrai turistas. Ninguém quer viajar para ver mais uma cidade cheia de condomínios, para isso basta olhar da janela de casa. Com essa decisão o interesse de uns poucos se sobrepõe à necessidade de muitos. Vão enterrar o potencial turístico da região, ou seja, vão matar a galinha dos ovos de ouro.

Apesar do protesto geral de vinicultores, moradores, políticos (sim, ainda existem alguns que não se metem no meio dessa lama de safadeza), sabemos que no Brasil as coisas costumam ficar por isso mesmo, todo mundo esquece e a pouca vergonha acaba em pizza. Nesse caso, sem vinho.

É preciso preservar o Vale para que as futuras gerações conheçam o berço da vitivinicultura brasileira ao vivo e não só pelas fotos nos livros de história.

Quem conhece o Vale sabe do que estamos falando e da enorme perda em todos os sentidos a não ser no bolso dos vereadores e empreendedores imobiliários. Quem não conhece, visite antes que desapareça.

Clipboard Vale - JFC - Falando de Vinhos

          Já imaginaram esse cenário acima repleto de muros guaritas e um monte de casinhas uma do lado da outra? Não? Então ampliem a imagem clicando nela, olhem-na com atenção por uns instantes, fechem os olhos e imaginem. Perguntem-se depois, se sairiam do aconchego do lar para visitar um lugar desses! Só isso, não precisa nem pensar na infra necessária para aguentar esse tranco.

Salute ao bom senso e à cidadania. 

YESSSSSSSSSSS, o “Maledetto” Deve Cair!

capeta de einstein24h.com.br O corajoso Luiz Henrique Zanini, pegou o “Maledetto” do projeto do selo fiscal pelos chifres e organizou/esclareceu os produtores quanto ao absurdo comercial e operacional dessa implementação. Tenho dado o máximo possível de apoio e exposição a este tema, tendo minha opinião formada e amplamente divulgada aqui no blog, porque tenho a convicção de que seria um enorme retrocesso para nossa vinicultura que só beneficiaria os grandes, prejudicando os pequenos produtores, importadores e nós consumidores. É algo que, sinceramente, não tem nem pé nem cabeça! Pois bem, o Zanini que é parte interessada,  já que sua Vallontano é uma dessas pequenas vinícolas, e um dos lideres desse movimento contra o selo fiscal, me envia mensagem dando conta que esse “maledetto” deverá ser engavetado conforme noticia dada hoje no Valor Econômico com o título – Receita Rejeita Selo de IPI em Garrafa de Vinho.

“Uma avaliação técnica da Receita Federal reprovou a ideia de obrigar produtores e importadores de vinho a colarem selos nas garrafas para comprovar o pagamento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O pedido é da Câmara Setorial do Vinho e tinha sido levado ao ministro da Agricultura em 6 de abril. A decisão será do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, mas o tema será encaminhado pelo secretário-executivo do ministério, Nelson Machado.

Ontem, o subsecretário de Arrecadação e Atendimento da Receita, Michiaki Hashimura, recebeu parlamentares e vários representantes de 102 pequenos produtores de vinho. Eles criticaram o alto custo do selo, aproximadamente R$ 0,20 por garrafa, se comparado ao do preço mínimo do quilo da uva (R$ 0,46).

O sócio da Vallontano, Luís Henrique Zanini – presidente da União Brasileira de Vinícolas Familiares e Pequenos Vinicultores (Uvifam) – explicou que o documento levado à Receita demonstra que o selo não evita fraudes e a sonegação, mas tem custo suficiente para tirar do mercado empresas com estrutura familiar. “A Receita foi muito sensível aos nossos argumentos. Disseram que o governo não tomará decisão que possa prejudicar os empreendedores familiares”, revelou Zanini.

Agora, como neste país as coisas acontecem de forma misteriosa, convém manter o estado de alerta, nunca se sabe o que algum burrocrata de plantão pode aprontar. Não seria a primeira vez neste nosso Brasil varonil que, por razões desconhecidas, uma canetada passa por cima de análises técnicas de orgãos competentes. Então, como dizem nossos amigos argentinos, “OJO”! Não dá para baixar a guarda em quanto o defunto não esteja definitivamente enterrado em caixa de concreto lacrada e, mesmo assim …………Quer ver o artigo completo? Então clique aqui >>  http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2009/8/26/receita-rejeita-selo-de-ipi-em-garrafa-de-vinho. Artigo de Arnaldo Galvão publicado no Valor Econômico de 26/08/2009.

