João Filipe Clemente

Pinot Bom de Preço e Bom de Taça!

Pinot Noir bom abaixo das 60 pratas não é fácil de encontrar em terras brasilis seja lá de que origem for. Ou é ralo demais ou extraído demais difícil encontrar vinhos equilibrados. Normalmente quando é barato não possui qualquer característica da casta e já me perguntei algumas vezes o que diabo colocam na garrafa, porque Pinot tinha a certeza que não era. Gostava bastante do Maycas Sumaq que era fora da curva, mas não está vindo mais para o Brasil ou mudou de importador não sei ao certo, só sei que fiquei sem! rs Bom e abaixo das 60 pratas, valia muito a pena e tinha que encontrar um substituto à altura, porque barato e ruim tem de montão.

Depois de um bom período sem garimpar nada que valesse a pena, eis que me chega o Nancul Elegant Reserva Pinot Noir que veio atender a meus anseios. Os vinhos da Nancul têm como seu ponto forte uma boa relação Qualidade x Preço e não tem nenhum que eu tenha provado que negasse fogo dentro de sua faixa de preço, este não nega a marca que carrega.

O produtor é Hugo Casanova, uma vinícola do Maule que produz diversas marcas e está presente em todas as faixas de preço com vinhos sempre sempre bem feitos e agradáveis, especialmente nas gamas de entrada. Este Pinot segue essa receita, sendo muito balanceado sem extrações excessivas para que as características de cor e taninos fossem mantidos. Apenas 60% do vinho passa por barricas francesas, que imagino sejam de segundo ou terceiro uso, por cerca de 4 meses o resto em tanques de cimento para preservar a fruta. Não pretende ser um grande vinho, mas é “cumplidor” nesta faixa de preços, fruta abundante, paleta aromática viva, algum floral, mas é na boca que ele mostra ao que veio. Muito agradável de tomar, com taninos sedosos bem típicos da casta, algo de framboesa/cereja madura, boa textura com rico meio de boca, leve sem ser ralo, finalizando com um certo frescor e alguma especiaria.

Gostei, acompanhou muito bem o risoto de calabresa e chouriço português com um toque de pimenta biquinho e finalizado com parmesão ralado que improvisei neste último Domingo. Era para ser de funghi, mas as formigas chegaram antes de mim! rs Enfim, deu certo e certamente será um vinho que frequentará mais minha taça e minha mesa. Preço na casa dos 55 a 60 Reais, aqui em São Paulo, nas boas casas do ramo e restaurantes, recomendo.

 

 

Pinot Grigio, Uma Grata Surpresa na Taça

Também conhecida como Pinot Gris na França, é uma uva acinzentada mutação da uva Pinot Noir de cor mais clara, porém da qual se fazem somente vinhos brancos. Gosta de regiões mais frias e de maior altitude terroirs onde consegue mostrar-se melhor. Entre nós, vinhos de batalha, baratos e aguados têm feito um mal danado a sua reputação, porém garimpando sempre achamos alguns rótulos bastante interessantes. Sempre gostei muito do Mandorla (hoje na casa dos 70 a 75 reais), mas vinha buscando outras opções no mercado e achei.

Na França (Alsácia) as uvas são colhidas normalmente mais tarde resultando em vinhos mais intensos, untuosos e complexos enquanto na Itália (Alto Ádige e Friulli) os vinhos tendem a apresentar maior mineralidade, acidez mais presente resultando em vinhos mais frescos com notas vegetais. Interessante numa degustação colocar um frente ao outro, algo que penso em fazer num dia desses, deve ser interessante. Quem gosta de Sauvignon Blanc certamente deverá apreciar a Pinot Grigio.

Na semana passada provei um Pinot Grigio que me agradou bastante, foi o Foffani Pinot Grigio Superiore 2015. De vinhedos orgânicos situados na região oriental do Friuli o vinho se encontra um degrau acima dos demais que costumeiramente encontramos por aqui no mercado. Está em seu auge e deve ser tomado durante este ano, acredito que passado este ano ele deve entrar num estágio de decadência perdendo o frescor que é peculiar à cepa. Passagem só em tanques de inox, mas passa uns 3 meses sur lie o que lhe aporta mais corpo e complexidade. Grama molhada com nuances cítricas compõem uma paleta de aromas de intensidade média que convida a levar a taça à boca. Na boca um frescor bem presente, notas de limão, maçã verde, corpo médio, meio de boca cativante e um final mineral de média intensidade. Um vinho muito agradável que deve se dar muito bem com os mais diversos pratos de frutos do mar grelhados e fritos num final de tarde na praia em boa companhia! rs Ceviche, sushi, salmão, as opções são muitas, vale experimentar todas!!

