João Filipe Clemente

Bacalhau e Vinhos – Harmonizando a Páscoa

              Como dizem meus compatriotas, pelo menos é o que rege a lenda, “bacalhau não é peixe, é bacalhau” e estamos falados! Uns gostam com vinho branco, outros não abrem mão de um tinto, mas quem conhece do riscado sabe que é essencial saber o tipo de bacalhau que será servido. Bacalhau com natas, à Lagareiro, à Braz, à Zé do Pipo, à Gomes de Sá, à Espanhola, ao Forno, à Marialva, à Fenomenal, à Portuguesa cozido com batatas e grelos (tipo de couve), à Espanhola, Arroz de bacalhau com brócolis, à Narcisa enfim existem inúmeras formas de preparar bacalhau e outras de tanto de o harmonizar, até porque isto não é uma ciência exata e o gosto junto com a litragem de cada um é que determina o melhor casamento entre os dois. Para melhor demonstrar toda essa subjetividade, enviei um e-mail para diversos e experientes amigos de nossa vinosfera e fiz-lhes a seguinte pergunta. Lhe dou 100 Reais (30 Euros) para comprar vinho, ou vinhos, que harmonizem com seu bacalhau da Páscoa, quais seriam? Uma ressalva, os produtores não poderiam listar seus próprios vinhos. A maioria me respondeu, outros deixaram-me na mão, mas deu uma coletânea bastante interessante e diversificada de sugestões para você avaliar e, eventualmente, achar seu caminho.

  panorama-bacalhau1                                              Álvaro Galvão (Divino Guia) – Como gosto de fazer harmonizações não mito óbvias, indico o rosado maravilhoso da Miguel Torres Chilena, o Santa Digna, que é da Reloco, e deve girar na faixa de R$50,00.Como sobra a metade, indico o Prelúdio, um corte bordalês brasileiro do projeto Vinha Solo do Marco Daniele R$ 40,00. Deixo claro também que estou pensando em um bacalhau às natas para o primeiro e para o corte bordalês, uma bacalhoada, com pimentões e cebolas em abundância de azeite. Ainda sobra para a sobremesa!

         Arthur de Azevedo (Revista Wine Style e ABS) – Prefiro o bacalhau preparado de modo bem simples para valorizar o peixe propriamente dito. Sempre gosto de combinar bacalhau com vinhos brancos, como os Rieslings da Alsácia e da Alemanha, secos ou no máximo com uma leve insinuação de doçura. De Portugal ficaria com os vinhos brancos da Bairrada, como o Filipa Pato Ensaios Branco, ou com o Luis Pato Vinhas Velhas Branco, ou com um belo Arinto ou Antão Vaz do Alentejo, como os ótimos vinhos do Paulo Laureano. Se quiser mudar para a Espanha, use um ótimo Verdejo como o Emina Rueda.

         Didu Russo (Gula/Revista RSVP/Blog/Celebre) – Eu iria de tinto da Bairrada, um Luis Pato de uva baga. Aprendi isso em Portugal e adotei. Não concordo com os brancos, barricados ou não, bacalhau tem untuosidade que pede tanino e tanino seco nada de vinho madeirado tipo Malbec do Rolland não heim… Fica um horror. Também é uma ilusão os verdes frescos que os portuguêses com calor aqui no Brasil passaram a adotar, nada a ver “Secondo Me”. Com bolinhos fritos é diferente, iria de verdes claro para limpar a boca da gordura com as agulhas dos verdes. É isso.

         Pingus Vinicius (Pingas no Copo) – Eu gosto de um bacalhau à lagareiro (azeite e alho e batatas). Com este prato metia um tinto do Dão. Não tinha dúvidas. Escolhia um Quinta do Corujão Grande Escolha 2004 que custa menos de 25€ em Portugal. Se o bacalhau fosse assado no forno e acompanhado com puré, provavelmente o acompanharia com um Douro Branco. Um Redoma ou um Encosta Longa fermentado em barrica. Se o Bacalhau for confeccionado em sopa, com poejo e pão avançaria para um branco do alentejo. Um Pera Manca ficava-lhe bem.

         José Luiz Pagliari (Wine Experts / Revista Freetime / SBAV / Consultor) – Lembro-me do Saul Galvão falando duma série de harmonizações de bacalhau e vinho, chegando na melhor com o Conde de Valdemar Fermentado em Barricas, da Mistral (US$36.90), mas não me lembro qual receita de bacalhau estava sendo provada. Para a escolha do que beber é importante a maneira como o bacalhau é preparado, o método de cocção, os ingredientes. Meu favorito, espécie de curinga, mas se dando muito bem com receitas mais cremosas como o “Bacalhau com Natas” é o Esporão Reserva Branco, a R$78. Esse branco tem a vantagem de ser longevo, bebendo-se bem com 6, 7 anos ou mais.

         João Pedro de Carvalho (Copo de 3) – OK desafio aceite , vamos lá ver então. Bacalhau para o Domingo de Páscoa, por tradição na minha zona não comemos carne sexta feira santa pelo que é nesse dia que comemos o bacalhau. Como sou do Alentejo manda a tradição que Domingo se coma borrego assado no forno. Mas vamos então ao bacalhau, que pode ser entre tantas, de duas maneiras:

Cozido com batata e couve, ou grelos salteados em fio de azeite:

Um prato onde penso que o vegetal e o salgado suave do bacalhau juntando ao gosto forte do mesmo liga bem com um vinho que tenha corpo, frescura, mineralidade e boa dose de fruta e vegetal fresco.

Sugeria em plano mais económico: Soalheiro Alvarinho 2007 ou 2008, um Covela Escolha 2007, Redoma 2007, subindo um pouco mais claramente um Soalheiro Primeiras Vinhas que é para mim um dos melhores brancos de Portugal neste momento, ou um Quinta dos Roques Encruzado 2007. Se fosse para fora, iria buscar ao Vale do Loire um Chenin Blanc por exemplo qualquer um da gama Baumard ou um Domaine du Collier, que são vinhos acentes numa belíssima mineralidade e frescura, capazes de ligar bem com o vegetal, o grosso da batata e o exigente bacalhau.