Valeu Zanini! Brindo a isso com teu novo e saboroso espumante Vallontano Rosé, salute e kanimambo.

Imagem – Capeta de Caruaru – www.einstein24h.com.br

Ainda o “Maledetto” Selo Fiscal.

É, o “maledetto” segue seu caminho e, se ninguém fizer nada, quando virmos já estaremos pagando por isso; nós consumidores, parte dos importadores, os pequenos produtores, etc.. No entanto, quando a injustiça é grande e os atos descabidos, sempre haverá gente para botar a boca no trombone e fazer ecoar a vóz da razão. O Luis Henrique Zanini, já tinha emitido um alerta e um manifesto sobre este status-quo há algum tempo e eu o publiquei aqui. Pois bem, este brado de alerta não se calou no tempo e espaço, como é tradição neste país, e fez fôlego voltando à carga com tudo, exaltando os pequenos produtores a se unirem para provocar mudanças, dizendo NÃO ao Selo Fiscal e fez questão de mais uma vez expor as graves conseqüências dessa implementação. Mais do que eventuais opiniões técnicas que eu possa ter, estas são desprovidas de experiência no setor. Este alerta, desabafo e convocação à luta, no entanto, vem de alguém que vive essa situação. Vale a pena ler e tomar posição. Diga não você também, use este e outros blogs para expressar sua rejeição ao, como diz Zanini, Maior Retrocesso da História da Vitivinicultura Brasileira.

 

Caros amigos,

 

Jamais poderia imaginar uma repercussão tão forte de um humilde texto, que despretensiosamente levantou uma “voz solo” na multidão. Para sintetizar em uma só expressão as centenas de manifestações recebidas sobre o assunto Selo Fiscal para os Vinhos, cito esta: O MAIOR RETROCESSO DA HISTÓRIA DA VITIVINICULTURA BRASILEIRA.

O vinho brasileiro segue em rota de colisão com ele próprio, tornando-se cada vez mais antipático e burocrático aos olhos do consumidor. O mais estarrecedor disso tudo é que, como previsto, um significativo número de vinícolas e associações mostra-se contrário à ressurreição deste tiranossauro. Sob a ótica de um cidadão brasileiro, enólogo e produtor que paga seus impostos e sobrevive do vinho junto com sua família, coloco um imenso ponto de interrogação sobre a decisão da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Viticultura, Vinhos e Derivados a respeito do assunto. Na Câmara não há representação de pequenos produtores de vinho e, assim, sua posição não pode ser considerada legítima e democrática. Sufocou-se o debate. Não houve interesse em esclarecer às vinícolas e suas associações o real significado de se adotar o selo fiscal para os vinhos. O Selo será a sentença de morte para muitos que não terão condições de conseguir e/ou manejar a selagem. Significará o desaparecimento do produtor artesanal e facilitará o domínio dos grandes mecanizados.

Uma democracia segmentada não é democracia. Este pequeno grupo que hipoteticamente representa o setor não pode viver no mundo das idéias e colocar goela abaixo imposições que não fazem sentido para a realidade dos pequenos produtores de vinhos brasileiros. Em 2005, quando também alguns solicitavam a adoção do selo para os vinhos finos, a Uvibra que hoje luta pela aprovação da medida, emitiu o seguinte parecer, constante na CP. CIRC. 10/05, de 11 de julho de 2005: “Sabe-se, por experiência de quem utiliza ou já utilizou o selo, mesmo em outros produtos, que o mesmo não evita a fraude e nem a sonegação. Também, a Argentina, que utilizava selos nos seus vinhos, mas há 7 anos atrás deixou de fazê-lo, por verificar que essa obrigação era mais um ônus das empresas vinícolas, acarretando-lhes custos sem proporcionar o retorno esperado. Outrossim, esse pedido ao Governo, uma vez aceito, conduziria a uma quase impossibilidade de sua supressão no futuro, o que acontece, por exemplo, com os produtores de cachaça. Além disso, o sistema de compra de selos junto à Receita não é gratuito, é burocrático e bastante complicado.” Um dos argumentos utilizados hoje para que o selo seja adotado é que a medida iría inviabilizar a importação de vinhos argentinos e chilenos baratos pelos supermercados, uma vez que a selagem deveria ser feita na origem. Ocorre que JÁ EXISTEM NO CHILE E ARGENTINA EMPRESAS (AS MESMAS QUE CONSOLIDAM CARGAS, COMO DHL, HILLEBRAND, ETC) QUE PRESTAM O SERVIÇO DE COLOCAR OS SELOS ANTES DO EMBARQUE. Ou seja, a selagem vai dificultar a importação de vinhos APENAS dos pequenos produtores europeus de vinhos de alta qualidade, alto preço e pequena produção. (Aqueles que menos incomodam o produtor local).

