Tomei e Recomendo

Encontro Mistral, Uma Visão Diferente do Evento

Sei que vou parecer pedante e metido, mas é que depois de carca de 20 anos fazendo isso tem hora que cansa, especialmente em eventos do porte do Encontro Mistral. O evento ocorre de dois em dois anos e se tornou pioneiro e referência entre os apreciadores de vinho. Neste ano foram mais de 450 vinhos de 78 produtores de todas as partes do mundo a saber França 13 produtores, Itália 12, Portugal11, Espanha 19, Argentina 7, Chile 4, Uruguai 2, Brasil 2, África do Sul 1, Estados Unidos 2, Hungria 1, Alemanha 3, e Austria1.

Gente, é uma verdadeira esbórnia vínica digna de deus Baco que cerca de 3000 visitantes tiveram o privilégio de estar presentes, 1000 por dia!! É gente pra dedéu, difícil conseguir provar os vinhos em diversos stands entupidos de gente na frente incapacitando sequer chegar perto da mesa!!! rs Ainda por cima nego estaciona na frente, complicado. Até entendo quem paga R$590 por convite quer se deliciar com os grandes vinhos presentes e ter a possibilidade de dizer para os amigos que tomou, na verdade provou, um Bric del Marchese Nizza 2018 do Coppo de 1.500 Reais, um  Schidione Rosso do Castello di Montepó de 3.700 Reais, um Mas de Daumas Gassac  Rouge de 1.100 Reais, um Chateauneuf du Pape do Chateau de Beaucastel Rouge de 1.800 Reais, um Veja Sicilia Valbuena 5ºAno de 3.700 Reais ou ainda um El Enemigo As Bravas Malbec de 1.600 Reais, Chateau Kirwan de Bordeaux de pouco mais de 1.300 Reais e um Lapostolle Clos Apalta de 2.200 Reais ou Quinta do Vale Meão de 2.200 Reais, ente muitos outros. Um sonho realizado por quem tinha esse objetivo e, pensando bem, pelo valor pago estão mais é certos. Esse, todavia, não era meu objetivo.

Sempre falei que para falar de grandes vinhos existem dezenas de bons críticos e comentaristas bem melhores que eu, porém meu foco sempre foi naquilo que chamo de vinhos terrenos, ou seja, vinhos que estejam ao alcance da maioria dos aficionados pelos caldos de Baco. Esse também foi o foco da Vino & Sapore quando a abri, trazer vinhos de qualidade, muitos sem nomes conhecidos, com preços que uma pessoa possa pagar. Não vinhos de elite, para poucos, algo que possamos pagar, os outros, esses que mencionei acima, esses são para quem tem gordura financeira para queimar ou podem, eventualmente, trazer de fora sem os impostos aviltantes no Brasil. Então, cá fui eu de novo fuçar por vinhos mais acessíveis porém de muita qualidade, porque mesmo os grandes produtores sempre têm alguma coisa mais acessível para satisfazer nossa sede por bons vinhos. Vejamos o que achei que penso que vale a pena e que entregam bem mais do que o preço cobrado hoje, alguns perigam até de ir parar nas prateleiras da Vino & Sapore! Não vou entrar em detalhes de cada vinho, este texto já está longo demais, mas seguem alguns bons rótulos a conferir que recomendo;

Da França

Famille Perrin Vinsobres le Cornuds – Rhône por volta das 300 pratas / Daumas Gassac Figaro Rouge – Longuedoc por volta das 140 pratas /

Da Itália

Castello di Montepó Bracalle – Toscana por volta das 265 pratas

De Portugal

Meandro Vale do Meão tinto – Douro por volta dos 375 Reais / Prazo de Roriz Tinto – Douro por volta dos 295 Reais / Luis Pato Maria Gomes Branco – Bairrada por volta dos R$150,00 / Luis Pato Maria Gomes Espumante Brut – Bairrada por volta dos R$190,00 / Vinha do Mouro Tinto – Alentejo por volta dos 230 Reais .

Da Espanha

Familia Martinez Bujanda 3 vinhos – Rioja. Vina Bujanda Crianza (R$215), Viña Bujanda Reserva (R$300) e o excelente e barato na comparação com outros Gran Reservas por aí com preço de R$438, um estrepolia para meus parâmetros mas vale muito a pena / Dehesa la Granja – Castilla y Leon na casa dos R$275 / Chivite Gran Feudo Crianza – Navarra na casa dos 175 Reais .