Um vinho que fez feliz e me deixou sorrindo o que nem sempre acontece. rs O preço em São Paulo fica aí entre R$90 a 95 pelo que pude pesquisar na net. Fim de semana chegando, boa dica para quem for para a praia. Kanimambo pela visita, saúde e tenham um ótimo fim de semana.

 

 

Vinhos TOP do Ano.

Tema eventualmente polêmico este e sei que certamente vou cutucar alguns, mas a ideia principal aqui é de colocar um desafio especialmente às mídias impressas de nossa vinosfera tupiniquim e, concomitantemente, provocar um momento de reflexão. Não pretendo que seja, e não é, uma crítica a qualquer um porque cada um sabe de si e de seu negócio.

Todos os anos a grande maioria das mídias mundiais que trabalham o vinho publicam seus vinhos TOP do ano. Vale para a Wine Spectator, James Suckling, Wine Enthusiast, Gambero Rosso, Revista de Vinhos (Portugal) e outros tantos espalhado pelo mundo afora. Aqui no Brasil temos os TOP da Revista Adega e da Revista Prazeres da Mesa, comprei as duas este ano, porém não sei se existem outras que ainda publiquem essas listas anuais.

O que sinto falta é de algo que eu fazia até 2014 e a Revista Gula fez pela última vez creio eu em Janeiro de 2010 (ano em que contribui com a lista) com os TOP de 2009, dividir e garimpar preciosidades ao longo do ano por faixa de preço. Acho que a última, pelo menos que eu vi, foi da Gosto em 2015. Hoje ao se ter acesso a essas listas só se vê, salvo pouquíssimas exceções, vinhos de 600, 1.500, 3.000 a 8.000 Reais a garrafa! Para alguns membros da elite econômica do país quem sabe seja útil, porém para a grande maioria isso não diz absolutamente nada e, aqui, expresso apenas minha opinião pessoal compartilhada junto a diversos enófilos de plantão e consumidores em geral com que me relaciono. Algo a se pensar ou não, sei lá, pode ser só rabugice aqui do velho tuga! rs

Falamos muito de descomplicar o vinho, de desconstruir o pedestal em que foi colocado para torná-lo mais acessível, aumentar o consumo per capita, etc.. é tema corrente, mas o que realmente é feito pela mídia e diversos formadores de opinião acerca do assunto? Num mercado de consumo per capita de vinhos finos estagnado há anos em função, essencialmente, de preços altos, ficar aqui falando maravilhas sobre um Mouton 1980 e dando-lhe o status de melhor vinho do ano, por mero exemplo, não agrega absolutamente nada a meu ver. Falamos muito da falta de marketing dos produtores, dos orgãos representativos, dos importadores, mas o que é que quem escreve sobre vinhos está fazendo para trazer o vinho de volta à terra? Lógico que há exceções, porém vejo muito blá, blá, blá e pouca ação efetiva nesse sentido.

Elitizar o vinho como algumas mídias insistem em fazê-lo, respeito porque cada um publica e compra o que quer e aparentemente vão muito bem obrigado, não me traz nada de novo e creio que publicar essas listas dentro de faixas de preço mais acessíveis ao consumidor seria muito mais construtivo. Exemplos: vinhos até 60 Reais, de 60 a 120, de 120 a 180, de 180 a 300, de 300 a 600 e acima disso.

Eu não consigo mais fazer isso porque desde 2015 estou amarrado na loja e pouco saio para degustações que é quando a gente faz a maioria dessas descobertas e também pouca ou nenhuma influência tenho no setor, porém sinto falta de algo mais pé no chão, menos elitizado, algo mais próximo da realidade consumo geral, algo baixo clero! rs

Fica aqui um desafio às revistas especializadas que trabalhem e divulguem mais este segmento pouco ou nada exploradas por elas. Que tal adicionar listas com esta “pegada” ao final deste ano? Uma coluna mensal com achados PQP (Preço x Qualidade x Prazer) e preço mais acessível? Vinhos que a gente, trabalhadores sem cartão corporativo ilimitado, possa bancar mesmo que só algumas poucas vezes, porque cá entre nós um vinho de 6 mil nem rolha né??