Pela primeira vez na história, caso o selo seja acatado pela Receita Federal, saberemos quem serão os responsáveis por liquidar com o que resta do mercado de vinhos brasileiros. O tiro sairá pela culatra. Alguém enxerga isso? Vivemos num país onde o consumo do vinho não ultrapassa os 2 litros per capita há décadas (dos quais 80% de produtos nacionais). A solução é tornar nosso vinho brasileiro mais atraente, acessível e simpático ao consumidor, reduzindo seus impostos e promovendo-o de forma inteligente. Em vez disso, estamos sobrevivendo de leilões e procurando maneiras de resolver o problema das sangrias.

Por isso, convoco a todos os produtores, pequenos ou não, que não concordam com essa medida descabida, a unirem-se pela primeira vez na vida e fazer história. Faremos um grande abaixo-assinado endereçado ao Ministro da Fazenda e à Secretaria da Receita Federal manifestando posição contrária à adoção do selo e pedir uma maior discussão, com a participação dos pequenos, antes que essa medida arbitrária seja tomada de maneira irreversível. Assim poderemos provar que a decisão da Câmara Setorial não é representativa, pois nós produtores abaixo-assinados somos contrários à selagem, além das seis Associações que se abstiveram e das duas que votaram contra durante a votação na Câmara Setorial.

TODOS os que têm o vinho como paixão ou ganha-pão têm o direito de entender melhor esse processo e se manifestar a respeito de tão importante assunto. Por fim, se os ideais de liberdade ainda ecoam em nossas almas, não aceitaremos essas resoluções. Afinal, está no nosso sangue farroupilha “não se entregar, assim no más.”

 

Luís Henrique Zanini, enólogo e sócio da vinícola Vallontano, no Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves (RS).

 

Quer se manter atualizado e saber mais sobre o que anda acontecendo, digite “selo fiscal” no espaço á direita no topo da página e clique em search. Lembro que este espaço estará sempre aberto a ouvir o outro lado, porém mesmo quando consultado, até agora nada obtive de explicações ou declarações formais que pudesse publicar. Mais uma vez, nada contra a industria nacional do vinho, muito pelo contrário, meu posicionamento é essencialmente pró-consumidor.

Salute

 

Ps. O texto marcado na cor vinho, são inclusões minhas.

Mais um Pouco Desse ” Maledetto” Selo Fiscal no Vinho

             Interessante saber alguns dados mais sobre este assunto que nos afetará diretamente. Contrariamente ao que a Câmara Setorial da Viticultura, Vinhos e Derivados tenta divulgar, não ocorreu uma votação maciça a favor da resolução (veja o que aprovaram aqui), muito pelo contrário. A noticia divulgada aos quatro cantos dizia que havia treze votos a favor e dois contrários, não por acaso dos que representavam os importadores. A real votação, aparentemente, se deu desta forma:

  9 votos favoráveis ao selo COM condições.

  6 votos favoráveis ao selo SEM condições.

  6 abstenções.

  2 contra. ( ABBA e ABRABE)

Por outro lado, de acordo com Ciro Lilla (Mistral) ao blog do Didu, “ na votação da Câmara, a maioria dos que votaram a favor da selagem não tinha lido a Instrução Normativa 504, de 2005, que regula a selagem em seus mais de 70 artigos”. Parece piada, mas não é! Primeiramente que nos dias de hoje a burrocracia de plantão ainda consiga estabelecer uma instrução normativa com 70 artigos e, do outro lado, gente que vota em algo sem conhecer os detalhes que, obviamente, terão impacto direto sob suas próprias operações.