No forno com natas, batata e pão ralado:

Aqui procuro sempre vinhos onde a madeira confira alguma untuosidade ao vinho, vinhos um pouco mais gordos na boca, com toques de tosta leve. O Redoma Reserva é bom exemplo, o Soalheiro Primeiras Vinhas 2007 aqui também liga bem, Malhadinha 2007. Do Chile o Montes Alpha Chardonnay gosto muito com este tipo de prato, mas por outro lado gosto de alguns tintos, como o Quinta de Saes Estágio Prolongado, que tem a frescura suficiente para o prato mas ao mesmo tempo a madeira que mostra é suave e liga bastante bem.

         Breno Raigorodsky (Sommelier FISAR/ Colunista) – Meu bacalhau é uma receita meio minha, meio do resto do mundo! É francesa com ingrediente italiano. É a brandade com o arremate do azeite aromatizado com trufa branca. Vou para um Moulin a Vin para caber com folga na sua verba de R$100,00 ou vou para um Dolcetto ou um Barbera de grande qualidade. A trufa manda no bacalhau e no vinho…Mas estarei muito bem servido nesta minha Páscoa, no doubt.

         Hamilton Reis (Enólogo da Cortes de Cima) – uma ressalva, vinhos da casa não poderiam ser sugeridos. Eu até posso, eles não! Eheh “Bom esta para mim é bastante fácil porque aqui à dias comi um bacalhau na brasa que foi brilhantemente acompanhado por um vinho que eu adoro, Morgado de Santa Catarina branco 2005, é de Bucelas e é, na minha opinião, um dos melhores brancos Portugueses da actualidade (pelo menos um dos melhores que eu conheço). Este vinho é muito equilibrado e ao mesmo tempo muito completo, nariz com boa intensidade, muito fresco. Na boca é crocante e gordo ao mesmo tempo, bons traços de mineralidade e com uma madeira no final muito discreta que lhe fica muito bem.

         Helena Sardinha (Enóloga Assistente na Cortes de Cima) – concordo plenamente com a sugestão do Hamilton. Um branco gordo e com alguma estrutura é o ideal para o bacalhau! Contudo, o bacalhau, que é um peixe quase carne, também fica muito bem com um tinto mais suave e com boa acidez. No caso dos tintos, a minha sugestão seria um tinto do Dão, como o Quinta da Pellada Touriga Nacional 2004 (é muito bom, muito elegante e com aromas muito perfumados). Esta é a minha sugestão…um bom Touriga Nacional do Dão!

         Emilio Santoro (Portal dos Vinhos) – os vinhos que gosto para acompanhar bacalhaus são:

Os chardonnays do novo mundo fermentados em barricas de carvalho, entre eles Casa Valduga Gran Reserva, Caliterra Tribute, Angélica Chardonnay.

Dentre os brancos do velho mundo, também fermentados em barricas de carvalho, o Esporão Reserva, Vila dos Frades Reserva, Cartuxa, Vetiver Crianza.

Tintos evoluídos das seguintes regiões: Douro, Alentejo, Rioja, Borgonha.

         Walter Tommasi (Editor de Vinhos da revista Gowhere Gastronomia/Colunista/Degustador) – Como eu sou um cara que gosta da simplicidade e tradição ficaria com um bacalhau que tenha muito azeite , cebola, azeitonas batatas e um puco de tomate, que é o que todos acabam fazendo pela simplicidade e pelo resultado final. Neste tipo de prato certamente iria para um tinto e daria duas linhas :

Uma compatibilização por “Tradição” ou seja, com um bom exemplar português

por gosto pessoal escolheria um bom Douro, pelo prato tender para o salgado e ter bastante untuosidade preferiria escolher um Douro com maior acidez , mais  elegante, e menos tânico ; Com isto em mente escolheria um douro “Não Reserva “, como o Conversa Douro da Niepoort que certamente é uma boa pedida e está abaixo dos 100 e o Quinta das Caldas Douro do Domingos Alves de Souza também é uma boa pedida

Saindo da Tradição minha sugestão seria um Nebiolo e a sugestão seria o Pio Cesare que deve ser por volta dos 120 reais ou o Bruno Giacosa ai outra alternativa seria o Barbera  Santa Rosália que é mais acido e está abaixo dos 100.

         Simon Knittel (Kylix) – Para mim, é muito prazeroso falar desta harmonização, pois são as minhas duas paixões. Gosto do Bacalhau feito no forno, bem condimentado, com muito azeite. Meu preferido é o Bacalhau à Lagareiro.

Como dizem, bacalhau não é peixe é bacalhau, então para harmonizar eu escolheria um bom vinho tinto português, e mesmo se fosse peixe, eu sempre digo que o melhor vinho, ou neste caso, a melhor harmonização é a que a gente gosta e pronto!!! Este tinto poderia ser o Cortes de Cima que é feito das uvas Aragonês, Castelão, Syrah e Trincadeira. Juntando seu bom corpo, seu aroma e paladar  frutado e seu toque de chocolate, acredito que será um ótimo parceiro para o meu bacalhau, sem passar por cima do mesmo. Fiquei com água na boca…

         José Eduardo Silva (Relações Publicas e TI da Cortes de Cima) – este fim de semana fiz um “bacalhau fenomenal” e foi muito bem acompanhado por um Monte da Peceguina Tinto 2006 produção da Herdade da Malhadinha Nova.

         Luís Lourenço (proprietário da Quinta dos Roques no Dão) – Não é fácil a resposta até porque não sei que vinhos estão presentes no mercado Brasileiro e a que preços, no entanto vou dar algumas sugestões: Os vinhos têm de ter uma boa estrutura e algum volume para se baterem com o bacalhau mas também boa acidez (ou com vocês dizem – “frescor”) para cortar a gordura do azeite.