Eu chutaria, não tenho dados concretos, que 85% por cento do consumo de vinhos finos no Brasil, provavelmente mais, deve estar numa faixa de preço entre 35 a 150 Reais e o preço médio está na casa dos 45 Reais, então fica aí o recado, algo para refletir e, quem sabe, mudar para este ano? Eu acho que o grande público consumidor e de menor litragem está orfão buscando quem o adote! Pode ser que eu esteja errado e se tiver por favor me indiquem onde encontrar, gostaria de ter acesso.

É isso, fica a sugestão que, se fosse boa, se vendia né?? rs Kanimambo pela visita, saúde

 

Trebbiano & Bacalhau?

Olha, apesar de ter ficado só nos bolinhos de bacalhau, a prova me faz concluir que, definitivamente SIM! rs Para tudo o que é fritura creio que um vinho branco de acidez impactante vai sempre muito bem e tradicionalmente minha escolha recai sobre um vinho verde.

Neste caso os bolinhos foram assados no forno, não fica tão bom nem tão “bronzeado” mas…, porém o resultado teria sido o mesmo, quiçá melhor. Quis enovar,  afinal “navegar é preciso” e eu gosto (rs), tendo gostado do resultado porque este Arenile Trebianno d’Abruzzo produzido pela Cantina Ripa Teatina, uma cooperativa de cerca de 400 viticultores, nos entrega essa acidez bem característica da casta e casou muito bem com os bolinhos.

Esta garrafa é de 2016, tendo se mostrado com uma cor algo mais dourada, nariz cítrico mas tímido, na boca médio corpo, seco, notas amendoadas, maçã verde, porém no final de boca uma “limonada” bem fresca se faz presente dando um up no conjunto, um vinho muito agradável e bem balanceado que se deu bem com os bolinhos e certamente irá bem com outras versões de pratos com bacalhau como pataniscas, Bacalhau na brasa, à Brás, à Gomes de Sá, pil-pil, ouse!

A Trebbiano disputa com a Pinot Grigio a coroa de uva branca mais plantada na Itália e está presente em mais de 80 docs. Na França é conhecida como Ugni Blanc sendo muito usada na produção de Cognac e Armagnac. Na Emilia Romagna é base do azeite balsâmico, ou seja, uma uva bastante versátil que se dá bem numa variedade de terroirs. Eu gosto dos vinhos que trazem a influência do mar Adriático e minha sugestão é buscar exemplares dessas regiões. Este está na casa dos 78 a 84 Reais no mercado de São Paulo e é um bom exemplar da casta. O mesmo produtor elabora um delicioso Pecorino sobre o qual falei aqui, prove ele também, uma dupla que vale muito a pena.

 

Os Catena; Seus Vinhos e Sua Gente

Recebi recentemente um press release sobre os grandes resultados dos vinhos da família Catena em 2018 que me serviu de inspiração para expandir um pouco seu conteúdo para aqueles que tão somente conhecem seus vinhos. Durante muito tempo carreguei comigo uma imagem diferente sobres estes vinhos, até que conheci em diversas visitas esse mundo incrível que leva a marca Catena direta e indiretamente. Tanto que no dia de hoje, meu aniversário, abrirei um La Piramide Cabernet Sauvignon 2012, que me encantou lá em minha última visita, para comemorar.

Nicolás Catena Zapata é o principal nome do vinho argentino e grande responsável por colocar seu país no mapa dos melhores rótulos do mundo. Na década de 70, impressionado com a produção vitivinícola do Napa Valley (Califórnia, EUA), percebeu que o terroir de Mendoza, na Argentina, também podia dar origem a vinhos excelentes. Com determinação, trabalhou por décadas nos vinhedos e na adega, pesquisando e implementando novas técnicas. O resultado são vinhos extraordinários e de grande personalidade, que surpreendem a imprensa especializada pelo mundo afora. Talvez uma de suas principais teorias hoje, seja de que a época para inovação através de tecnologia já era, hoje todo mundo tem acesso a ela. O segredo hoje para inovação é a descoberta e o entendimento dos mais diversos terroirs. Também acredito nisso, pois com tecnologia já se consegue tomar bons vinhos da Venezuela, do Peru e até Tahiti, mas os grandes vinhos, esses só de grandes terroirs!