         Já me falaram, em off, que parece que estou defendendo os importadores e nada poderia estar mais errado. Nem importadores nem os produtores nacionais, minha bandeira é o do consumidor, eu e você! O lema deste blog sempre foi Melhores Vinhos por Melhores Preços e esta aberração que estão inventando é absolutamente contrária a este principio. Aliás, tomei posição sobre o assunto já faz um tempinho e acho que tudo isto nada mais é do que um ato protecionista da ineficiência disfarçado de defesa da legalidade contra o contrabando e falsificação. Mais um ato típico da cultura tupiniquim que prefere tapar o sol da peneira, muito mais fácil, do que realmente trabalhar e suar por soluções estruturadas e definitivas visando algo duradouro com projetos de médio e longo prazo factíveis de serem implantados.

Cadê a grande imprensa e seus escolados jornalistas especializados?! Não basta relatar noticia enviada pelos assessores de imprensa, (canso de ver textos meramente copiados e colados sem sequer uma mudança de virgula) há que se sair de cima do muro, tomar posição e emitir opinião em alguns momentos, este é um deles, antes que o estrago seja feito e nós tenhamos que pagar a conta de mais este descalabro. Quer se manter atualizado e saber mais sobre o que anda acontecendo, digite “selo fiscal” no espaço á direita no topo da página e clique em search para ver outros posts sobre o assunto e dê uma passada no blog do Didu (link aqui do lado) que tem conseguido obter mais informações de fontes sérias e idôneas assim como a manifestação de alguns conceituados profissionais do setor.

Para finalizar, uma frase de Tomas Jefferson: “Sobretaxar o vinho como uma taxa sobre o luxo é, ao contrário, uma taxa sobre a saúde de nossos cidadãos.”

Selo Fiscal nos Vinhos, Mais Sobre o “Maledetto”!

         Sigo na minha “pelea” particular, que iniciei em 13 de Janeiro com o post “Um Passo Atrás?” e outros que vieram depois, contra esse descalabro que querem nos impingir. Andei conversando com alguns importadores e realmente essa medida, caso realmente venha a ser aplicada será um retrocesso e uma imoralidade. No mínimo será a criação de entraves tarifários disfarçados de ação contra o contrabando e passível, a meu ver, de retaliações e contestações jurídicas internacionais. Considerando-se, todavia, o país em que vivemos, podemos esperar de tudo.

O Didu mencionou em seu blog que tem cara oferecendo Cartuxa a R$12 no mercado o que é uma afronta. Concordo, e mais do que uma afronta ilegal contra o consumidor, é também uma afronta á nossa inteligência! Primeiro, a esse preço não pode sequer ser contrabando e sim falsificação; segundo, o cara que cai nessa só pode ser trouxa (ou é um daqueles que adora levantar vantagem em tudo o que, normalmente, costuma dar na mesma) e terceiro, se tem gente que faz isto desta forma, será que esse “selinho” será impecillho para seguir às margens da lei? Bem, para termos a medida justa do impacto de tamanha aberração sob o mercado, caso venham a realmente aplicar essa resolução da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Viticultura, Vinhos e Derivados, veja a elucidativa resposta de um importador que, creio, exemplifica bem os reais efeitos de uma aberração dessas:

“Não vejo como os produtores colocarem isso na origem, a não ser para vinhos que tenham muito volume, o que não é o caso de 99% dos rótulos vendidos no Brasil. Não conversei com nenhum ainda sobre o assunto, mas para alguns deles até colocar o contra-rótulo já é difícil (estou conversando com um pequeno produtor do Piemonte, que terá bastante dificuldade em contra-rotular, imagine se eu falar para ele que precisaremos de um selo, o negócio simplesmente não vai sair!). Isso considerando que a contra-rotulagem é uma operação normal, pois na grande maioria dos casos, eles têm máquinas que estão adaptadas, enquanto que a colocação de um selo na parte superior é algo completamente distinto das tarefas às quais eles estão habituados e, certamente, a operação terá que ser manual na maioria dos casos. Aqui estamos falando de custo hora/homem em euro e dólar…

 Imagine agora uma segunda opção, que seria a colocação no porto, mas aí teríamos que abrir todas as caixas e etiquetar garrafa a garrafa. À parte do custo e complexidade da operação em si (não parei para calcular quantos homens/tempo levaríamos para abrir as 1.200 caixas, etiquetar as 15.000 garrafas, e fechar 1.200 caixas de novo, tudo sem destruir a embalagem original, afinal nós importadores somos 100% responsáveis perante a lei pelos produtos que trazemos), deve-se considerar ainda o custo de armazenagem (hoje ao redor de USD 30/dia) e o custo financeiro dessa mercadoria parada.”