Bacalhau assado no forno

Vinho Branco – Vinha Formal do Luís Pato (Bairrada)

Vinho Tinto – Quinta da Vegia da Casa de Cello (Dão)

Bacalhau à Gomes de Sá

Vinho Branco – Quinta do Ameal Escolha da Quinta do Ameal (V. Verde)

Vinho Tinto – Vale da Raposa – Alves de Sousa (Douro)

Vinho Rosé – Covela da Quinta da Covela (Regional Minho)

       Deixei-vos bastantes tontos depois desta série de recomendações e sugestões, não? O propósito foi bem esse, mostrar a diversidade e subjetividade destas escolhas (vejam também o interessante comentário do Luiz Horta). Mesmo com pessoas de grande experiência na área e tanque transbordando de tanta litragem, rsrs, fica claro que apesar de haver uma certa semelhança de escolhas por estilos de vinho em alguns casos, em outros o gosto de cada um impera e caminha, até, em direções opostas. Em harmonização existem tendências, mas é o gosto pessoal de cada um que acaba se sobrepondo a qualquer regra. O que se deve procurar é o equilíbrio entre o prato, o vinho e o seu paladar.  Aí em cima estão diversas opções e, como não poderia negar fogo nesta hora, eis a minha harmonização para o almoço. Farei um pouquinho de batota (trapaça) no total de gastos que passarão um pouco do estipulado, talvez alcançando um total de 120 reais, mas vamos lá.

João Filipe Clemente (Falando de Vinhos), neste dia serei tradicional, abrirei servindo bolinhos de bacalhau, alheira frita e uma salada de feijão fradinho com bacalhau cru, dessalgado e desfiado que acompanharei com um refrescante Casa Paterna Alvarinho/Trajadura (Premium). Para o prato principal que será um bacalhau no forno com grão, batatas, pimentões e batata ao murro, nadando no azeite, vou de Casa da Passarela Dão Vinhas Velhas (Vinica). Pensei muito seriamente num delicioso Reguengos Garrafeira dos Sócios, mas achei que poderia eventualmente abafar o bacalhau então preferi ir pelo caminho mais seguro. Alguns dos vinhos tintos de bom preço que também poderiam ir muito bem aqui são; Casa da Passarela Descoberta, Altano Douro, Grandes Quintas Escolha, DFJ Touriga Nacional/Touriga Franca, Quinta de Nossa Sra. do Carmo Douro (sem madeira) ou um Don Rafael  entre muitos outros, como alguns dos já citados acima. Caso o prato fosse um bacalhau com natas ou à Zé do Pipo, até o meu querido bacalhau à Braz, aí iria de branco, talvez Quinta dos Roques Encruzado, Esporão Reserva ou vinhos que andam menos na mídia por aqui como, o Alvarinho Pouco Comum, Pomares Branco e o Covela Escolha uma lembrança do João Pedro. Pensando bem, poderia também ser um tinto do Douro, de poucos taninos, macio e maduro como o Vila Jusã ou um Travers de Marceau do Languedoc Francês, e ainda sobraria um troco. Eta decisão difícil!

Para finalizar, diz o ditado que existem 1001 maneiras de se preparar bacalhau; grelhados, assados, fritos, cozidos, com ou sem batatas ao murro (que adoro), em postas, desfiado, enfim um monte, entre as quais algumas das que mencionei logo no inicio, então a duvida pode ser cruel ou você já tem seu favorito e vai direto nele? Não sabe o que fazer ou quer variar? Visite estes sites, algumas centenas de receitas para você se esbaldar. http://www.1001receitas.com/ , http://www.livrodereceitas.com/bacalhau ou http://www.bacalhau.com.br/ . Bom apetit, salute e boa Páscoa a todos. Aproveitem o feriado e seguimos nos encontrando por aqui.

 

 

Reflexões do Fundo do Copo – A Montanha e Moisés

breno3Mais um texto do amigo e colaborador de todos os sábados, Breno Raigorodsky. Para acessar seus textos anteriores, clique em Crônicas do Breno, aqui do lado, na seção – Categorias

 

 

Se o vinho não vem até você, você vai ao vinho, você o vê nascer na parreira, crescer e transformar em álcool todo o seu potencial energético sendo domado pelas técnicas que o homem, por ciência ou por acaso, aprendeu. Se o vinho não vai a você é porque você o ignora, é porque você não tem dinheiro para comprá-lo, é porque ninguém faz com que ele chegue até você. É o caso de tantos milhares de vinhos de tantas regiões, pois apesar do boom de consumo e oferta magnífica que existe hoje em dia por aqui, a amostra continua pequena, comparada, por exemplo, com a oferta que se encontra na Inglaterra, país importador de vinhos por excelência. Além do que, existem categorias de vinho que não são feitos para serem consumidos à distância.

breno-rolhaMe refiro não apenas a vinhos de pequeníssima produção, eventualmente os mais interessantes para se conhecer em viagem turística. As empresas produzem rótulos para consumo interno, que nada tem a ver com o sweet point que tanto conquistou o mercado norte-americano, que tanto se impõe. Vinhos que te permitem uma liga mais direta com os hábitos e gostos do povo que você está querendo conhecer através do vinho, como é o caso da linha San Felicien, produzido pela Catena Zapata apenas para consumo dos argentinos na Argentina. Não ir conhecer a região vinícola dos seus sonhos é a prova de que você não sonha com vinícola alguma, é ruim da cabeça ou doente do pé. Não pela chatice que é constatar ad nauseum o mesmo processo de fermentação, as mesmas cubas de aço, os mesmos barris de madeira nos lugares mais frios, as mesmas salas de prova, mas porque existe in loco muita chance de você experimentar vinhos além de sua capacidade de consumo regular.

