Já falei aqui desse incrível vinho da Achaval Ferrer, na minha opinião a melhor relação custo x beneficio por eles elaborada, e por mais de uma vez pois é daqueles vinhos que para mim estão sempre na minha lista de vinhos argentinos a ter na adega. Agora, não é todo dia que aparece a oportunidade de num mesmo dia provar quatro dessas belezuras, quatro safras muito diferentes entre si, uma verdadeira esbórnia hedonista que somente foi possível pela amizade dos confrades e pela generosidade tão peculiar aos enófilos.
Como sempre digo, apesar de Quimera (um ser mitológico) querer dizer “o sonho inalcançável”, nestas garrafas o sonho foi amplamente realizado mostrando que a busca, a dedicação e a competência podem sim realizar sonhos. Todos estupendos, mas cada um apresentando sua própria personalidade, até porque existem algumas pequenas variações de castas na composição ano a ano e, obviamente, as condições climáticas de cada safra.
2006 – Divino néctar já mostrando notas terciárias, mas de cor ainda viva, boca incrívelmente apetitosa, rica e complexa, me esbaldei! Malbec, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot
2007 – Fruta bem mais presente, vibrante, grande equilíbrio, fresco,longo com a marca da Malbec algo mais presente, excelente vinho mostrando muita classe! Mesmo corte do 2006
2008 – Muito bom, mas talvez o mais errático deles. Já tomei outros que estavam melhores. Este mostrou que ainda necessitará de um par de anos em garrafa para terminar de se integrar encontrando seu melhor equilíbrio. Às uvas já usadas nas safras anteriores, foi acrescentada uma pitada (3%) de Petit Verdot.
2011 – Grande, um 2006 in the making! Um pouco mais de Petit Verdot no corte e faz uma tremenda diferença. Dei uma passada no magic decanter e uau, que complexidade, ótima paleta olfativa que convida à boca, novo porém mostrando uma pujança e elegância ímpares. Para tomar já e se divertir, mas quem tiver paciência vai se esbaldar daqui a uns três a quatro aninhos! Basicamente o mesmo corte que o 2008, porém creio que há um pouco mais de Petit Verdot por aqui.
A busca da perfeição, por isso uma Quimera, é um deleite para nós enófilos, um vinho que creio mostra bem a evolução do vinho argentino no quesito blends. Muita coisa boa na terra dos hermanos e este é certamente um dos melhores que eu gostaria de ter sempre em minha adega, um baita vinho e um porto seguro para grandes prazeres enófilos! Que bom ter amigos assim, um baita privilégio, saúde, kanimambo e seguimos nos encontrando por aqui. Uma ótima semana, com poucas aporrinhações e belos vinhos na taça.
Não sou de falar de vinhos que não estejam disponíveis no Brasil, mas devido à proximidade da “fonte”, vou excepcionalmente abrir uma exceção para falar deste vinho diferenciado que me encanta a cada garrafa que abro. Lamentavelmente abri minha última garrafa hoje, porém fica aqui meu pedido a todos que forem a Buenos Aires ou Mendoza, podem trazer algumas que as receberei de braços abertos! rs Não tem em tudo o que é lugar, até porque a produção anda na casa das 1000 garrafas, mas na Vinoteca JÁ de meu amigo Joaquin Alberdi tem e também na Ozono Drinks, uma loja virtual. Acho até que talvez já possa ter escrito algo sobre ele antes, mas “so what”! Precisei compartilhar com os amigos minhas emoções hoje, eta vinho vibrante, pra lá de porreta!!! rs
A uva Criolla é “prima irmã” da País chilena também conhecida como criolla chica por lá e a uva do vinho até a chegada das uvas “europeias” em 1852. É a uva trazida pelos colonizadores que se propagou por toda a costa leste latino americana onde também é conhecida por Mision (Mexico). Cá entre nós, existe uma moda com esta uva no Chile mas não consegui provar nenhum vinho deles que chegue aos pés deste, puro deleite hedonistico! Este projeto tem como inspiração a escalada que Francisco Bugallo fazia à face sul do Cerro Mercenario (6700m) no valle de Calingasta na província de San Juan. São 10 hectares apenas dos quais 80% con uvas Criolla de vinedo com mais de 80 anos de idade. Em sociedade com Sebastian Zuccardi (não sei se ainda de pé?) nasce este vinho fermentado em ovos de cimento com uso de leveduras naturais que desce gostoso, alegrando e dando prazer à vida.