Deu para entender? Alguém duvida que se isso sair vai criar um tremendo impacto negativo e limitante no consumo, nos preços e na qualidade? Pois bem, cabe-nos alertar, mostrar, tomar posição e dizer não a esse verdadeiro descalabro. Vai limitar os importados e encarecer todos os produtos, inclusive os nacionais! Apóio o produto e os produtores nacionais, mas não este tipo de ação que, a meu ver, não tem nem pés nem cabeça e é um verdadeiro tiro que sairá pela culatra! Não é criando barreiras que solucionaremos os problemas da vitivinícultura brasileira, o caminho é outro totalmente diferente desse tomado. Passa por uma maior profissionalização do setor, redução efetiva de impostos na cadeia produtiva e o reconhecimento da vitinícultura como fonte alimentar. Espero que os órgãos competentes vetem essa iniciativa apesar de achar difícil, pois já estamos em plena campanha presidencial e os interesses por trás de tudo isso são enormes! Aliás, podiam usar o momento para fazer algo realmente útil e definitivo, não este tradicional e paliativo ato de insistir em tapar o sol com a peneira. Quem não se manifestar agora e acordar para o que se está tentando fazer, não poderá reclamar depois do leite derramado.

Salute

 

Ps. Se quiser saber mais sobre o assunto, digite “selo fiscal” ou “Maledetto”no espaço acima,à direita no topo da página, e clique em pesquisar.

Fazendo Contas ao Vinho

Na empolgação da época de promoções, bota-foras e coisas mais do estilo deixamos um pouco de lado um dos maiores dilemas de nossa vinosfera, o preço. O Luiz Horta, Didu e outros têm dado umas estocadas nesse tema, com muita precisão por sinal, mas gostaria de dar a minha contribuição a esse assunto que me é bastante próximo e algo bem sensível já que mexe numa das partes de nosso corpo que mais dói, o bolso. Desde o inicio deste blog deixo claro o meu comprometimento com o tema preço e sua importância na análise de qualquer vinho. Primeiramente porque se é caro tem a obrigação de ser bom, por outro lado, o fato de que ser mais em conta não é fator desabonador (qualidade está no conteúdo da garrafa e não no preço) e, final mas principalmente, porque preço é sim um importante fator de decisão para a grande maioria da população apreciadora de vinhos, a não ser que só se tome vinhos recebidos gratuitamente ou pagos com cartão corporativo.

Reclamam que o consumo não cresce, o que não é verdadeiro. O que não cresce como se gostaria é o consumo per capita que vem se mantendo estável entre 1,8 a 2 litros per capita ano. Se, todavia, o consumo per capita se mantém estável e a população cresceu bastante, obviamente que o consumo vem crescendo e os números oficiais demonstram isso. Agora, porquê não cresce mais? Uma das razões principais é que manter o consumo elitizado, verdadeiro absurdo estratégico, mantém o consumo estanque já que, está mais do que provado e comprovado, conforme o preço sobe o consumo cai. Por si só, os grandes néctares não são, exceção feita a algumas pouquissímas vinicolas no mundo, o que mantêm as empresas. Estes exclusivos rótulos trazem-lhe a fama que possibilitará realmente ganhar dinheiro com as gamas de entrada e médias, que são a verdadeira fonte de lucro das empresa e estas linhas, obrigatoriamente, têm que ter preços que seu publico consumidor possa pagar. No Brasil ganhamos menos, temos mais despesas/custos (pagamos tudo em dobro) e ainda temos os preços de vinho mais aviltados do mundo. Não acredita? Façamos a conta.