Em meados dos anos 90, Laura Catena, sua filha, o ajudou a emplacar uma identidade argentina nos vinhos da Catena. Vinhedos foram plantados em diferentes altitudes para produzir uma ampla gama de vinhos, entre eles o Nicolás Catena Zapata onde a Cabernet Sauvignon e não a Malbec é a protagonista. A primeira safra vinificada feita pelo enólogo José Galante foi 1997. Depois do seu lançamento em 2000, ele entrou em degustações as cegas com outros da mesma safra, como Chateau Latour, Opus One, Caymus Special Selection e Solaia tendo o Nicolás com frequência levado o primeiro ou o segundo lugar.

Passados quase 20 anos desde sua estreia, este verdadeiro ícone sul-americano segue surpreendendo a todos e o último que tomei, um 2009, estava de lamber os beiços! rs Na edição de outubro, a revista inglesa Decanter elegeu este grande tinto como seu “vinho lendário”: vinhos que não apenas estão entre os melhores do mundo, mas que também têm uma importância histórica. É elaborado com um corte de Cabernet Sauvignon (predominante) e Malbec dos melhores vinhedos das zonas mais frias e elevadas da Catena Zapata. A Cabernet talvez tenha sido o maior ponto de divergência entre Nicolás e seu pai que preferia a e via a Malbec como protagonista. Nicolás valorizou a Malbec, porém ampliou seu espectro de castas e terroirs e mostrou ter uma “quedinha” pela Cabernet! rs

Laura Catena, bióloga e 4ª geração da família é a atual diretora da Catena Zapata e também proprietária das prestigiadas vinícolas Luca e La Posta, tendo sido homenageada pela revista Wine Spectator como “Wine Star”, durante evento anual Wine Experience. Sua rotina é entre a Califórnia e Mendoza onde cuida das vinícolas e do Catena Institute of Wine. Sou fã incondicional do Luca Syrah, apesar e toda a linha ser muito boa, e do Pinot Glorieta da la Posta, um pinot com jeito de Borgonha por um preço bem camarada.

Alejandro Vigil, foi uma grande aquisição feita pela família no inicio dos anos 2000 e que, com sua juventude, conhecimento e criatividade, ajudou a catapultar os vinhos da família a um patamar ainda mais alto num projeto de expansão e exploração de regiões de grande altitude. Na Catena, começou desenvolvendo o instituto de pesquisa. Na época, havia um consultor australiano, o grande John Duval criador do mítico Penfolds Grange, fazendo o corte de Nicolas Catena Zapata 2001. Como conta o próprio Alejandro numa entrevista à revista Adega, John Duval se virou para mim e me perguntou; “Vigil, anima-se a fazer um corte?” Eu, com toda a ignorância – pois, para mim, era uma brincadeira –, fiz. Estavam todos: Nicolas, Laura (sua filha), Pepe Galante (enólogo), e fui com minha garrafinha. Colocaram-na sobre a mesa, com outras cinco. Fizeram uma prova às cegas e todos votaram no meu corte. Eu, cara de pôquer. “O que você fez?” “Mesclei isso e isso”. “E quantas garrafas pode fazer disso?” “Nem faço ideia” [risos]” Alguns meses depois, Nicolás o encarregou de todos os vinhos premium da empresa. Os da safra 2004 foram seus primeiros como chefe e, em 2007, encarregava-se de todas as vinícolas da família. Não é à toa que é reconhecido pela critica internacional como um dos 30 principais enólogos do mundo!

Essa parceria foi além e Alejandro em sociedade com Adrianna Catena (a caçula da família) montou um novo projeto chamado Aleanna que hoje é mais conhecida como El Enemigo e Grande Enemigo, nomes dados a seus vinhos altamente premiados

Na família ainda há Ernesto Catena que tem uma pegada mais direcionada aos vinhos orgânicos e bio dinâmicos com diversos rótulos entre eles a linha Animal, gosto muito do Malbec, e do Siesta que tem seu Cabernet Franc Bio como um de meus vinhos favoritos elaborado com esta uva na Argentina.