Quem me apresentou a este vinho foi um outro amigo mendoncino, o Chef Pablo del Rio, que em seu restaurante harmonizou este vinho com um dos pratos de seu ótimo e surpreendente menu degustação no restaurante Siete Cocinas, adoro as surpresas que ele traz à mesa e à taça! Simplicidade é o segredo do vinho, um “Q” de Pinot com um jeito mais agreste, fruta fresca, toque de especiarias, leve nuance vegetal, gostoso frescor e um um final que persiste num prazer infindável. Brilhante, cor viva e convidativa, para tomar refrescado, 15 a 16 graus, e acompanhar a presença de amigos independentemente de comidas ou qualquer outra coisa. Hoje foi a dois, depois acompanhou uma deliciosa costela suína Lemmon & Pepper (Srs. da Carne) no forno e finalizei solo, um vinho para diversas ocasiões onde o prazer hedonístico seja o protagonista. Pena que foi minha última garrafa e preciso pedir mais, em terra dos hermanos custa entre 220 a 240 pesos e vale cada centavo!
Na próxima visita por aquelas bandas, vai por mim, pega algumas garrafas! Não é vinho para os amantes dos vinhos potentes, mas para quem gosta de vinhos sutis, que trazem experiências novas, sedutores e alegres, este eu garanto. Bom, Gostoso e Barato, tudo aquilo que eu gosto e quero mais!!!
Salute, kanimambo e seguimos nos encontrando por aí nas estradas de Baco!
De acordo com o site do produtor, Quinta do Pinto , “Reza a história que o vinho aqui produzido, há dois séculos atrás, se destacava de tal forma na região que valia mais Pintos, a moeda de ouro em circulação no reinado de D. João V. Este vinho chegou a ser famoso nas cortes europeias há época. Acresce que o senhor Pinto foi, em tempos, um carismático feitor desta propriedade. Desde então que, na região, a quinta é referida como ‘o Pinto’. Feliz coincidência, Pinto é também o apelido dos actuais proprietários. A ‘Quinta do Pinto’ tornou-se, assim, o nome do nosso projecto vitivinícola e de um dos vinhos que produzimos com muito orgulho.” Pinto é também o sobrenome de meu padrasto e de muita gente boa como o amigo Bernardo. Brinco com isso, mas esses Pintos são coisa séria!
Já falei aqui sobre um Sauvignon Blanc deles, tenho um blend ainda na adega, mas hoje falo mesmo é deste incrível Touriga Nacional, um vinho inebriante elaborado em tanques de cimento com posterior passagem por barricas francesas de 2º e 3ª usos para lhe dar complexidade sem esconder seus predicados, que são muiitos! Ao sacar-lhe a rolha, só pelos aromas intensos e convidativos já percebi que estava frente a frente a frente a um belo vinho, porém ao colocá-lo na taça vi que era mais que isso, era um vinho num patamar outro de qualidade, daqueles vinhos com os quais não nos deparamos de forma tão amiúde assim. Touriga Nacional muito bem trabalhada, primando pelo equilíbrio, riqueza de sabores, bom corpo, estrutura para alguns anos a mais de guarda, mas já absolutamente delicioso e de uma finesse que impressiona. Não foi uma degustação, estava comemorando meu aniversário de casamento e o Dia das Mães, família reunida uma alegria só e o vinho parou por minutos a algazarra! rs Não fiquei tomando notas, coisa de enochato parar para fazer isso num momento daqueles, mas posso dizer que nos seduziu a todos e vou querer mais!
Harmonizou maravilhosamente bem com uma picanha finalizada no réchaud com manteiga, tudo bem light, tendo-nos deixado a todos bem mais felizes do que já estávamos. Uma verdadeira orgia hedonística esse Pinto! Mais um bom vinho português, desta feita vindo da região Lisboa que vem nos trazendo alguns ótimos exemplares tornando-se uma alternativa aos mais famosos Douro e Alentejo. A importadora é a Almeria de meu amigo Juan Rodrigues e o preço creio que anda na casa dos R$230,00 o que não é lá muito em conta, porém ao analisar a qualidade e comparar com o que há no mercado, de diversas origens, nessa faixa de preço acho que vale e bate a maioria. Para quem gosta de vinhos classudos, não deixe de colocar este em sua lista de desejos, esse eu assino embaixo.
Saúde, kanimambo pela visita e seguimos nos vendo por aqui ou algum outro local desta nossa diversa e sedutora vinosfera.
Um vinho em três momentos! O provei há uns cinco anos e não me agradou, fazendo um estilo de vinho que não faz minha cabeça, muito over, eu diria. Provei novamente, desta feita na vinícola, em 2014 e já me animei, o vinho melhorou muito com alguns anos a mais de garrafa, tanto que comprei uma (deveria ter trazido mais!) que abri há alguns dia, VINHAÇO!!
Um vinho que precisa de tempo para se integrar, mostrar toda a sua complexidade tornando-se absolutamente sedutor. Um vinho para não esquecer e, como toda a joia, não é barato, já está na casa dos R$280 a 300,00 pelo que pude saber do importador, a Magnum.