Um vinho que você encontra nas lojas da Europa por 9 euros (aproximadamente 27 Reais), deve ter um preço de produtor abaixo dos 6 euros, mas consideremos este valor para efeito de cálculo. As despesas de importação e fretes totalizam, em média dependendo do mix de produtos, algo próximo a 100% o que nos levaria a um custo posto armazém do importador por volta de 12 euros. Impostos adicionais gerados pelo sistema de distribuição mais uns 20% levando-nos a 14,40 euros. Agora temos que adicionar as margens do importador para cobrir seus custos empresariais, custo Brasil e lucro, assim como as dos lojistas o que nos levará a algo entre 23 a 26 euros (cerca deR$70,00 a 80,00), ou seja, cerca de 2,5 a 3 vezes o preço de prateleira do produto na origem, que é o que, enfim, acho aceitável dentro do contexto, já que, obviamente, queria que esse spread fosse bem menor. Nos rótulos de preço mais alto, esses porcentuais caem e o preço final pode chegar a ficar entre 2 e 2,5 vezes. Tudo aquilo muito acima, ou muito abaixo, disso é de se estranhar e os casos de 5 ou 6 vezes o preço são o que mais nos revoltam como consumidores. Quando vindos dos paises vizinhos, especialmente Argentina e Uruguai, esses custos são menores, porém não tenho esses detalhes no momento.

A grande mudança comportamental do consumidr brasileiro nos ultimos 10 anos, é que a Internet, e todas as suas ferramentas, nos propiciaram comparar preços cada vez mais rápida e facilmente no mundo inteiro e com uma economia estável ganhamos parâmetros. Desta forma, o consumo se tornou mais conciente, pois agora ficou mais claro saber se o que estamos pagando é justo ou se estamos sendo esfolados. Agora entraremos num período de dois a três meses de puro “desbalance” de preços. Os importadores já estão saindo com suas novas tabelas contemplando os aumentos derivados da taxa cambial e do aumento do IPI, o que deve significar algo entre 20 a 30% de aumento no preço final a nós consumidores. Alguns produtores nacionais, já querendo pegar essa onda, falam de aumentos também próximo disso e tem mais.

Pegando o gancho da mensagem do Luis Henrique que publiquei aqui, o governo em conjunto com produtores nacionais, pelo menos com a anuência deles, trabalha numa invenção, ou seria aberração, chamada “selo fiscal” que deverá ser comprado e afixado nos vinhos. A idéia é que cada selo custe, pelo que escutei, algo ao redor de 3 reais mais todo o custo logístico e de mão de obra. Como é base de custo, todas as outras margens incidem em cascata sobre ele gerando um aumento final que estimo deva ficar por volta dos 5 reais por garrafa, talvez mais. Obvio que para os vinhos de elite que custam 200, 300 ou 500 Reais, este valor nem faz cócegas devendo, inclusive, provavelmente ser absorvido pela cadeia de distribuição. O problema é, por exemplo, nos Alfredo Rocca e las Moras, básicos nossos do  dia-a-dia, que terão seus preços acrescidos em cerca de 31% (R$5 sobre os 16 cobrados hoje nas gôndolas) ou dos famosos Reservados chilenos ou um Quinta de Cabriz Dão Colheita Selecionada (20% de aumento) ou, ainda, de um Travers de Marceaux ou Bom Juiz (mais 10%). Isso tudo em cima de todos os outros aumentos já citados. O pior é que atingem exatamente aqueles que começam a se familiarizar com vinhos finos, porque isto afeta principalmente os rótulos de menor preço a porta de entrada para que novos consumidores apareçam e se desenvolvam galgando os diversos degraus de conhecimento e de consumo. Com o devido respeito, esse selo fiscal é de uma tremenda ignorância, coisa de gente desassociada com a realidade! Depois ainda contam piada de Português …… bem, deixa para lá!

Algumas lojas, importadores e produtores nacionais estarão com estoques a preços antigos, outros já de estoque novos, outros remarcando por conta dos custos de reposição, outros não e por aí vai. Com toda essa verdadeira zorra, perderemos momentaneamente o parâmetro recém adquirido, mas logo, logo o mercado se estabilizará e voltaremos a poders avaliar melhor em que pé o mercado ficou e o estrago, ou não, provocado. O provável resultado final de tudo isto, caso falte sensibilidade e bom senso aos importadores, produtores e governo, é que vinho bom abaixo de R$30,00 (Euros 10 ou USD 13) vai ficar cada vez mais escasso, entrando na lista dos ameaçados de extinção, e aquela balela de democratizar o consumo vai para o brejo de vez!