Da Argentina

El Enemigo Bonarda El Barranco – Mendoza por volta dos R$270 / Ernesto Catena Animal Malbec (R$206) e On The Road Merlot Patagonia (R$290). Aqui uma ressalva e um destaque especial, até porque tenho um certo pé atrás quanto a vinhos naturais e especialmente aos Pet Nat da vida, já provei alguns e não tinha achado graça a nenhum. Econtrei o Ramatis Russo por lá no stand da Stella Crinita, e ele manja desse segmento, então me aproximei para provar alguns dos vinhos sendo apresentados. Não fosse ele, provavelmente teria passado batido, ainda bem que ele estava por lá porque dois vinhos fizeram a minha cabeça! Problema é preço, mas aí fica para cada um decidir seu rumo né? Adorei um branco blend de Chardonnay com Viognier o Campo del Cielo por pouco mais de 500 pratas e um, pasmem, rs Pet Nat de Viognier que ainda não chegou ao Brasil, com preço a conferir. Enfim, nunca digas que desta água não beberei e assim que possa falo um pouco mais sobre o que é um Pet Nat para quem ainda não conhece o termo e o estilo do vinho.

Do Brasil

Vallontano – Vale dos Vinhedos – Espumante Nature LH Zanini (R$200), Vallontano Reserva Tannat (R$130) e Talise Pinot Noir (R$122).

Certamente deveriam haver diversos outros rótulos por lá a desbravar dentro dos quesitos que tinha colocado em prática, porém isso foi o que consegui ver e que recomendo, mas o catálogo da Mistral é rico demais, certamente o melhor do Brasil, e vale a pena fuçar por lá.  É isso amigos, fui. Kanimambo e até breve.

PS. ia me esquecendo, dos grandes vinhos em prova nesse grande e importante evento vínico de nossa vinosfera, a internet está cheia, basta buscar no Facebook e Insta.

Cistus Reserva Branco na Taça

Da Quinta Vale da Perdiz no Douro, vem este delicioso corte de Rabigato, Códega do Larinho, Arinto e Malvasia Fina. Desde a primeira prova feita com os vinhos Cistus aqui na Granja Viana na companhia do produtor já faz uns cinco anos, foi um vinho que me seduziu e que mantenho sempre por perto, um tremendo coringa.
Um vinho muito bem elaborado, sem passagem por barrica, só inox, traz um toque mineral, muito frutado com lembrança a frutos de caroço como pessego e damasco, algo de ervas e sua boa acidez nos remete a algo mais cítrico, me gusta! Melhor ainda, na boca que no nariz, com boa cremosidade e volume de meio de boca e boa persistência.
Parece um vinhaço caro né, mas não é. nem vinhaço nem com preço nas alturas, mas um vinho que faz bonito na mesa como fez com este arroz de Bacalhau à Braz caseiro. É, acima de tudo, sedutor na boca e no bolso já que anda na faixa dos 100 a 130 Reais o que me apraz muitíssimo, porque vinhos bons com preços nas alturas o mercado está cheio e eu gosto mesmo é de fuçar e encontrar vinhos que chamos de, mais “terrenos”! recomendo, vale bem a pena e vale explorar seu irmão tinto e alguns mais nobres na hierarquia familiar do produtor, mas aí o bolso tem que ser mais fundo. rs A foto peguei de uns anos atrás, a safra hoje no mercado é outra, porém o vinho segue bom, pode confiar.
A Quinta Vale da Perdiz fica estrategicamente localizada entre a Quinta da Leda e a Vale do Meão, que primazia não? Com essa localização tem que ser muito incapaz para não elaborar vinhos bons né, pelo menos penso assim. É isso meus amigos, em breve falo de um Encontro Mistral de que pouco falaram até agora. Fui, kanimambo e até ao próximo post. Saúde

O Barato de Nossa Vinosfera

Talvez o que mais me encante em nossa vinosfera seja o fato de que surpresas acontecem a toda a hora, não existe monotonia, não existe preconceito que não possa ser quebrado nem idade nem litragem que nos limite a capacidade de aprender se houver humildade para tanto.