Dois terços Malbec com Cabernet Sauvignon. O que era over virou sofisticação, o que era puro músculo virou elegância e se tivesse mais duas garrafas, uma guardaria para 2018 pois acho que ainda vai evoluir mais. Um vinho cheio de camadas e aromas instigantes que me fez querer mais e mais num redemoinho de sensações que realmente me entusiasmou! Almoço de família, sinceramente não me ative a detalhes para ficar aqui descrevendo o vinho, mas mexeu comigo ao ponto de eu escrever esta curta exaltação. Não tenho 300 pratas para gastar num vinho, mas se tivesse certamente estaria em minha lista,um vinho para quem acha que vinho argentino é tudo igual. kkkk Ledo engano, saúde!!
Kanimambo pela visita e uma ótima semana para todos!
Começando a semana com uma dica lusa! Há anos que não provava este alentejano que andou passando de mão em mão por aí até cair nas de quem entende, meu amigo Juan da Almeria (não vende direto ao consumidor!), e fiquei feliz por isso pois pude voltar a ter acesso a ele. Já, já comento o vinho porém com a crise se tornando cada vez mais presente e o câmbio e governo (mais impostos) não ajudando, estamos todos tendo que apertar o cinto e está cada vez mais difícil de encontrar vinhos chamados BBB com um preços mais acessíveis, então encontrar um vinho desses abaixo das 60 pratas é sempre um motivo para sorrir.
Villa Romanu Tinto 2013 – sem passagem por madeira, é um corte das uvas Trincadeira, Aragonez e Cabernet Sauvignon que estagia em inox por cerca de seis meses e só por isso já agrada, pois vinhos nesta faixa com madeira normalmente são chipados o que distorce o vinho. Este já mencionei lá atrás, nos idos de 2007, sendo um vinho que sempre me agradou e chegou a fazer parte parte de uma seleção de vinhos portugueses até R$30 que preparei em 2007, já lá vão 8 anos!
Um vinho que mostra bem a diferença entre um vinho fácil e um vinho simples. De simples não tem nada, mostra-se muito bem em boca, mesmo sendo franco, direto, sem muita enrolação já diz a que veio sem muita lenga, te satisfazer tanto no palato quanto no bolso. Fácil porque é difícil não gostar, harmoniza com bate-papo entre amigos, alguns petiscos, um jantar com carnes grelhadas ou um penne com bacalhau e brócolis (meu caso), um vinho versátil que não complica e nem te promete mais do que pode integrar. Boa fruta, os taninos bem integrados marcantes sem rusticidade ou agressividade, bem balanceados por uma acidez no ponto, suculento, textura gostosa, boa entrada de boca, persistência média, final saboroso que pede a próxima taça. No mercado anda na faixa dos R$58 a 60,00, o que acho uma muito boa relação Custo x Qualidade x Prazer.
Também provei o branco que se mostrou no mesmo nível e com este calor será uma ótima pedida, mas desse eu falo num post que estou armando só com brancos BBB, não por sorte, a maioria Ibéricos! Por hoje é só, mas durante a semana mais algumas boas dicas e novidades. Ah, aproveitando! Amanhã se encerram as inscrições para a minha viagem aos Vinhos de Altitude de Santa Catarina e ainda temos duas vagas disponíveis, vai dar mole?! Clique no link e veja mais detalhes.
Uma ótima semana a todos, kanimambo e seguimos nos encontrando por aqui ou nas trilhas de nossa vinosfera.
Não é todo dia que temos a possibilidade e privilégio de estarmos diante de um vinho ícone. Na minha vida me lembro de alguns poucos encontros desses como com o Opus One e o Sassicaia, que nem fizeram tanto assim a minha cabeça. Não que não sejam bons, são ótimos, porém não achei que faziam jus a tanta fama. Por outro lado, outros foram inesquecíveis como, por exemplo, “meu” Andresen 1910!
Aproveito para contar um causo que ocorreu com um amigo meu daqui da loja e uma garrafa deste ícone espanhol. Esse Sr. X estava de visita a um amigo em Barcelona tendo marcado para se encontrarem num restaurante na cidade. Não querendo chegar de mãos abanando, até porque seu amigo espanhol lhe fazia os maiores mimos cada vez que vinha ao Brasil, passou antes numa loja de vinhos e comprou um Vega Sicilia Único. Ao chegar ao restaurante, desconhecendo os costumes da região, mostrou-se preocupado não sabendo se poderia abrir a garrafa e se havia taxa de rolhas, etc tendo solicitado a seu amigo que conferisse com o dono do restaurante se não haveria qualquer objeção. Seu amigo se levantou e foi em busca do proprietário voltando em seguida com ele que carregava a garrafa a garrafa nos braços como se segurasse um recém nascido. O proprietário lhe agradeceu a honra de trazer um Vega Sicilia Único para ser aberto em seu restaurante porque isso só dignificaria sua cozinha e que, não só não lhe cobraria rolha, como não lhe cobraria o prato para o acompanhar!