O ideal é fazer uma conta de chegar, digamos assim: considere que você paga no Brasil, incluindo desde custo de transporte, seguros e guarda até impostos e lucros escorchantes da maioria das importadoras, algo como R$400,00 para um vinho que custa 30 euros na sua origem, ou seja, algo em torno de R$90,00… Se você multiplicar estes números pela quantidade de vinho que se pode degustar numa semana e fazer uma conta de quanto economizou, acaba se lambuzando e nem lembrando o que pode provar, de tanto que se locupleta! Já cruzei com gente que excursionou por Buenos Aires, Mendoza, Santiago e três vales chilenos em uma semana. Certamente, boa parte do tempo passou dentro dos aeroportos e outra parte em ônibus (deve ter sido bom para análise de comportamento humano, pois todos convivem com os mau humores, as brigas e discussões que estas situações acabam gerando, mas não para conhecer vinho, experiência que jamais terei).

breno-foto_homeA indústria do enoturismo movimenta milhões de euros. Italianos, franceses, espanhóis, portugueses, argentinos, chilenos, californianos, australianos, sul-africanos e mesmo brasileiros não param de crescer, estão na categoria de atrações turísticas máximas em seus países. Significa dizer que em torno das videiras, criaram-se grandes estruturas que envolvem boas estradas, bons hotéis, bons restaurantes e outras atividades culturais. Dois anos atrás, 30 condados da região do Douro reuniram-se em consórcio, contrataram uma empresa de marketing de Lisboa e saíram captando mundo afora recursos para transformar seus sítios numa rota do vinho de classe A. Vieram inclusive ao Brasil para ver o quanto os portugueses e oriundos estariam dispostos a participar do esforço local, que faria com que cada um dos ditos condados se aparelhasse de um hotel cinco estrelas, de um conjunto de restaurantes e de outros serviços correlatos. O investimento tinha o aval entusiasmado do banco de desenvolvimento responsável por financiar obras de grande porte para a Europa de mercado comum.

No Brasil, o chamado Hotel SPA do Vale do Vinhedo está lotado de turistas o ano inteiro, vindos de todo lugar, transformando seu saguão numa babel de línguas intercontinentais (encontra-se turistas alemães, japoneses e holandeses em qualquer lugar interessante do mundo). O Rio do Rastro Eco Resort em São Joaquim é o ponto hoteleiro mais importante para quem quer conhecer de perto os vinhos de altitude de Santa Catarina, com destaque para a Villa Francioni. Na Espanha, entre outras regiões produtoras de vinho, a milenar Castela e Leon recuperou breno-hacienda-zorita-pontea região para o vinho e Ribero Del Duero deixou de ser apenas a terra do Vega Sicilia. Uns dias por lá e o turista sai revigorado, certo de que a Tempranillo só não tem a nobreza dos vinhos mundiais porque não tem nome francês (Se chamasse Bientôt, Propetement ou Précoce quem sabe?!). Um hotel construído em pedras, mas com todas as modernidades da atualidade como o Hotel do grupo Zurita, ao lado de Salamanca, não fica a dever em conforto para nenhum das grandes cidades, apenas para não ter que constranger o concorrente numa comparação desigual, pois Salamanca não se compara.

O hotel da Bodega Santa Rita no Vale do Maipo chileno traz atrações além do vinho e da comida.  Apresenta um dos melhores museus de arte pré-colombiana de toda a cordilheira, melhor mesmo do que o de Santiago. De lá, pode-se conhecer algumas das mais interessantes vinícolas do Vale, mas também todas as que se destacam no Vale Casablanca que fica a poucos quilômetros de lá (aconselho vivamente a Matetic e seus EQs). Em La consulta, perto de Mendoza, o conglomerado agroindustrial Santa Helena chileno, que envolve bebidas fermentadas e destiladas, mantém na Finca La Célia uma casa colonial que recebe visitantes e hóspedes. Pequena, longe do formigueiro que Mendoza se transformou, é um bom lugar para virar quartel general de inspeção pelas vinícolas dos arredores.

breno-viagem-bordeauxmadri-002A hotelaria de Bordeaux não dá conta das feiras e convenções que a cidade abriga. Por duas vezes não encontrei paradeiro porque dei uma de caipira e fui chegando sem reserva, achando que bastava pagar um pouquinho mais e sorte ia me ajudar. Que nada, numa dessas fui parar em Arcachon, a meia hora de distância, uma Praia Grande civilizada e bem aparelhada para que haja mais harmonia entre os carros, os homens e a natureza costeira. Na outra vez me dei melhor, não só passei de Bordeaux como de Saint Emilion, porque também lá e nos arredores não havia lugar para aventureiros imprevidentes como eu. A guarida se deu no meio da noite, no hotel pertencente ao Chateaux des Roques, a mais de 10 minutos entre vinhas em direção a Puisseguin. Mas o vinho era bom, a comida idem, o apartamento ibidem, o que compensou (?) as 12 horas aproximadas, investidas na procura de um hotel para dormir.

Nada, no entanto, para o meu gosto, se compara aos pequenos Bed & Breakfast de pouquíssimos quartos como os que se encontra em Gevrey Chambertin, no melê da Côte D’Or da Borgonha, em Barolo, no Langhe do Piemonte e em tantos outros lugares emblemáticos do mundo do vinho. São postos feitos para conspirar abertamente contra o fast food, desde a hora do café da manhã sempre muito gostoso e variado, regado a conversações em inglês de sotaques que variam do interior da Austrália até os cafundós da Índia. Realço uma pequena produtora próxima de La Mora, a mais importante localidade dentre as 11 com permissão de breno-san_miniato_truffle_1denominar seu vinho como Barolo, uma mínima central do eno-turismo, a Stra, com menos de 3 hectares, com sua produção anual de Barolo, Langhe e Barbera sempre antecipadamente vendida, frutos de qualidade, resultado do labor de apenas uma pequena família – um homem, seu pai, seu filho e sua mulher.

Nada se compara às viagens pelos canais da Borgonha e da Alsácia, com direito a barcaça equipada com cozinha e bicicleta – para que se visite os locais mais interessantes, incluindo as vinícolas – que cumpre seu trajeto a incríveis dois quilômetros por hora. Mas isso é uma outra história, que fica para uma outra vez.

 

Breno Raigorodsky; filósofo, publicitário, sommelier e juiz de vinho internacional FISAR

 

Ainda o “Maledetto” Selo Fiscal.