Muito recentemente passei por uma experiência maravilhosa que mexeu comigo, abri um malbec argentino da safra 2008 que há muito achava já ter virado vinagre! Tinha na Vino & Sapore  porém há alguns anos achei que já deveria estar moribundo e levei para casa, não ia arriscar vender. Acabou numa adega secundária, não refrigerada, desde então. Nem sei há quantos anos foi, a memória está fraca! Dia de faxina e descartes, jogando coisa velha e sem propósito fora, ainda bem que minha esposa não participou porque poderia ter sobrado para mim!! rs. Antes de jogar fora, todavia, decidi abrir e ver como estava.

Madonna mia, que surpresa! Sim, não está mais tão frutado e vivaz, mas ganhou maturidade o que nem todos apreciam, mas eu curto. A cor ainda se mantendo firme, sem aquele atijolado típico de vinhos com maior idade, apesar de um halo aquoso já mais acentuado, e muito complexo de boca com aromas já bem tímidos e leves notas terciárias, porém ainda com uma acidez bem presente o que jamais poderia esperar.

A Bodega Joffré y Hijas não está entre as mais baladas de Mendoza, não produz vinhos power repletos de taninos e álcool nas alturas, sua pegada é mais leve, mais fina, mais elegante. Jamais poderia esperar que este vinho tivesse essa capacidade de evolução, uma enorme surpresa para mostrar que em nossa vinosfera não dá para generalizar nada, as exceções são muitas e ainda bem que as há. Este, de preço módico no mercado, com 17 anos nas costas me fez um bem danado e me surpreendeu muito positivamente!! 🤗

Moral da história, nunca diga não e nunca vire as costas para um vinho porque, como algumas pessoas, ele pode te surpreender. Esta foi uma bela surpresa e uma lição que me deixou um enorme sorriso na boca. Saúde e kanimambo por ainda estarem por aqui, fui!

Branco Italiano na Taça, APROVADO!

Sigo na minha saga de sempre, intensificada pela atual conjuntura, da busca de de vinhos PQP, ou seja, de boa relação Preço x Qualidade x Prazer. Hoje em dia a busca é por vinhos que surpreendam num preço entre 50 a 150 Reais, melhor ainda se abaixo das 100 pratas, como este.

Gosto muito de vinhos brancos então não me fiz de rogado quando este me foi apresentado. Um branco de boa estrutura e fresco elaborado com as castas Grechetto e Trebbiano, um blend típico de Soave, não confundir com os nossos “suaves” (!), no Veneto porém este vem da Úmbria mais ao sul da Itália.

As uvas são cultivadas no município de Torrececcona, a 350 metros acima do nível do mar; o solo é de textura média e argiloso, vinhas de 12 anos gerando um vinho de cor amarelo palha com belos reflexos dourados sem passagem por madeira e sem maloláctica. No nariz é possível perceber notas de florais, frutas cítricas, pêssego, damasco e frutas tropicais como abacaxi, um nariz bastante interessante de média intensidade.

Na boca, onde mais aprecio os vinhos (rs), o Terre de la Custodia Desiata Duca Odoardo Bianco Umbria IGT,  revela-se fresco, seco, frutado, equilibrado e de corpo médio, apresenta uma certa untuosidade e cremosidade, um final de boa persistência com notas amendoadas.

Experimentei o vinho acompanhando uma pasta (fetuccine) ao pesto de rúcula coberto por uma boa porção de parmesão ralado fresco e grosso, harmonizou bem demais e, obviamente, deverá acompanhar bem tudo o que é frutos do mar, peixe e até carnes brancas. A experiência foi boa e a safra 2018 está no ponto de sua complexidade não devendo evoluir muito mais, tops mais um ano. Vinho na casa dos 80 Reais, mais ou menos 5 o que acho bastante justo para a qualidade oferecida o que o torna um bom exemplo de vinho PQP.

É isso, Kanimambo pela visita e em breve tem mais coisa por aqui, começo a ter gosto por escrever novamente! rs Saúde

Bom Prosecco!

Para inicio de conversa, apesar de não ser respeitado no Brasil, Prosecco só tem um, o produzido nessa região do Veneto na itália assim como champagne só se produz na região do mesmo nome na França. A uva não é prosecco e sim Glera elaborada pelo processo Charmat de segunda fermentação em tanque. Tendo deixado isso claro vamos a essa prova que agradou bastante.