Pois bem, era uma garrafa dessas que abria, tremenda responsa e privilégio! Nestes casos fica difícil falar do vinho, pois certamente há gente muito mais capaz que já escreveu um monte então pouco vou acrescentar ao que, provavelmente, você já leu por aí em revistas, livros e na net. O que posso falar sim, é do que eu senti. Jovem, absolutamente jovem de taninos finos bem marcados e muito presentes ainda apesar de seus 12 aninhos nas costas, anunciando que estamos diante de um vinho de longa guarda que tem tudo para evoluir muito positivamente por mais de uma década. A evolução aqui é menos aparente com a fruta ainda muito presente tanto no nariz quanto na boca, cor rubi, muito expressivo em boca com uma riqueza de sabores impressionante para um vinho produzido, também, num ano que não foi dos melhores. Aliás, nesses anos o bom senso pede que se compre vinhos de grandes produtores, sempre mais seguro! Possui um corpo de boa textura, seus taninos são sedosos e o final de boca é surpreendentemente fresco para um vinho que passou tanto tempo em barrica, muito longo, mineral e algo especiado, que nos deixa implorando por mais um gole e outro e outro ……… fazendo com que a garrafa acabe rapidamente. Um Ribera del Duero muito fino, cativante e elegante sem perder os traços de robustez típicos de seu terroir e vendendo saúde!
Muitos acham que este vinho é elaborado somente com Tinta del País (Tempranillo) porém ele normalmente leva um corte de alguma outra uva francesa; Cabernet Sauvignon, Malbec ou Merlot, muitas vezes das três dependendo muito do ano. Esta mescla de cepas nos vinhedos da bodega, data de 1864 quando Don Eloy Lecanda Chaves trouxe uma série de mudas de suas viagens a Bordeaux e só por causa disso são castas autorizadas na DOC. Neste caso, pelo que pude pesquisar, foram 10% de Cabernet Sauvignon e passa, entre os mais diversos tipos de madeira e cascos, algo como 82 meses em barricas sendo comercializado somente 10 anos após a safra correspondente, neste caso 2009! Não é o melhor vinho espanhol que já provei, tenho que confessar, mas é certamente o mais eloquente e mais marcante pois não é todo o dia que podemos levar à boca uma lenda.
Um vinho que não precisa de um momento especial para ser aberto, pois ao sê-lo faz dele um momento Único! Ainda me falta conseguir provar um Barca Velha, é sei, realmente uma falta grave em minha formação de enófilo ainda mais sendo luso, mas não tem sobrado din-din para isso e nenhum amigo ainda me convidou! rs Uma hora ainda quero tomar esses dois vinhos de uma mesma safra num Desafio Ibérico, alguém se habilita? Busco seis companheiros, mais eu sete, rachamos a conta!!
Kanimambo e seguimos nos encontrando por aqui! Cheers, salud, salute, …..
Tinto Pesquera Reserva Especial 2003, esse é o nome da fera, um grande vinho na minha taça! Recentemente estive numa degustação do produtor promovida pela importadora (Mistral) para apresentação de boa parte da linha deste produtor. Em breve escreverei sobre a prova e comentarei os outros oito vinhos degustados, mas hoje quero compartilhar com os amigos este rótulo em especial, que me seduziu e me deixou de queixo caído!
Fiel ás sua origens, Pesquera sua cidade e Tempranillo sua uva, Alejandro Fernández nos traz essa preciosidade que é somente elaborada em safras muito especiais e a última foi exatamente essa, já com 12 anos! Deste período de tempo passou 30 meses amadurecendo em barricas de carvalho e 48 meses afinando em garrafas, praticamente SETE ANOS!!
Costumo dizer que um vinho sem adjetivos é um vinho sem alma! Pode até ser bom, mas aquele que te empolga, que mexe com tuas emoções, esse tem que ter esse algo mais e este foi farto nos “uaus” que soltei, mostrando uma personalidade muito própria, porém sem perder suas origens, baita vinho. Me lembrei de dois anúncios, um algo mais antigo e outro mais recente e que melhor exemplificam o que senti, Bom de Boca e Me deu Asas, UAU, viajei legal! rs Encantador nos aromas que, cá entre nós, não me preocupei em descobrir e sim me deletei, me deixei levar sem lenço e sem documento, sendo teletransportado para Pesquera del Duero. Para fungar por horas a fio! Na boca é uma explosão de frutos negros, meio de boca algo mentolada, complexo e sofisticado, notas tostadas, baunilha, algo terroso, mais do que beber, é para namorar!