É, o “maledetto” segue seu caminho e, se ninguém fizer nada, quando virmos já estaremos pagando por isso; nós consumidores, parte dos importadores, os pequenos produtores, etc.. No entanto, quando a injustiça é grande e os atos descabidos, sempre haverá gente para botar a boca no trombone e fazer ecoar a vóz da razão. O Luis Henrique Zanini, já tinha emitido um alerta e um manifesto sobre este status-quo há algum tempo e eu o publiquei aqui. Pois bem, este brado de alerta não se calou no tempo e espaço, como é tradição neste país, e fez fôlego voltando à carga com tudo, exaltando os pequenos produtores a se unirem para provocar mudanças, dizendo NÃO ao Selo Fiscal e fez questão de mais uma vez expor as graves conseqüências dessa implementação. Mais do que eventuais opiniões técnicas que eu possa ter, estas são desprovidas de experiência no setor. Este alerta, desabafo e convocação à luta, no entanto, vem de alguém que vive essa situação. Vale a pena ler e tomar posição. Diga não você também, use este e outros blogs para expressar sua rejeição ao, como diz Zanini, Maior Retrocesso da História da Vitivinicultura Brasileira.

 

Caros amigos,

 

Jamais poderia imaginar uma repercussão tão forte de um humilde texto, que despretensiosamente levantou uma “voz solo” na multidão. Para sintetizar em uma só expressão as centenas de manifestações recebidas sobre o assunto Selo Fiscal para os Vinhos, cito esta: O MAIOR RETROCESSO DA HISTÓRIA DA VITIVINICULTURA BRASILEIRA.

O vinho brasileiro segue em rota de colisão com ele próprio, tornando-se cada vez mais antipático e burocrático aos olhos do consumidor. O mais estarrecedor disso tudo é que, como previsto, um significativo número de vinícolas e associações mostra-se contrário à ressurreição deste tiranossauro. Sob a ótica de um cidadão brasileiro, enólogo e produtor que paga seus impostos e sobrevive do vinho junto com sua família, coloco um imenso ponto de interrogação sobre a decisão da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Viticultura, Vinhos e Derivados a respeito do assunto. Na Câmara não há representação de pequenos produtores de vinho e, assim, sua posição não pode ser considerada legítima e democrática. Sufocou-se o debate. Não houve interesse em esclarecer às vinícolas e suas associações o real significado de se adotar o selo fiscal para os vinhos. O Selo será a sentença de morte para muitos que não terão condições de conseguir e/ou manejar a selagem. Significará o desaparecimento do produtor artesanal e facilitará o domínio dos grandes mecanizados.

Uma democracia segmentada não é democracia. Este pequeno grupo que hipoteticamente representa o setor não pode viver no mundo das idéias e colocar goela abaixo imposições que não fazem sentido para a realidade dos pequenos produtores de vinhos brasileiros. Em 2005, quando também alguns solicitavam a adoção do selo para os vinhos finos, a Uvibra que hoje luta pela aprovação da medida, emitiu o seguinte parecer, constante na CP. CIRC. 10/05, de 11 de julho de 2005: “Sabe-se, por experiência de quem utiliza ou já utilizou o selo, mesmo em outros produtos, que o mesmo não evita a fraude e nem a sonegação. Também, a Argentina, que utilizava selos nos seus vinhos, mas há 7 anos atrás deixou de fazê-lo, por verificar que essa obrigação era mais um ônus das empresas vinícolas, acarretando-lhes custos sem proporcionar o retorno esperado. Outrossim, esse pedido ao Governo, uma vez aceito, conduziria a uma quase impossibilidade de sua supressão no futuro, o que acontece, por exemplo, com os produtores de cachaça. Além disso, o sistema de compra de selos junto à Receita não é gratuito, é burocrático e bastante complicado.” Um dos argumentos utilizados hoje para que o selo seja adotado é que a medida iría inviabilizar a importação de vinhos argentinos e chilenos baratos pelos supermercados, uma vez que a selagem deveria ser feita na origem. Ocorre que JÁ EXISTEM NO CHILE E ARGENTINA EMPRESAS (AS MESMAS QUE CONSOLIDAM CARGAS, COMO DHL, HILLEBRAND, ETC) QUE PRESTAM O SERVIÇO DE COLOCAR OS SELOS ANTES DO EMBARQUE. Ou seja, a selagem vai dificultar a importação de vinhos APENAS dos pequenos produtores europeus de vinhos de alta qualidade, alto preço e pequena produção. (Aqueles que menos incomodam o produtor local).

Pela primeira vez na história, caso o selo seja acatado pela Receita Federal, saberemos quem serão os responsáveis por liquidar com o que resta do mercado de vinhos brasileiros. O tiro sairá pela culatra. Alguém enxerga isso? Vivemos num país onde o consumo do vinho não ultrapassa os 2 litros per capita há décadas (dos quais 80% de produtos nacionais). A solução é tornar nosso vinho brasileiro mais atraente, acessível e simpático ao consumidor, reduzindo seus impostos e promovendo-o de forma inteligente. Em vez disso, estamos sobrevivendo de leilões e procurando maneiras de resolver o problema das sangrias.

Por isso, convoco a todos os produtores, pequenos ou não, que não concordam com essa medida descabida, a unirem-se pela primeira vez na vida e fazer história. Faremos um grande abaixo-assinado endereçado ao Ministro da Fazenda e à Secretaria da Receita Federal manifestando posição contrária à adoção do selo e pedir uma maior discussão, com a participação dos pequenos, antes que essa medida arbitrária seja tomada de maneira irreversível. Assim poderemos provar que a decisão da Câmara Setorial não é representativa, pois nós produtores abaixo-assinados somos contrários à selagem, além das seis Associações que se abstiveram e das duas que votaram contra durante a votação na Câmara Setorial.

TODOS os que têm o vinho como paixão ou ganha-pão têm o direito de entender melhor esse processo e se manifestar a respeito de tão importante assunto. Por fim, se os ideais de liberdade ainda ecoam em nossas almas, não aceitaremos essas resoluções. Afinal, está no nosso sangue farroupilha “não se entregar, assim no más.”

 

Luís Henrique Zanini, enólogo e sócio da vinícola Vallontano, no Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves (RS).

 

Quer se manter atualizado e saber mais sobre o que anda acontecendo, digite “selo fiscal” no espaço á direita no topo da página e clique em search. Lembro que este espaço estará sempre aberto a ouvir o outro lado, porém mesmo quando consultado, até agora nada obtive de explicações ou declarações formais que pudesse publicar. Mais uma vez, nada contra a industria nacional do vinho, muito pelo contrário, meu posicionamento é essencialmente pró-consumidor.