Os Proseccos são classificados como Brut, o mais seco e menos comum por aqui com até 12grs de açucar residual, Extra-dry mais comum por aqui e mais adocicado com açucar residual entre 12 a 17grs e o Dry entre 17 a 32grs e a OIV (Organização Internacional do Vinho) permite uma variação em até 3grs. Dependendo da posição na escala, estes espumantes podem apresentar substanciais diferenças no palato, por exemplo um Prosecco Extra Dry com 13 e outro com 19 (na tolerância).

Eu gosto dos meus espumantes mais secos, preferencialmente Nature (proseccos não possuem esta classificação) ou Brut, por isso este Prosecco DOC da Cabert me agradou tanto e foi tão grata surpresa. Muito boa e abundante perlage difusa tomamdo conta da taça, notas florais, frutado puxando para frutos brancos e algumas notas citricas, fresco, vibrante e surpreendentemente seco para um extra dry deixando um retrogosto de quero mais. Fiquei curioso para saber o residual de açucar deste vinho, mas ainda não consegui obter essa informação, assim que consiga coloco aqui.

Fica aí a dica, pode mergulhar nessa que vale a pena, pelo menos na minha avaliação. Kanimambo, saúde e aos poucos estou voltando!! rs

Desafio de Cabernet Franc às Cegas – 1º Embate

Administro quatro confrarias há muitos anos, a mais antiga tem 11 anos, e é algo que me dá enorme prazer porque são momentos de confraternização e de descobertas. Volta e meia fazemos estes desafios que são bastante estimulantes e costumo trazer à taça pelo menos uns cinco rótulos de diversos países para análise. Na “Brinde à Vida” deste mês de Março, lamentavelmente o quórum estava baixo, então nos limitamos a três garrafas apenas, mas valeu a pena, sempre vale!

A Cabernet Franc é originária de Bordeaux tendo sido levada pelo famoso Cardeal de Richelieu (alguém aqui lembra dos 3 mosqueteiros? rs) para a sua abadia de Saint Nicolas de Bourgueil onde ela se tornou uva ícone da região com um estilo diferenciado em função do terroir com grandes vinhos também na vizinha Chinon. È a mãe, ou pai tanto faz (rs), da Cabernet Sauvignon ao ser cruzada com a Sauvignon Blanc. Dependendo do terroir, tende a apresentar uma certa mineralidade, nuances florais, frutos silvestres, leve toque vegetal, ótima textura e taninos macios de acordo com Oz Clarke em seu livro Grapes & Wines.

Para este desafio selecionei um desafiante uruguaio, um argentino e um chileno, pena que faltou espaço para um brasileiro e um francês, o embate teria ficado ainda mais interessante, mas deixa eu te passar minhas impressões sobre os vinhos que possuíam preços entre 120 a 180 Reais. Todos bons vinhos, porém com personalidades bem diferentes e, aí, é uma questão de gosto

Dominio Cassis Cabernet Franc, uruguaio da região de Las Palomas próximo a Punta, safra 2017. O mais pronto e afável dos três vinhos da noite. Tímido no nariz, mostra-se bem na boca com uma certa mineralidade, frutado, leve toque vegetal, frutos silvestres e taninos macios muito bem equilibrado com seus educados 12.5% de teor alcoólico. Passagem por barricas de carvalho francesas e americanas por um período de 12 meses sem que esta se torne muito percepetiva, um vinho fresco e apetitoso que deixa um retrogosto de quero mais. O melhor para um dos confrades, para mim veio em segundo lugar.

Joffré y Hijas Gran Cabernet Franc, argentino do Vale do Uco em Mendoza, safra 2019, com 9 meses de barricas francesas e americanas, apenas 50% do vinho, e o maior teor alcoólico, 14,5%. Leve floral no nariz, bem frutado com notas de eucalipto e baunilha, aromas bastante interessantes de explorar com calma, mesmo para mim que não sou assim tão chegado em coisas olfativas, sou mais palato! rs Na boca demonstra seu equilíbrio com o álcool muito bem integrado, bom volume de boca, ótima textura e meio de boca complexo, taninos finos ainda bem presentes e boa acidez mostrando que que tem predicados para o levar bem mais longe com boa evolução. O primeiro no meu ranking, no dos outros confrades estava em segundo porém com o decorrer do tempo em taça acabou dividindo opiniões.