Para quem, como eu, gosta de vinhos do velho mundo já com uma certa idade, é de lamber os beiços. Provei nessa prova alguns ótimos vinhos, mas esse, aí que saudade! Me fez lembrar, mesmo que de regiões diferentes, um Cuñe Gran Reserva 1998 que tomei há alguns poucos anos, vinhos de enorme persistência na memória, onde os grandes realmente mostram seu valor e se instalam por uma eternidade enquanto dure. Cada um tem lá seu gosto e preferências, para mim este “ser” é realmente, desculpem a redundância, para lá de especial !
Aproveitando que dentro de dias também será um dia para lá de especial, eis aí um presente para véio enófilo e apaixonado por vinhos. Salud, kanimambo, seguimos nos encontrando por aqui e, em breve, compartilhando os Frutos do Garimpo!
Numa participação especial nos 200 destaques do ano 2009 da revista Gula em Janeiro de 2010, emplaquei cerca de 60 vinhos entre tintos, brancos, espumantes, importados e brasileiros. Destes, tomo a liberdade de destacar dez tintos que me marcaram. De lá para cá muitos outros andaram por minha taça, porém esses estão ainda bem vivos e persistentes na memória onde os bons vinhos sempre deveriam estar e não me incomodaria nada de reviver essas experiências!
Pezzi King Zinfandel – California/USA – vinho que abusou de se dar bem em diversas degustações ás cegas na época em que promovia meus Desafios de Vinho. Paleta olfativa muito intensa e convidativa onde se destacavam toques de licor de cereja, fruta em compota e amoras. Na boca segue intenso, de bom volume de boca, taninos maduros e sedosos, harmônico com um final algo adocicado com coco e chocolate perfeitamente balanceado por uma acidez correta. Belo Zinfandel, de manual!
Casa Marin Miramar Syrah – San Antonio/Chile – famoso e venerado produtor de Pinot Noir, foi este Syrah que me levou ao nirvana na contramão da maioria. De uma elegância e finesse impares, um grande vinho de muita classe num estilo “velho mundista” que não vem do calor, mas sim de uma região fria o que, historicamente, não é o berço desta cepa. São 24 meses de carvalho e mais de 10 meses de garrafa antes que esse verdadeiro néctar chegue a nossas taças. Sedutor é uma palavra deveras limitada para descrever este vinho. É cativante e verdadeiramente empolgante, um vinho exuberante, rico , complexo e pleno de sabores em perfeita harmonia. Aquela pimenta, típica dos bons Syrahs, colocada de forma sutil, suculento, palato fresco, frutado, corpo médio, boa textura, comedidos 13.5% de teor alcoólico, boa acidez e taninos macios em perfeito equilíbrio, um final de boca vibrante, algo mineral e longo, muito longo. Um vinho literalmente soberbo e inesquecível.
Alain Brumont Tannat/Merlot – Gascogne/França – Produtor de vinhos de muita qualidades em Madiran, produz este e um também muito bom branco mostrando que não só de vinhos caros vive a França. Vinho vibrante, nariz sedutor, fruta compotada que convida à boca onde mostra um volume muito agradável, boa textura, corpo médio, bem equilibrado, taninos finos com um final muito saboroso e longo mostrando ótimo frescor.
La Celia Cabernet Franc – Mendoza/Argentina – o primeiro Cabernet Franc a gente nunca esquece, até porque naquela época ainda não era moda e pouca gente conhecia. Tomei refrescado a 16º e o teor alcoólico de 14% estava plenamente harmonioso, não se sentindo em momento algum, uma paleta olfativa atraente algo vegetal com nuances florais, na boca mostra boa estrutura, redondo, taninos sedosos, madeira e fruta em equilíbrio, boa estrutura e um final de média persistência com notas de café moka. De lá para cá muitos outros Cabernet Franc de grande qualidade frequentaram minha taça, mas este foi um marco!
Luis Pato Vinha Barrosa – Bairrada/Portugal – Doze meses em barris de carvalho seguido de mais seis em pipas de 650 litros , o vinho se apresenta macio e aveludado na boca mostrando uma personalidade muito própria e uma tremenda elegância pouco esperada num 100% baga tão novo (4 anos na época). Boa paleta olfativa com aromas florais e algo de eucalipto, na boca apresenta fruta de boa concentração, mas sem os exageros novo mundistas, fresco, algo de salumeria, expressivo mostrando grande harmonia com um final de boca longo e saboroso. Não é à toa que o Luis Pato ganhou o apelido de Domador da Baga e Mestre da Bairrada, tudo isso está escancarado neste que, a meu ver, segue sendo um de seus melhores vinhos!