Salute

 

Ps. O texto marcado na cor vinho, são inclusões minhas.

Viajando

                     Não a trabalho, nem por motivos enófilos (lamentavelmente), mas sim por uma emergência que necessita de minha urgente presença fora do país. Nesse período, algumas matérias já prontas serão postadas, mas podem haver hiatos, Noticias e Dicas não aparecerão, e  certamente faltarão respostas a comentários, sorry.  Assim que puder coloco ordem na casa.  Enquanto isso,  salute e kanimambo.

Embate de Syrahs na Enoteca Decanter

logo-enoteca-decanterO Desafio de Vinhos iniciado no mês passado com o Desafio Torrontés, desta vez será realizado na bonita Enoteca Decanter com um grande Desafio Decanter de Vinhos Syrah. Nesta próxima semana terei o privilégio de dar uma volta ao mundo conhecendo os diversos estilos de vinhos elaborados com a cepa Syrah em 6 países diferentes, acompanhado de nove amigos e leitores convidados a participar da banca avaliadora deste incrível desafio. Vejamos quem serão os concorrentes desta disputa:

  • Do norte do Rhône, um Crozes-Hermitage de Jean-Luc Colombo, o Les Fées Brunes com 90 pontos de Wine Spectator e 93 da Wine & Spirits, um clássico da região. Este produtor, por sinal, produz um dos melhores vinhos que já tomei e que fez parte de meus “Deuses do Olimpo 08”, o Cote-Rotie La Divine.
  • Da África do Sul, aonde esta cepa vem ganhando grande destaque, vem o Biography, vinho produzido pelo personagem Piet Dreyer em sua vinicola Raka aninhada na ultima cadeia de montanhas do continente africano. Um vinho que já ganhou status de “cult” na África do Sul onde é reconhecido como um verdadeiro clássico, entre os melhores 25 vinhos sul africanos da atualidade de acordo com John Platter um dos mais importantes críticos da região e autor do guia South African Wines.
  • Da Austrália, que fez fama em cima da Syrah como uva símbolo do país, temos dois participantes; Killerman´s Rush de Clare Valley, produzido pelo maestro (mesmo) Kevin Mitchell proprietário da Kilikanoon, ao qual Parker deu 92 pontos chamando-o de “super-sexy” e o Schild Shiraz de grande complexidade segundo a Wine Spectator que lhe deu 93 pontos.
  • Da Argentina, especificamente da região de San Juan, onde vem despontando como uva ícone da região, o Callia Magna Shiraz, vinho que vem se destacando na mídia internacional estando presente entre os top 10 do concurso Syrah du Monde tanto em 2007 como em 2008 e Parker lhe deu “meros” 94 pontos.

Para sentir como este vinho se dá em assemblage, escolhi dois vinhos de regiões bem diferentes entre si.

  • Do Chile o Estampa Gold Assemblage Syrah que ficou entre os TOP 5 assemblages tintos do Chile pelo Guia de Vinos de Chile 06, tendo recebido 4 estrelas da Revista Decanter entrando como um dos “TOP 10 Chilean Reds” em 2005.
  • Da Itália, mais precisamente de Palermo na Sicília, aonde a Syrah também vem crescendo em importância, o Fatasciá Aliré Syrah & Nero d’Avola.

Serão sete “competidores” de primeiro nível lutando pela atenção e preferência da banca de provadores na busca pelo titulo de vinho da noite, o grande ganhador do “Desafio Decanter de Vinhos Syrah”. As garrafas e seus rótulos estarão encobertos por papel aluminio e os membros da banca não os verão até ao final da degustação, já que esta se dará às cegas. Imperdível e somente viável pelo apoio da Decanter e Enoteca Decanter a este evento, a este blog e ao amigo leitor que terá todas informações sobre esta admirável noite de degustação, aqui mesmo em Falando de Vinhos.

Salute e kanimambo.

Três Vinhos na Minha Taça

            Neste último final de semana, tive três interessantes vinhos em minha taça e achei legal compartilhar essa experiência com os amigos. São três vinhos bem diferentes uns dos outros e, por isso mesmo, tornaram o momento muito agradável já que adoro provar vinhos novos.

          valduga-chardonnay-gran-reserva-08Comecemos, pelo inicio, o Sábado quando tive a oportunidade de tomar o mais novo lançamento da Casa Valduga, o estupendo Gran Reserva Chardonnay 2008. Já comentei aqui sobre os brancos brasileiros de 2008 que vêem me encantando, mas este já vem com grande no nome e faz jus á fama que o precede. Sou, em geral, um crítico dos vinhos brancos nacionais que não têm me empolgado, salvo raras exceções e mesmo assim faltam-lhes regularidade. Quanto á regularidade não sei, teremos que esperar pela safra de 2009 que o Juarez Valduga me garantiu há alguns dias, será ainda melhor, e outras a seguir, até para poder sentir sua evolução na garrafa, agora que este 2008 é estupendo e realmente me conquistou, lá isso não restam duvidas. É um grande vinho que impõe respeito já pela garrafa, pela rolha (fiz questão de a fotografar junto) e onde é mais importante, na taça e na boca.

         É um vinho amarelo palha brilhante e translúcido, de nariz intenso e de boa tipicidade em que florescem aromas de frutos tropicais. Na boca é seco, cremoso, de bom volume, seu alto teor de álcool (14%) está muito bem equacionado e equilibrado, boa acidez, um final extremamente agradável e muito longo com retrogosto complexo em que aparece algo de baunilha, leve tostado e talvez côco. Não é para se bebericar, até porque não passaria pelo teste da terceira taça, porém é perfeito para a refeição e já o vi acompanhando um curry de camarões, algo leve sem muita pimenta, ou um bacalhau com natas já que estamos chegando na páscoa, com grande fidalguia. Grande Grand Reserva Chardonnay e o preço é justo para a qualidade do vinho ofertado, algo em torno de R$50,00.

          diversos-005   No domingo iniciei o almoço com alguns aperitivos como mussarela de búfala temperada, azeitonas chilenas graúdas bem temperadas e um patê de foie com ervas e torradinhas enquanto curtíamos um inicio de tarde agradável no terraço. Para acompanhar, um gostoso Perini Rosé 2008, corte de Merlot com Cabernet Franc, que foi um ótimo companheiro com seus parcos 12 % de teor alcoólico.