Fritar dos ovos, tem mão dos Catena e de Alejandro Vigil, pode mergulhar de cabeça que dificilmente vai dar ruim. Em cada linha de produtos, bons rótulos de entrada e grandes vinhos que ganharam em 2018 os holofotes dos mais importantes críticos, mas não só, porque 2017 também trouxe grandes conquistas. Vejamos alguns dos mais pontuados:

Os tintos Adrianna Vineyard River Stones Malbec 2016 e Gran Enemigo Single Vineyard Gualtallary 2013 (Cabernet Franc c/Malbec) foram classificados com 100 pontos pelo crítico Robert Parker, a nota mais alta já concedida para vinhos argentinos, os colocando num patamar de excelência que poucos no mundo frequentam.

Uma outra grande e recente premiação foi o El Enemigo Chardonnay 2016 que obteve 98 pontos de James Suckling tendo sido selecionado entre os TOP 100 vinhos de 22.000 vinhos provados por ele em 2018

Já o Adrianna Fortuna Terrae 2014 recebeu 95 pontos do jornalista Kim Marcus e é o no.1 da lista de indicações da última edição da revista Wine Spectator (Dez18/Jan19). Também recebeu alta pontuação de Robert Parker (96 pts), James Suckling (98 pts)

Catena Zapata Malbec Argentino com novo rótulo, A grande ilustração reveste a garrafa em 360graus. Desenhos que contam o drama da vida, morte e ressurgimento da uva Malbec, ilustram o novo rótulo do Catena Zapata Malbec Argentino . Esta repaginada  safra 2015 obteve 95pts da publicação The Wine Advocate e 94pts de James Suckling e Tim Atkin.

Talvez um dos maiores feitos dos vinhos Catena Zapata tenha sido a eleição por James Suckling do Melhor Vinho Argentino de 2017, não um Malbec ou um Cabernet Sauvignon, mas sim um vinho branco, o Adrianna White Stone Chardonnay 2014. Eu há muito venho falando dos brancos argentinos, este é só mais um atestado que confirma o estágio desses vinhos por lá e o quanto devemos estar abertos a eles.

Pessoalmente, sou um fã do Adrianna Single Vineyard Malbec e na ultima visita lá me encantei com o Cabernet Sauvignon La Piramide 2012  assim como o melhor Bonarda que já tomei, o Parcela Nicolás Catena 2014 sem contar seu estupendo Semillon botrytizado que poucos conhecem, o Catena Semillon Doux . Ah, não podia deixar de mencionar e indicar aos amigos um vinho da linha Gran Enemigo que fez minha cabeça e me fez suspirar quando o conheci há uns dois anos e naquele dia disse que poderia ser ainda melhor que o Gualtallary, ao menos parelho com ele, o El Cepillo!!! Para minha satisfação o 2014 recebeu 98 pontos na safra 2014 (acho que Parker), acima do Gualtallary. Posso até não entender nada de vinhos, mas sei reconhecer um grande vinho na taça! rs

Hoje falei de Catena Zapata, e como falei (rs), porém a verdade é que apesar do que esta casa produtora significa para a vitivinicultura argentina, o nível geral dos vinhos dos hermanos cresceu excepcionalmente com novos e criativos enólogos sem medo de explorar novas técnicas, rever velhas receitas  assim como a descoberta e exploração de novos terroirs. Eu mudei muito os conceitos que tinha quanto aos vinhos argentinos depois de mais de 2000kms rodados pelas diversas regiões produtoras e prova de inúmeros rótulos e visitas a produtores que me mostrou que essa revolução promovida pelos Catena desde 1970 não cessou, segue em plena evolução, explorem, desfrutem!