Odfjell Orzada Carignan – Maipo/Chile – para sair da mesmice (Carmenére / Cabernet) da região, um dos meus Chilenos de gama média preferidos, elaborado com uvas extraídas de videiras de Carignan com mais de sessenta anos e uma parcela de Cabernet Sauvignon. É um vinho clássico de muita finesse, taninos finos e sedosos, bom corpo, cheio, rico em aromas de boa fruta vermelha madura com nuances de chocolate e baunilha num final de boca extremamente agradável e saboroso. É um vinho guloso e diferenciado, saindo fora das tradicionais cepas chilenas, que me encantou na época e segue me encantando. Hoje existem outros diversos ótimos rótulos, a maioria mais caros, porém este segue sendo um de meus preferidos, até em função de preço.
Angheben Teroldego – Encruzilhada do Sul/RS/Brasil – Vinho diferenciado produzido com uma cepa pouco conhecida no Brasil. Violáceo na cor, nariz de frutos negros em compota, algum chocolate e baunilha fruto de uma madeira bem aplicada que só ressalta e dá complexidade a um conjunto olfativo sem muita intensidade, porém muito elegante. Na boca é carnudo, ótimo volume de boca, equilibrado, taninos macios, rico com um final de boca muito saboroso invocando especiarias e algum tostado. Vinho gostoso, untuoso, para quem busca sabores e sensações diferenciadas.
Santo Emilio “Leopoldo” – São Joaquim/Santa Catarina/Brasil – Um assemblage de Cabernet Sauvignon com Merlot muito bem feito, saboroso, bom volume de boca, ótima estrutura, taninos aveludados que abrem bem em taça mostrando bastante equilíbrio com uma acidez muito boa e balanceada que chama comida. Um vinho de muitas qualidades que deve surpreender muita gente em degustações ás cegas. Recentemente participei de uma degustação às cegas com mais 20 rótulos de diversos países e faturou! Que bom que se manteve, quiçá até melhor.
Estes dois últimos são para os abastados! rs
Castello del Terricio – Toscana/Itália – Inusitado para a região, um complexo corte de Syrah/Mouvédre e Petit Verdot, um vinho muito longo que, mais que persistir no palato, persiste na memória. Estonteante, um vinho literalmente construído em camadas, de enorme complexidade, grande estrutura, grande riqueza de sabores que inebriam o palato com ondas de prazer. Um deleite hedonístico com uma personalidade muito própria e de longa guarda. Pena que falta din-din, mas aceito presentes de viagem!
Viña Sastre Pago Santa Cruz – Ribera del Duero/Espanha – um grande produtor da região! Encorpado, harmônico extremamente saboroso, complexo, taninos aveludados, licoroso, terroso com um final em que aparecem especiarias, algo de baunilha e frutos negros com enorme persistência. Vinho de grande classe elaborado com uvas de vinhedos velhos com mais de sessenta anos que aportam grande complexidade e caráter ao vinho. Mais um vinho que abrir antes de meia dúzia de anos, no mínimo, é cometer infanticídio!
Recordar é viver e certamente não reclamaria nem um pouco poder ter a oportunidade de os ter na taça novamente. Uns mais em conta, outros mais caros, mas sempre na busca da diversidade, de sair da mesmice, de buscar novos sabores e extrapolar os limites de sua zona de conforto! Não os conhece? Bem, então serão mais alguns rótulos para você conferir e se quiser mais, bem aí não tem como não vir a Salta/Argentina comigo no feriado da Independência! Uma viagem para quem gosta de se aventurar por novas fronteiras na busca por novas experiências, vem comigo vem! Estas oportunidades são raras, tem que aproveitar.
Domingo a dois, o que não é muito comum, e o cozinheiro de Domingo lá se meteu a mestre cuca. Como já disse por diversas vezes, me esforço mas sou limitado me falta conhecimento e o talento, no entanto algumas coisa invento e desta vez precisava bolar algo, para variar, porém fácil e dentro de minha limitada capacidade. Trouxe um Alvarinho Pouco Comum, gosto deste vinho e de seu custo, e apesar de poder harmonizar com um monte de pratos, de costelinha na brasa a feijoada, fui mesmo foi no tradicional!
Trouxe da loja um novo produto da Marithimus, peixe e frutos do mar de Santa Catarina, um bacalhau no azeite com azeitona pois já pensei na entrada e deu muito certo, simples bruschettas de bacalhau. Eis a receita para os amigos, fácil e rápido! Pão italiano, põe no forno para dar uma tostada, tira e esfrega nele (bem delicado para não ficar forte) um dente de alho. Tomate fresco descascado e cortados em pequenos pedaços, um frasquinho de 100grs de Bacalhau Marithimus. Depois da esfregadinha do alho, jogar sobre as fatias de pão, um pouco do azeite do bacalhau e volta para o forno para dar mais uma tostadinha. Retira, coloca o tomate e o bacalhau voltando para o forno para terminar. Não deu 15 minutos para fazer tudo isso e eu fiz tudo no forno elétrico.