Linda cor salmão vibrante que de cara já nos convida a tomar, possui aromas delicados de frutos silvestres como morangos e cerejas bem típicos do estilo de vinho. Na boca o corte de Merlot com Cabernet Franc o faz sair da mesmice que se poderia esperar de um vinho deste estilo e de baixo custo, tornando-o muito agradável e saboroso, refrescante e fácil de beber. Durou pouco na garrafa e menos ainda na taça. Com um preço, indicado pelo produtor, em torno de 27 Reais, é uma boa opção de rosé ligeiro e descompromissado para tomar com os amigos e até, eventualmente, acompanhar uma refeição leve. Guardei uma taça e fiz um teste com um resto de caldeirada de lulas que tinha sobrado do dia anterior e foi uma parceria bastante saborosa e agradável.

diversos-008O segundo vinho do dia foi o WilliamCole Mirador Pinot Noir 2008, produzido na região de Casablanca no Chile. Um Pinot que nos traz cor e aromas mais em linha com seu terroir de novo mundo. É muito novo ainda e necessitou 45 minutos de decanter para começar a mostrar um pouco de suas virtudes, com aromas mostrando algo de frutas do bosque (framboesa, mirtilos, etc) e algo herbáceo que não pude identificar. O refresquei um pouco, servindo-o um pouco abaixo dos 14º como recomendado pelo produtor e realmente o vinho se mostrou mais equilibrado, taninos firmes sem agressividade com uma leve adstringência, corpo médio, final de boca de média persistência e algo especiado. Não é um grande vinho, nem é esse o seu propósito, mas é um Pinot Noir que agrada e condizente com o preço em torno de 45 Reais, importação Ana Import, tendo acompanhado bem o risoto de funghi servido ao almoço. Como sugestão, opte por um da safra 2007, até 2006, que neste momento deve estar com os taninos mais macios e redondos do que este. Compre o 2008 e guarde, certamente tomá-lo daqui a um ano lhe dará muito mais prazer.

 

Salute e kanimambo.

 

Ps. Leandro, preciso melhorar a qualidade das fotos, mas sua dica é válida e, sempre que possível, mostrarei o vinho na taça.

Sauvignon Blanc – Grande Prova Freetime

sauvignon_blanc_white_grape_varietyVinte rótulos de Sauvignon Blanc em prova, eis o presente que o amigo Walter Tommasi, experiente degustador, enófilo e editor da revista Freetime, me deu de presente no fim de semana.  Este é o resultado de sua mega degustação e desafio de Sauvignon Blanc entre a Nova Zelândia e o Chile, que não poderia deixar de compartilhar com os amigos leitores de Falando de Vinhos. Foram um total de 20 rótulos provados por uma banca de primeiro nível tendo dado Nova Zelândia na cabeça, com a Casa Marin (Vinea Store) e Bill da William Cole (Ana Import) dando o tom pelos vinhos chilenos. O Cipreses, assim como o Laurel (este ultimo não participou) da Casa Marin, são sim grandes vinhos, uma pena que sejam tão caros, o dobro dos primeiros colocados.

Vejam o resultado e comentários desta grande degustação e desafio entre brancos de dois países que primam pelos bons vinhos produzidos. Chamo a atenção para o fato de que preço não é sinônimo de qualidade, mas sim tendência, e o mais caro não necessariamente é o melhor como ficou demonstrado pelo resultado, haja visto a comparação entre o primeiro e o último colocado nessa prova.

          

   Nova Zelândia x Chile

 

 

 

Palliser Estate 2006 – Nova Zelândia 

 Palha claro brilhante, Complexo e elegante com delicados aromas florais, frutados e cítricos, toque mineral e de aspargos. Na boca muito equilibrado, com ótima acidez, cremoso, bom corpo, persistência longa e retrogosto frutado. PREMIUM  (31) 9222-5992. Preço- R$ 76,00- Nota 89,1

Mount Nelson 2006 – Nova Zelândia 

 Palha brilhante. Complexo com predominância de aromas cítricos, herbáceos e minerais, frutas brancas como pêra, toque de borracha. Boa acidez, corpo médio e persistência longa, retrogosto cítrico. EXPAND GROUP – (11) 3847 –4700. Preço – R$ 78,00 – Nota 88,3

Casa Marin Cipreses 2006 – Chile 

 Amarelo dourado brilhante. Complexo, cítrico (grapefruit), herbáceo,mineral e toques frutados. Na boca bem estruturado, com acidez correta e persistência longa, retrogosto frutado. VINEA STORE – (11) 3059-5200. Preço – R$ 145,00 – Nota 88,3

Nautilus Estate 2006 – Nova Zelândia

 Amarelo com toques verdeais  brilhante. Aromas minerais, casca de limão, melão, borracha, um toque fumê e ligeiro lácteo. Equilibrado com alta acidez, bom corpo e persistência longa. WINE PREMIUM (11) 3040-3434. Preço R$ 95,00 – Nota 88,0

Saint Clair 2007 – Nova Zelândia 

 Palha claro, brilhante. Elegante com aromas cítricos (grapefruit), minerais  e frutados (maracujá) . Na boca ótima acidez, seco, bom corpo e persistência e retrogosto cítrico. GRAND CRU (11) 3062-6388. Preço R$ 84,00 – Nota – 87,6

“Bill” William Cole Limited Edition 2007 Chile 

 Palha verdial. Elegante e complexo, cítrico, herbáceo, aspargos, mineral, com ligeiros toques lácteos e tostados. Boa acidez, seco, corpo e persistência corretos retrogosto lácteo. ANA IMPORT (71) 3337-1111. Preço R$ 95,00 – Nota – 87,4