Kanimambo, saúde e uma ótima semana para todos

 

La Carrasca 2010, Um Grande Reserva Espanhol

Este vem de La Mancha (região central vermelha no mapa ao lado), a maior região produtora de vinhos na Espanha, e por isso bem diferente dos vinhos de Rioja e Ribera regiões que muitos de nós estamos mais acostumados a ver com denominação Grande Reserva. De La Mancha, a grande maioria dos vinhos são Jovens (sem madeira) ou Roble (permanência mínima em barrica de carvalho de 60 dias) ou Crianza (período mínimo de envelhecimento de 24 meses, dos quais pelo menos 6 em barricas de carvalho), de preços mais acessíveis e que nos últimos anos têm melhorado e muito o nível de qualidade.

Vemos poucos Gran Reservas (período mínimo de envelhecimiento é de 60 meses, dos quais ao menos 18 deverão ter sido de barricas de carvalho e em garrafa o restante do período) por aí e portanto fiquei curioso para conhecer mais e provar óbviamente! rs Afora uma exigência menor de tempo em barrica que Rioja e Ribera, aqui também a diversidade de uvas homologadas é bem maior > Bobal, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Cencibel (Tempranillo), Garnacha, Graciano, Malbec, Mencía, Merlot, Monastrell, Moravía dulce o Crujidera, Petit Verdot, Pinot Noir y Syrah e aprodutividade maior. Consequentemente, nos deparamos com melhores preços e uma maior diversidade de estilos já que os produtores estão mais livres para criar.

Este Marqués de La Carrasca Gran Reserva 2010 é elaborado pela Bodega Lozano, uma empresa familiar (desde 1853) que está já na quarta geração em atividade. Um corte de 80% Tempranillo com Cabernet Sauvignon que passou por 24 meses de barrica, parte americana e parte francesa, e o restante dos 36 meses em garrafa nas adegas antes de sair ao mercado em 2015. Tomado em conjunto com amigos, a avaliação foi bastante positiva tendo sido ressaltado que para um Gran Reserva espanhol a madeira estava muito bem trabalhada e bem integrada ao conjunto o que me leva a crer que ao menos parte desse estágio em carvalho tenha sido em barricas de segundo uso.

O vinho se mostrou bastante frutado, com algumas notas mais químicas (acetona) tanto no nariz quanto em boca, taninos muito finos e bem integrados, macio, médio corpo, com uma gostosa acidez de final de boca e boa persistência. Fácil de agradar, teor alcoólico educado (rs) de 13.5% em perfeito equilíbrio, um vinho que em São Paulo está na casa dos 110 Reais o que, para um Grande Reserva espanhol, é uma tremenda barganha que vale bem o preço, mas longe dos vinhos de grande estrutura e potência, se você gosta desse estilo este não é seu vinho. Este é um vinho para quem valoriza elegância, se você gosta então vai se dar bem com ele.

Kanimambo pela visita, saúde

Há Momentos e “Momentos”!

Sou um profundo defensor de que vinho se deve tomar em boas taças para poder usufruir tudo aquilo que eles têm a nos oferecer, seja em aromas como em sabores. Como tudo na vida, no entanto, sem radicalismos e enochatisses inibidoras, há momentos em que não há como e um copo comum ou copo de plástico valem sim! O que não pode é alguém que trabalha no ramo promover uma degustação de champagnes, cobrar 120 pratas por cabeça e aí servir essas preciosidades numa taça de plástico grosso e da cor preta ou branca, tanto faz, isso é inadmissível!

Por outro lado, costumo sempre dar como exemplo um de meus melhores momentos vividos que foi um reencontro com um primo que há anos não via e que me recebeu numa tasquinha que frequentava num vilarejo em Portugal. Lá nos esbaldamos com pataniscas de bacalhau e um tinto no copo tirado direto da barrica que o cantineiro tinha atrás do balcão. O melhor vinho do mundo? Não e muito longe disso, porém o momento está gravado na minha memória quase dez anos depois, Vinho e Pataniscas com meu primo. A taça faria diferença? Certamente não e provavelmente até atrapalharia o momento.

Nestes primeiros dias de Janeiro fui passar três dias na praia com minhas filhas. Tomamos vinho na praia e em casa, aliás tomamos várias garrafas de brancos, rosés e espumantes. Esqueci de levar taças, o que fazer? Deixar de tomar? Jamais né, até porque não eram vinhos que exigissem “ferramentas” especiais apesar de todos serem muito bons, porque a vida é curta demais para tomar vinho ruim e sigo essa máxima á risca, mesmo que seja num copo de plástico! rs Na praia foi num copo de plástico mesmo e em casa num copo de requeijão, so what, curti demais! Sim, o momento por vezes é muito mais importante que o vinho em si e nessas horas devemos deixar nossas enochatisses de lado e nos deixar levar pela maré.