A persistir essa ameaça, a Ibravin bem que pode colocar a viola no saco e esquecer seus planos mercadólogicos recém elaborados, pouparão uma grana lascada. Não precisa ser muito inteligente para entender que, com todo estes aumentos, o consumo cairá e a evolução cessa gerando problemas no médio e longo prazo. O que fica claro é que, mais que nunca, o garimpo será essencial para conseguirmos seguir tomando bons vinhos por bons preços, algo que vai se tornando cada vez mais difícil. Encontrar bons rótulos, parceiros sérios e compartilhar isto com os amigos leitores será, mais que nunca, uma árdua tarefa tanto deste blog como de todos aqueles que de alguma forma estejam envolvidos no meio, especialmente dos colegas blogueiros do vinho e da imprensa especializada.

Sorry, quando me entusiasmo extrapolo e alonguei o assunto um pouco demais tendo o texto virado um manifesto. Para quem teve a paciência (rsrs) de ler até ao fim, kanimambo. Salute e esperança de dias melhores.

Um Passo Atrás?

È um passo atrás na evolução comercial, no desenvolvimento da qualidade, na abertura de mercados, no desenvolvimento do mercado do vinho Brasileiro. É uma visão retrograda, ultrapassada, velha e típica das sociedades ineficientes e políticas nacionalistas míopes, que protegem os medíocres e penalizam os consumidores. O porquê deste desabafo, porque mais uma vez estão trabalhando contra nós consumidores, na calada da noite, no sentido de, em nome da falácia de proteção da industria nacional e de empregos no campo, tratar de encher um pouco mais os bolsos do estado às nossas custas. Como se já não pagássemos um montão! Mas vamos aos fatos.

Desde uma passeata que ocorreu em Porto Alegre há cerca de seis meses, na pseudo defesa da uva e dos vinhos, mas que na verdade se tratava mesmo de proteger interesses dos produtores, que venho aguardando o momento certo para me manifestar e creio que chegou a hora. Todos que me lêem, sabem de minha algeriza a preços exorbitantes, margens absurdas praticadas por algumas importadoras, alguns lojistas e alguns produtores nacionais. Digo alguns, porque já há muita gente que acordou para a vida e não quero generalizar, porém ainda há poucos meses deixei clara esta minha posição nas criticas construtivas feitas aos produtores nacionais e suas ineficiências que, obviamente, têm como únicos bodes expiatórios os impostos e as importações. Não que estes não tenham lá sua parcela de culpa, especialmente quanto aos impostos, mas não são as unicas razões porquê os estoques estão altos e as vendas não decolam.

Não nego a existência de dificuldades, só sugiro que o tema seja tratado em seu âmago, desprovido de corporativismo ou ações paliativas, tratando o cerne da questão de forma objetiva e concisa sem jamais deixar de levar em conta o lado de quem, invariavelmente, paga a conta, o consumidor. Que se corrijam distorções, porém esconder-se atrás de barreiras é buscar protecionismo para encobrir as eventuais ineficiências de um setor apresentando a conta aos consumidores, não muito obrigado! Acredito que o caminho passa por ações que busquem uma redução de impostos adequando-os aos níveis médios internacionais, a mudança do status-quo do vinho tornando-o passível de ser classificado como alimento e sendo beneficiado por taxação diferenciada, projetos de modernização e profissionalização dos produtores na busca de maior eficiência, redução de custos, aumento de produtividade, campanhas conjuntas e institucionais visando difundir o consumo consciente do vinho, melhoria da cadeia distribuidora e estratégias comerciais que viabilizem a chegada de melhores vinhos a melhores preços ao mercado consumidor. Do pouco que sabemos, estes estudos sendo elaborados pela Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Viticultura, Vinhos e Derivados, são um remendo protecionista inibindo importações de forma genérica, algo que não agrega nada à industria nacional, engorda os cofres já gordos do governo federal e prejudica o consumidor que terá de pagar mais caro por produto de qualidade inferior. E olha que os vinhos, e o suco de uva, a nível geral, já estão com os preços pela hora da morte tornando o garimpo cada vez mais dificil!