Enquanto isso, tinha um filé de corvina me aguardando marinando por cerca de uma hora com um pouco de sal, pimenta do reino, um pouquinho de limão e um leve toque de vinho branco. Preparei um refogado de cebola (1/2), alho (1/2 dente grande), dois tomates frescos sem casca cortadinho (parte usei na bruschetta) e azeitona preta portuguesa picada, gosto da Maçarico que é mais saborosa, mas qualquer uma dá. Coloque um fio de azeite na frigideira e dê uma selada no peixe, reserve numa forma. Enquanto isso ligue o forno prepare o refogado. Refogado pronto, coloque em cima do peixe e leve ao forno por cerca de 15 minutos e tá pronto. Sirva com arroz branco, adoro minha panela japonesa que faz tudo solo!
Bruschettas de bacalhau, peixinho no forno, minha loira (rs) e uma garrafa de Alvarinho, nada mau para um Domingo preguiçoso sem computador! Ah, o Alvarinho Pouco Comum, é o nome mesmo, é um dos bons Alvarinhos disponíveis no mercado com preço mais em conta, em torno dos 70/75 reais, e vale muito a pena. O nome Pouco Comum não sei de onde veio não, mas a meu ver ele possui uma acidez mais moderada e maior corpo que a maioria, com bom volume de boca sem perder a tipicidade da casa, então pode ser daí. O produtor é a Quinta da Lixa o que já é, por si só, uma boa indicação de qualidade e eu gosto, não é um Soalheiro, mas é justo e cumpridor! rs
Tá aí gente, dá para qualquer um se divertir e até fazer bonito com quem interessa, basta boa vontade porque o resto é facim, facim! Ah, bagunçou tem que limpar né, essa é a parte mais chata da cozinha, ou não? Kanimambo e no próximo post falarei um pouco da surpreendente Decero e a incrível O. Fournier em Mendoza, um grande Domingo passado lá em Mendoza com os amigos que me acompanharam na viagem de Abril.
Em Mendoza existe gente fazendo coisas diferentes de forma diferente, só precisa ter a mente aberta e a indicação certa para descobrir essas coisas. Mais do que vinho, este projeto é um conceito de vida então permitam-me lhes apresentar, para quem ainda não conhece, o Matías Michelini e sua família. São quatro irmãos, três enólogos (Matías, Gerardo e Juan Pablo) e o Gabriel, que têm a pureza da terra como preceito maior, seja no vinhedo, na bodega, mesa e na vida como um todo. Mas vão além disso, são revolucionários na busca de suas quimeras e liberdade de criação.
Na primeira parada de nossa visita de Abril a Mendoza, tivemos o privilégio de sermos recebidos pelo Matías Michelini em suas novas instalações em Tupungato, no condomínio The Vines, onde ele mantém a sede da Michelini Bros em que produz com seus irmãos algumas preciosidades em seus tanques de cimento (ovos) e ânforas que ele próprio desenhou. Este novo projeto é todo biodinâmico, buscando a essência e pureza da natureza em volumes limitados. É um local para deixar fluir a inspiração e criatividade num processo de plena liberdade possuindo uma energia especial. Aqui ele pacientemente esperou por nossa chegada com quase uma hora e meia de atraso devido a problemas de voo, nos recebendo com o fogo aceso e uma taça de espumante na mão, incrível simpatia, homem de poucas palavras e muito carismático, cativou a todos os presentes. Por aqui tudo é pequeno; instalações, numero e tamanho de tanques, sala de barricas e produção, as exceções são a grandeza dos personagens e a qualidade de seus produtos.
A comida, tudo orgânico, estava maravilhosa, os vinhos divinos e os convivas radiantes, não poderíamos ter começado melhor e em pouco tempo as agruras da viagem tinham ficado para trás! Hoje, compartilho virtualmente com vocês alguns desses momentos e os vinhos provados aproveitando para dar uma dica, quando comprarem um vinho, tentem conhecer o enólogo por trás dele. Se estiverem frente a frente com um vinho do Matías, Gerardo ou Juan Pablo podem mergulhar de cabeça pois a experiência certamente será diferente do que estão acostumados a provar de caldos mendocinos! Ainda farei uma matéria sobre eles, mas por enquanto fiquem com seus vinhos e o vídeo abaixo com imagens de nossa visita.
A Passionate Wines é um projeto do Matías tão somente e melhor nome não poderia ter escolhido, pois é fruto de sua paixão e inquietude refletida em cada garrafa. Provamos vinhos dos diversos projetos dos irmãos, porém foi através de minha introdução à Passionate Wines que aqui viemos parar.