LFE 360º Series Cabernet Franc 2019, chileno do vale de Colchagua, inicialmente o preferido da maioria, algo que mudou um pouco com o tempo em taça. Afinamento em barricas de segundo y terceiro uso americanas e francesas por um período entre 11 a 12 meses. Veio potente, cor escura, rubi intenso, aromaticamente intenso com menta, frutos negros, algo de pimentão (suave) a famosa piracina, marca de boa parte dos vinhos chilenos.  Seus 14% de álcool se notam bem presentes e ainda por integrar, grande estrutura e volume de boca, especiarias, notas tostadas, vinho resinoso e algo pesado que, no meu conceito de Cabernet Franc, destoa um pouco quanto à tipicidade da casta. Para mim, minha terceira escolha e algo over para meu gosto. Para quem gosta de vinhos power, uma boa opção porém acho que abrimos o vinho cedo demais, precisa de mais tempo de garrafa.

Bem, por hoje é só, porém já tenho agendada mais uma degustação às cegas de Cabernet Franc com outros rótulos e outra confraria agora em Abril, depois conto mais, será o Embate II. rs Kanimambo, saúde

Meu Primeiro Bequignol

Já conhecia essa uva? Eu não! rs Sempre aprendendo, esta nossa vinosfera não pára de nos apresentar novidades, mesmo que de origem antiga. Novidades, antigas? Que contra senso é esse?? rs De tão esquecidas pelos produtores, passam a novidade por meio das mãos de jovens buscando na história e tradição novos sabores para nos surpreenderem, este foi mais uma grata surpresa, “Aqui Estamos Todos Locos Bequignol”.

A Bequignol é uma uva de origem francesa usada em Bordeaux até o ano de 1777. Hoje em dia existe pouco mais de  um hectare de vinhedos na França e um pouco mais de 900 na Argentina, normalmente de vinhedos antigos como neste caso, de 1940. De corpo ligeiro, dá cor e aporta acidez aos blends e quando elaborado como varietal tende a dar vinhos ligeiros, de poucos taninos, para serem tomados jovens. Também é conhecida como Red Chenin e possui uma relação parental com a Savignin da região francesa do Jura. Leva uma parcela de Buonamico (também conhecida como Sangioveto de origem italiana) que é cofermentada com a Bequignol.

A Bodega é Viñedos Niven em Mendoza, produtor que trabalha com conceito de vinhos orgânicos. Este “Estamos Todos Locos” tem fermentação semi carbônica em ovos de cimento e uma leve passagem por barricas usadas, sendo produzidas somente cerca de 1700 garrafas ano. E o vinho, que tal?

Na minha opinião um típico vinho de verão que ao ser refrescado fez com que seus taninos quase inexistentes aparecessem equilibrando o conjunto. Fruta vermelha, fresca, um vinho jovial, fresco e vibrante com ótima acidez e alguma especiaria de final de boca. Para acompanhar pratos leves, carpaccio, quibe cru, salmão, gostei bastante. Não é um blockbuster, mas é uma experiência super agradável que certamente se dará bem como companheiro da Primavera e do Verão, lembrando de o servir por volta dos 12 graus quando creio que ele mostra toda a sua vivacidade.

Apesar de ser bastante usado em blends, creio que só tem mais um produtor elaborando varietal de Bequignol, vale pesquisar outros produtores caso não encontre este e espero que tenha uma experiência tão gostosa quanto a minha, puro prazer e é para isso que o vinho existe! Saúde e Kanimambo!

Tardana, uma uva que não conhecia!

Faz pelo menos uns 15 anos que iniciei minha viagem por nossa vinosfera, mas incrível como sigo me surpreendendo e me deparando com uvas desconhecidas gerando vinhos gulosos, vibrantes, marcantes cada um à sua maneira. Desta feita a uva foi a Tardana, o vinho Sol e a vinícola a Bodegas Gratia.

Da Bodega Gratias já falei aqui quando do vinho “Y Tu de Quién Eres”, porém não falei do projeto da família que é exatamente a de trabalhar tão somente com uvas autóctones da região, muitas delas em risco de extinção. Elaboram um ótimo encorpado e negro vinho chamado GOT, um varietal 100% de Bobal e agora me deparei com este belíssimo Sol, um vinho vibrante que me seduziu. Antes de falar do vinho, no entanto, deixa eu antes falar desta uva.