O post de hoje tem uma mensagem só, curtam o momento da forma que vier sem medo de serem felizes nem fiquem amarrados a demasiadas regras de etiqueta estabelecidas em nossa vinosfera. Nem sempre encontramos as situações ideais e daí, deixar de tomar seu vinho por isso, sério?? Há momentos e “momentos”, essencial é que saibamos discernir os dois sem frescuras nem radicalismos afinal, como já dizia o poeta, tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Saúde, kanimambo e seguimos nos vendo por aqui, boa semana.

 

 

 

Alheira, a Criação Judia de Uma Iguaria Portuguesa.

Tudo começou na inquisição espanhola com a perseguição dos judeus que fugiram para Portugal nos idos de 1492. “Milhares de judeus fugiram de Espanha para Portugal, principalmente para Lisboa, mas a partir de 1496, os judeus portugueses também foram forçados a converter-se ou, alternativamente, sair do país. Durante os dez anos seguintes, cidadãos mais conservadores, normalmente marinheiros, matavam judeus diariamente. Em 1536, a Inquisição chegou formalmente a Portugal e tanto judeus como judeus convertidos eram capturados e queimados vivos na pira, diante de um mar de gente, no Rossio”. Duros e terríveis tempos aqueles!

“Os judeus começaram a esconder-se e a formar comunidades em que se faziam passar por cristãos: escreviam em hebreu e fingiam rituais católicos para não levantar suspeitas. Mas em Trás-os-Montes, o disfarce foi mais original. Uma das principais maneiras que os membros da Inquisição tinham para descobrir os fugitivos era perceber se estes comiam carne de porco ou não – porque a religião judaica proíbe o seu consumo. Para enganar os investigadores, os habitantes de Mirandela criaram uma salsicha feita com pão e frango, que se assemelhava aos tradicionais chouriços e farinheiras com carne suína: a alheira.

“Nos dias de hoje, a alheira é um dos elementos típicos da cozinha portuguesa e já é feita com carne de porco, carne de caça ou pode até ser vegetariana. Depois de salvar milhares de judeus, saltou das montanhas de Trás-os-Montes para o resto do país.” Leia o artigo completo clicando o link de “Descobrindo Portugal“. Acompanhe com um bom vinho tinto e estamos conversados!!

Bom fim de semana e se não tiver onde ir curtir esta iguaria, sugiro o restaurante “A Quinta do Bacalhau” de minha amiga Iva que prepara este prato com maestria. Kanimambo pela visita, saúde

Chenin Blanc com Risoto de Camarão, Brie e Limão Siciliano

Pouca gente conhece a Chenin Blanc o que é uma pena, é um vinho muito fresco e vibrante que acompanha maravilhosamente frutos do mar e peixes. Originária da região do Loire onde se produzem alguns néctares tanto secos como de sobremesa e espumantes, especialmente na AOC de Vouvray, se deu muito bem na África do Sul onde existe um pouco de tudo entre eles alguns ótimos vinhos como o deste produtor KWV o qual produz também um bom pinotage. A Chenin chegou na África do Sul com os Huguenots expulsos da França por motivos religiosos em 1580, tendo sido uma das primeiras cepas a florescer por lá onde também era conhecida como Steen.

Por muitos anos a superprodução e falta de controle nos vinhedos geraram vinhos de qualidade duvidosa, mas de uns 15 anos para cá novos investimentos, redução na produtividade dos vinhedos e tecnologia aplicada mudaram essa onda. Hoje há muitos grandes vinhos elaborados com Chenin Blanc na África do Sul e normalmente com preços mais acessíveis que os nobres do Loire. Entre eles gosto muito deste KWV Classic Collection que volta e meia habita minha taça.