Espumante Zorzal Extra-Brut – devido ao atendimento a um de nossos companheiros de viagem que não estava bem, perdi esta prova, porém os comentários de quem o tomou foram altamente elogiosos. Elaborado com Semillon (cerca de 2/3) com Chardonnay. Da El Zorzal e um vinho a rever!
Montesco Água de Roca Sauvignon Blanc – pura mineralidade e sutilezas num vinho único fermentado em tanques de plástico de 1000 litros! É a natureza em sua forma mais pura em Gualtallary, uma das partes mais altas de Mendoza no Vale do Uco na base dos Andes, onde a acidez também aflora. A uva é colhida em 5 diferentes momentos durante o mês de colheita, de forma a poder-se retirar delas diversas características que comporão esta obra de arte engarrafada. Limitado a 5000 garrafas ano, é um vinho único e diferenciado até no teor alcoólico, meros 9,5%!! Vibrante, sutil e elegante, adoraria ter sempre em casa! Projeto Passionate Wines
Calcáreo Bonarda – fermentado em ânforas desenhadas pelo próprio Matías, únicas no pedaço, uvas advindas de um vinhedo orgânico de Gualtallary plantado em 2005, amadurece em barricas de 1º e 2º uso francesas passando posteriormente por um estágio de 6 meses de garrafa antes de finalmente chegar a nossas taças. A Bonarda em sua quintessência, uva de pouco valor até cerca de 15 anos atrás, mostra aqui todo o seu valor de forma apaixonante e marcante. Mineral mostrando bem seu terroir, fruta abundante, ótima estrutura tânica e textura agradável que enche a boca, alguma especiaria, concentrado longo, um belo vinho que surpreendeu a maioria dos presentes e precisa de tempo para mostrar todo seu esplendor. Projeto Michelini Bros e produção limitada a apenas 6.000 garrafas por safra.
Demente – um projeto demente de unir uvas provenientes de quatro vinhedos distintos de Cabernet Franc e Malbec, de Diferentes alturas e solos. Depois, colhidas em tempos diferentes e adicionadas ao mosto já em fermentação. Um vinho decorrente da liberdade de criação e veia revolucionária de um enólogo em constante busca do diferente, do inusitado. O vinho arrebatou os presentes, eu já conhecia, confirmando toda a exuberância que eu já relatei; uma paleta olfativa intensa, um verdadeiro bosque de frutos silvestres com nuances florais. Entrada de boca marcante, ótima textura, acidez gostosa se fazendo presente e pedindo um teco de bife de chorizo (rs), taninos finos, final longo algo mineral e muito apetitoso. Doze meses de barrica francesa e limitado a apenas 3.000 garrafas e difícil de achar até por lá!
Já quase meia-noite e nós lá! Dó do anfitrião e sua equipe que tão bem nos recebeu, mas ele ainda tinha mais asas na manga. Como costume de alguns na Argentina, terminou a degustação com um branco seco que acompanharia a sobremesa, pouco doce, e daria uma refrescada na boca após dois vinhos tão intensos. Acho interessante esse conceito que vale usar em degustações.
Via Revolucionaria Semillon Hulk – não pela força, mas pelo verde! Sim, aqui a acidez é bem acentuada, vido de um vinhedo com pouco mais de 40 anos, sem passagem por madeira e com uma produção ínfima, não passa de 500 garrafas. Com apenas 11% de teor alcoólico, colhido cedo, preservou a fruta em sua essência. Nuances florais, cítrico, fresco e muito bem balanceado, só lamento que tão tarde e no final de uma incrível refeição e grandes vinhos tintos, muita emoção à flor da pele, não tivemos tempo de apreciá-lo com o devido cuidado. Na próxima passagem por lá vou querer comprar algumas par melhor curtir o vinho.
Bem, primeiro dia finalizado e de cara mostrando toda a diversidade de uma região produtora. Sem nenhum Malbec, viriam às taças em outros dias, mas descobrindo novos sabores pelas mãos de alguém muito especial e de uma família, tanto quanto ele, sonhadora e sem medo de ousar, nos presenteando generosamente com os frutos dessa picardia, da liberdade bem manejada e com conhecimento. Verdadeiros vinhos de autor, vinhos com alma que me fazem finalizar este texto de hoje, citando Gerado Michelini no livro do Matías (Los Otros):
Los padres son la tierra, el suelo, la raiz. Los hermanos las ramas, los cargadores, la fuerza. Nuestras mujeres, grandes compañeras, la brisa fresca de la mañana. Nuestros hijos, la flor, la fruta dulce, el racimo que crece El vino es el encuentro
Por hoje chega, já fiquei com uma saudade danada deste momento! Um ótimo fim de semana e kanimambo pela visita.
Fotos minhas e do amigo e companheiro de viagem, Godinho. Para ampliar clique nelas.