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é tardana-grape-Gratias.jpg

A Tardana, uma cepa branca de pele grossa, é natural da região de Manchuela e Utiel-Requena próximo a Valência na Espanha, tendo esse nome pois amadurece muito tardiamente, depois dos tintos. Também é conhecida por Planta Nova. Apesar de ser uma vinífera, boa parte dela era colhida antecipadamente e vendida no mercado como uva de mesa comestível, algo que caiu em desuso devido ao aparecimento de uvas sem semente que tomou conta do mercado. Devido a não atingir níveis de álcool altos, demorar muito a amadurecer ficando propensa a sofrer com chuvas de granizo e apresentar relativa baixa produtividade, os grandes produtores a abandonaram e hoje a produção é mínima, beirando a extinção. O conceito por trás da “família” Gratias é exatamente esse, o de recuperar vinhedos e uvas da região e em extinção com o mínimo de intervenção, pequenas produções e vinhos únicos. Estão inclusive produzindo já um vinho laranja com a Tardana, mas esse só me deixou curioso, ainda não provei.

Sol de Tardana é levemente prensada e 1/3 termina de fermentar em talhas de barro passando posteriormente por um período de três meses sur lie. Aromas de boa intensidade apresentando um leve floral no nariz, notas de pêssego e damasco, fresco, talvez algo de maçã verde 🤔, na boca um toque mineral em função do solo calcário, boa textura, leve para médio corpo com equilibrados 12,5 de álcool, meio de boca marcante e vibrante com boa acidez e ótimo equilíbrio, um vinho sedutor que deixa um retrogosto de quero mais! rs  Falam de frutos brancos melão e pera, não achei não, mas isso vai de cada um. 😊 Gostei muito e tomaria várias! Do ponto de vista de harmonização, acho que é uma grande opção para pratos asiáticos bem condimentados. Tomei acompanhando um Bifum de Camarão ao Curry e foi divina a harmonização, mas quaisquer pratos de frutos do mar certamente serão boa escolta ao vino. Produção limitada, não chega cinco mil garrafas anuais, algo a se colocar numa wish list e vale a pena porque o preço é bem razoável, na casa das 130 pratas.

Enfim, mais um post, quem sabe na base de um por semana eu consiga criar novamente um ritmo de publicações. É isso, abraço e kanimambo pelos gentis comentários que venho recebendo, saúde e cuidem-se!

Y Tú, de Quién Eres?

Senta que lá vem história, meu primeiro vinho glu-glu, termo muito usado pelos amantes dos vinhos naturebas para descrever um vinho fácil de tomar, de golão! Vinho para tomar refrescado, até em copo de requeijão (heresia? rs) num bar qualquer de beira de estrada ou num Pueblo qualquer sem enochatisses, porque cada um é cada um. Por lá, um vinho de mesa, de “Pueblo”, mas deixa eu contar essa história vai?

O nome nasce de uma indagação dos anciões antigos de pequenos pueblos espanhóis quando um jovem que não conheciam aparecia, “Y tu de quien eres?”, e tu a que família pertences? Neste caso, do vinho, a resposta é, a um Pueblo! O local, Casas Ibañez, Albacete, a cerca de 100kms de Valencia, o produtor Bodega Gratias que trabalha com foco na elaboração de vinhos com uvas autóctones locais, mínima intervenção, adoção de processos artesanais e ancestrais, produzindo vinhos como antigamente. Jovens, resgatando a história local de fazer vinho e preservando castas autóctones.

Este vinho tinto, possuem um branco também de produção ainda menor e que ainda não provei, foi viabilizado através de um sistema de “crowdfunding” pois o projeto é muito pouco rentável em função da baixa produtividade dos vinhedos antigos com castas plantadas todas misturadas, neste caso todas autóctones e boa parte delas em risco de extinção. Entre as muitas castas que compõem este multivarietal ou field blend como gosto de chamar (no Douro as Vinhas Velhas costumam ser plantadas assim) castas como bobal, marisancho, teta devaca, pedro juan, morávia agra, morávia dulce, pintaillo, cegivera, rojal, valencín, albillo, etc..

A seleção de cachos é feita no vinhedo e os cachos colocados inteiros em tanques de 5 hectolitros onde fermentam de forma natural. Posteriormente, passam por um processo de “crianza”, tempo de afinamento, parte em inox, parte em barricas e parte em ânforas de barro. Com apenas 5300 garrafas produzidas, é um vinho para tomar de golão, o tal do glu-glu como mencionei no inicio deste post. Se você ficou interessado, sugiro entrar no site deles (www.bodegasgratias.com) e pesquisar um pouco mais.