Neste final de ano, noite de reveillon, preparei um jantar especial a dois, um delicioso (humildade sempre foi meu ponto forte! rs) Risoto de Camarão com Brie e Limão Siciliano que harmonizei com esse vinho de leve nuance floral, crocante, fresco, com notas cítricas bem presentes, maçã verde, ótimo meio de boca e persistente final com um toque mineral que ornou à perfeição. Está certo que a presença de minha loira, a luz de velas e mais uma passagem de ano juntos (a 42º), ajudam a tornar o momento especial, mas a harmonização atingiu seu objetivo com louvor porque, acima de qualquer coisa, ela gostou!

Explorem a Chenin Blanc sul africana, para quem gosta de vinhos brancos e desta casta, acredito que o resultado será muito positivo e eu recomendo muito esse que anda na casa dos R$129 aqui em São Paulo.

Dicas do risoto? Nada complicado. O caldo faço com os rabinhos do camarão, para acrescentar sabor, e um tablete daqueles prontos. Os camarões tempero antes com limão, tico de sal e um pouco de salsinha e deixo descansar por uma meia hora. Refogo cebola, alho e quase todo o camarão ( os maiores reservo para finalização) que ao ficar rosadinho retiro e guardo para acrescentar mais ao final para não cozinhar demais. Arroz, vinho branco e caldo, colher grande manteiga, aos poucos ir acrescentando as raspas do limão (eu também coloco um tico do suco para aumentar a acidez), quando o arroz começar a ficar no ponto acrescento os camarões e finalizo com queijo Brie para dar aquela cremosidade. Na frigideira coloco um tico de manteiga para grelhar os camarões maiores que vão na finalização do prato. É isso, facinho, facinho, mas não esqueça que pilotar o fogão esquenta, mantenha a taça do “chef” abastecida, porque taça vazia dá azar e cozinhar sem vinho não rola e aí o prato pode desandar!! rs

Saúde, kanimambo pela visita e até a próxima!

 

To Sabrage Or Not To Sabrage?

Você já ouviu falar de Sabrage? Sabrage, ou degola em nosso idioma pátrio, é o ato de “abrir” um espumante com um sabre! Sim, isso mesmo e o “folclore conta que, nos tempos de Napoleão, galantes oficiais da cavalaria comemoravam suas vitórias ainda nos campos de luta sem apear de seus cavalos. Por isso, quebravam os gargalos das garrafas com seus sabres. Há quem diga, também, que a prática nasceu com os hussardos do czar, quando os russos derrotaram as tropas de Napoleão e ocuparam a região (Revista Adega). Eu fico me perguntando se na época já existiam as gaiolas ou se as garrafas precisavam de saca rolhas, porque usar o sabre e depois levar a garrafa à boca me parece algo perigoso! rs

Pois bem, hoje em dia ainda tem gente fazendo isso e me pergunto porquê e para quê alguém quereria “sabrar” um espumante? Até entendo que Napoleão, um grande amante de champagnes, e seus generais estivesse desprovido de um saca rolha, sei lá vai ver não haviam gaiolas na época, mas hoje em dia? Passamos anos ensinando como abrir um espumante sem estourar a rolha, apenas com um leve suspiro, e daí vem esse mundaréu de gente (inclusive profissionais) estraçalhando garrafa. Dizem ser elegante “sabrar”, eu não vejo elegância nenhuma não! 😱 Pode ser feito com sabre, existem diversos à venda por aí com esse propósito assim como faca de cozinha, espumadeira, base de taça, etc., cada “expert” escolhe a “arma” que lhe der mais resultado, prazer e desperte mais uaus em sua platéia.

Pela diversão ainda vai que vai, não vamos ser radicais, mas de resto entendo que não, sorry e ainda há o perigo de acidentes que são inúmeros conforme pode ser visto nos mais diversos videos circulando por aí na internet que você poderá ver clicando aqui. Já vi até gente comentar que dá sorte (??), porém essa foi novidade para mim. Sabe aquela história que todos contam e poucos praticam, de querer desmistificar nossa vinosfera, um mundo com menos frescura, então! Para mim não faz sentido, nunca fiz e jamais farei, mas respeito quem acha que isso faz parte da educação enófila, só não concordo é um pseudo glamour às avessas.

Como já disse um dia Kimi Raikonnen ao ser perguntado porquê não dava um banho de Champagne nos colegas no pódio, “prefiro bebê-lo a desperdiçá-lo”! Pronto é isso por hoje, kanimambo por seguir andando por aqui, saúde!