Atitudes protecionistas, como estas, não são boas para ninguém e provocam, tradicionalmente, efeitos colaterais historicamente comprovados como; estagnação técnica, aumento de preços, mediocrização do produto, redução de consumo, etc. num rol de efeitos todos eles muito mais prejudiciais a longo prazo do que qualquer eventual potencial ganho imediato até porque, da mesma forma que existe um efeito no campo, também o há em toda a cadeia comercial que emprega bem mais gente. É a livre competição que faz com que haja evolução e o próprio desenvolvimento qualitativo já encontrado em boa parte dos produtores nacionais ao longo dos últimos 10 anos é prova irrefutável disso. Cana para os contrabandistas e seus canais de venda, mas deixem as importações como estão já que é ela a grande mola propulsora para o crescimento do consumo e melhorias na produção nacional. 

Abaixo, cópia da carta  que copiei do blog do Didu, alertado que fui por post do Luiz Horta, onde li a matéria que me motivou a este desabafo. Parece-me que o José Augusto é um dos sócios da Vitisvinifera, importadora do Rio de Janeiro, e as inclusões em azul são comentários de cunho pessoal meu.

 

Prezados amigos do vinho.

 

Os tambores de guerra soam também por aqui. Em sua recente reunião do dia 12 de dezembro, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Viticultura, Vinhos e Derivados revelou uma estratégia comum de produtores de vinho e orgãos governamentais que coloca em sério risco a oferta e os preços de vinhos importados no Brasil. Vejam a seguir um resumo das propostas apresentadas:

 

A) Impostos

1. Desejam estabelecer uma taxa de aproximadamente R$ 5,00 por garrafa de vinho importado para substituir a cobrança do Imposto de Importação. Durante a discussão do tema, circulou a informação de que “alguns ministros não gostam ou não aceitam a idéia” e preferem manter a cobrança de um percentual, indicando que o mesmo deveria ser aumentado dos atuais 27% para 55% (isso mesmo, mais de 100% de aumento no Imposto de Importação). (para benefício de quem? Nosso é que não é!)

2.  Que não seja aprovada a proposta do Ministerio da Agricultura de abolir a retirada de garrafas para amostra, de acordo com um novo procedimento que viria a ser implantado visando a simplificação dos procedimentos de análise do vinho. (para quê facilitar se podemos dificultar?)

 

B) Burocracia, além de outras propostas, querem que:

 

1.os rótulos de vinhos importados contenham, em português, a classificação do vinho (por exemplo “vinho tinto seco”). Informação essa que já é obrigatória no contra-rótulo. Isso seria um desastre pois os pequenos produtores de vinhos extraordinários jamais poderiam criar um rótulo diferente para vendas de pequenas quantidades.  (E viva a burocracia. Qual o fundamento para repetir uma informação já existente?!)

2. as garrafas ganhem um selo fiscal. Outra providência exorbitante uma vez que os impostos são cobrados enquanto as mercadorias encontram-se sob a guarda da Receita Federal. Isso obrigaria a que cada caixa fosse aberta no porto e os selos fossem aplicados individualmente. Podem imaginar o custo dessa operação?? Conhecendo a agilidade dos portos brasileiros, imaginam o tempo que isso ia exigir? (sem comentários, pois corro o risco de faltar com respeito a alguém!)

 

            Como podem ver, nenhuma das propostas favorece o consumidor. Todas implicam em aumento de custos, seja por via direta de impostos ou indireta de custos operacionais.

 Creio de devemos levantar a voz contra essas mudanças. Com a palavra, os consumidores.

 Abraços

José Augusto Saraiva

 

Deixo este espaço aberto apara que essa Câmara Setorial nos informe das ações positivas para transformar nossa vitivinícultura numa fonte de renda turistica, na transformação da classificação do vinho como alimento, na redução de impostos tanto nos insumos como nos custos financeiros, nos eventuais projetos de melhorias técnica e de manejo que propiciem maior produtividade, dos controles sobre produção excessiva, etc. que resultem em melhorias efetivas e de longo prazo para o setor, levando em conta os interesses também dos consumidores. Disponibilizem-nos um site em que possamos acompanhar o que efetivamente está sendo tratado nesse estudo e possibilitem nossa interatividade no processo, de forma aberta e democrática. Toda a moeda tem duas faces e toda o dilema tem, pelo menos, duas versões, então somos todos ouvidos!