Bem, ainda não falei do vinho! rs Esse estilo de vinhos pode e a maioria possui, aromas algo diferenciados que nos fazem remeter mais a cantina, taberna (estou viajando mas me permitam isso!) e alguns chegam ao exagero, este não, essa marca está lá, mas de forma sutil e sedutora. Tem uma bela cor vermelho cereja, com aromas de cantina, de frutas vermelhas e algo de mirtilos, especiarias, notas herbáceas de temperos verdes, e leve lembrança de kirch. Corpo médio, a adstringência na entrada da boca lhe confere um ar rústico que não tira seu charme, algo de salumeria, boa sensação frutada que lembra frutos negros e mostra um frescor muito interessante de final de boca que deixa uma sensação de quero mais na boca e um sorriso no rosto.  Eu curti demais, melhor se levemente refrescado a 14/15ºC, e me deixou curioso de conhecer esta bodega in loco!

Eu que não sou exatamente um apoiador dos vinhos naturais, tenho que me render ao fato de que há sim vinhos bem feitos que merecem ser conhecidos e este é um deles. Minha posição sobre isso é muito clara, o vinho tem primeiramente ser bom e palatável, depois se for orgânico melhor e bio ainda mais, questão que me parece lógica. Aceitar vinhos pouco palatáveis, de aromas esquisitos e pouco convidativos porque são naturais, não faz minha praia, mas cada um é cada um.

Como disse, gostei e recomendo. Para acompanhar, boa companhia para começar!! rs Depois, se estiver a fins, uns tapas, salames, queijo manchego e uma boa prosa. Ufa, falei um monte hoje, fazia tempo que um texto não fluía assim. Kanimambo pela visita, saúde, cheers, salute, salud, prosit, …

Todo o Dia é Dia

Quem faz o dia é você, basta querer. Não, não é um post de auto ajuda, apesar de que se pensar bem tem um algo de! rs Uma garrafa de vinho e um pouco de boa vontade na cozinha opera milagres, melhor que muita terapia. Ontem, Segunda-feira, quebrei a rotina, fui para a cozinha preparar um agradável jantar com minha loira e não, não foi dia da mulher, aniversário de casamento ou coisa que o valha. Deu vontade!!

Enfim, voltando de uma reunião em São Paulo e depois de mais de hora numa Raposo Tavares travada por um veículo quebrado na pista da esquerda, passei no hortifruti para comprar uma cartela de camarões e lá me fui para casa. Primeira coisa, antes de limpar o camarão e depois de um beijo na loira (rs), abrir um vinho e este tinha tudo a ver com o dia quente e o risoto que me meti a preparar, um Rosé novo que precisava provar. Trabalho, sempre trabalho!!

Loma Negra, já provei o Sauvignon Blanc que gostei demais e postei Sábado no Face, este está um pouco abaixo, mas ótimo em sua faixa de preços, abaixo das 50 pratas. Eu gosto e recomendo, a maioria das vezes dá certo, de harmonizar por cor (um dia falo disso), mesmo que não haja razões técnicas para isso e o tema não seja alvo dos grandes criticos, neste caso a “maridage” de rosé e camarão é sempre um tiro certeiro como foi nesta agradável noite com o risoto de camarão com um toque de limão siciliano e do próprio vinho.

Vinho fresco, frutado lembrando frutos vermelhos frescos, sem doçura, seco, notas cítricas, toque sutil herbáceo, refrescante que não pretende ser grande e sim te dar prazer, coisa que fez com galhardia, pelo menos para nós. Do Vale Central, Chile, blend de Cabernet Sauvignon e Merlot sem passagem por madeira porque preservar frescor é essencial, um achado e um tremendo de um best buy. As fotos, como sempre, não fazem jus à bonita cor do vinho que está melhor na primeira foto. Mais uma dica, harmonize com salmão (cor de novo! rs), mais uma dose de prazer na veia!

É isso por hoje, be happy! Bom vinho (não precisa ser caro), boa companhia e um bom prato, esse trio faz de qualquer momento um evento e ainda por cima sem gastar muito que o mar não está para peixe e muito menos para camarão (rs), por menos de 90 Reais jantamos os dois e com vinho! Kanimambo pela visita, tenham um ótimo dia e saúde!