Hunter’s 2007 – Nova Zelândia 

 Palha verdial. Aromas delicados de frutas (maça verde), cítrico (lima da pérsia) e toques florais. Alta acidez, bom corpo e persistência, retrogosto cítrico. PREMIUM (31) 9222-5992. Preço R$ 73,00 – Nota 87,3

Shingle Peak Matua 2006 – Nova Zelândia 

 Palha brilhante com toques verdeais. Complexo, aspargos, petrolato, herbáceo, feno e casca de limão. Equilibrado, acidez correta, leve elegante, ótimo final de boca. VINHOS DO MUNDO (51) 3012-8090. Preço R$ 70,00 – Nota 87,3

Sileni Estate 2008 – Nova Zelândia 

 Palha bem claro. Aromas delicados herbáceos, aspargos, florais e frutados (maracujá) e toques minerais . Boa acidez, corpo médio persistência correta. MISTRAL (11) 3372- 3400. Preço R$ 66,60 – Nota 87,3

10º Jackson Estate 2007 – Nova Zelândia 

 Dourado pálido brilhante. Mineral, e frutado, maracujá e pêra, toques cítricos. Alta acidez, seco, corpo e persistência média, ligeiro amargor. PREMIUM (31) 9222-5992. Preço R$ 78,00 – Nota 87,2

11º Anakena Ona 2007 – Chile 

 Palha brilhante. Complexo, cítrico, herbáceo, mineral com toques frutados, maracujá e grapefruit. Acidez correta, bom corpo, macio, longo com um agradável final de boca com toques minerais. MERCOVINO (16) 3635-5412. Preço R$ 79,00 – Nota 87,1

12º Maycas Limari Reserva Especial 2007 – Chile 

 Dourado brilhante. Frutado, abacaxi, toque de melaço, aromas evoluídos, ligeiro toque tostado. Boa acidez, corpo e persistência média, retrogosto evoluído. ENOTECA FASANO (11) 3168-1255. Preço R$ 89,00 – Nota 86,7

13º Quintay 2006 – Chile 

 Palha brilhante. Feno, frutado, lichia,mineral,pedra de isqueiro. Boca volumosa, boa acidez, boa persistência, final de boca agradavelmente frutado.  PREMIUM (31) 9222-5992. Preço R$ 61,00 – Nota 86,6

14º De Martino Parcela 5 Single Vineyard 2007 – Chile 

 Palha verdial. Elegante, mineral, cítrico, floral e toque fumê. Vinho delicado, com alta acidez, corpo e persistência média. DECANTER (47) 3326-0111. Preço 97,30 – Nota 86,3

15º Alto Vuelo William Cole 2007 – Chile 

 Amarelo claro brilhante. Delicado, frutado, goiaba, maracujá, herbáceo (arruda),mineral, cítrico. Elegante,seco,corpo e persistência média,acidez bem dosada. ANA IMPORT (71) 3337-1111. Preço R$ 51,85 – Nota – 86,3

16º Brookfields Hawke’s Bay 2006 – Nova Zelândia 

 Palha verdial.Cítrico, mineral,herbáceo, toques frutados (maçã ). Acidez correta, seco, corpo médio, persistência longa, retrogosto herbáceo, ligeiro amargor final. PREMIUM (31) 9222-5992. Preço R$ 78,00 – Nota 85,8

17º Tres Palacios Reserva 2006 – Chile 

 Palha verdial brilhante. Elegante, herbáceo, aspargos, mineral, leve fruta( pêra). Boa acidez, seco, bom corpo e persistência, final de boca agradável, frutado. ENOTECA FASANO (11) 3168-1255. Preço R$ 67,00 – Nota 85,6

18º Montes Selection 2007 – Chile 

 Amarelo palha verdial. Cítrico, frutado, pêssegos e maracujá, mineral, herbáceo. Acidez marcante, bom volume, persistência longo retrogosto cítrico. MISTRAL (11) 3372- 3400. Preço R$ 49,55 – Nota 85,6

19º Casa Lapostolle 2007 – Chile 

 Palha claro brilhante. Herbáceo, arruda, cítrico, mineral, pimenta branca. Boa acidez, alcoólico, encorpado, persistência longa retrogosto cítrico,ligeiro amargor. MISTRAL (11) 3372- 3400. Preço R$ 47,56 – Nota 85,1

20º Cariblanco Kingston 2006 – Chile 

 Amarelo palha com toques verdiais. Delicado com aromas florais e minerais. Alta acidez, corpo e persistência média. MERCOVINO (16) 3635-5412. Preço R$ 100,00 – Nota 84,6

 

 Salute e kanimambo

                                                                       

Noticias do Mundo do Vinho

wine-globe-22Chateau Lafite – depois de investir no Languedoc, no Chile e na Argentina, agora chegou a vez deste histórico Chateau e ícone de nossa vinosfera aportar na China. Creio, não tenho a certeza, de que Antinori já anda por aquela bandas, mas é a primeira grande investida de um grupo francês deste calibre em terras chinesas. Mercado de enorme potencial consumidor, previsto para atingir um consumo de cerca de 830 milhões de litros em 2011, o dobro de 2007, de acordo com estudo da empresa londrina International Wine and Spirit Record, também se prepara para produzir grandes vinhos. Na minha opinião, uma faca de dois gumes que já atingiu outras industrias de grande porte, porém sem dúvida uma saída para os altos custos de produção da matriz. De acordo com o proprietário do Chateu Lafite, Baron Eric de Rothschild, é uma grande primazia e algo extremamente excitante, fazer parte da criação do primeiro grande e excepcional Grand Cru Chinês.

         O investimento será feito em parceia com a CITIC, maior empresa estatal de investimentos, no desenvolvimento de 25 hectares de vinhedos na península de Penglai na província de Shangdon, cerca de 800 kms ao norte de Shangai. Esta região de aparente grande potencial, já é berço para 10.000 hectares de vinhedos com Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc sendo reconhecida como a Bordeaux chinesa, sendo 95% de sua produção consumida localmente. É esperar para ver! Fonte: Revista Decanter

 

Cavas Submarinas – já ouviu falar? Eu não e fui experimentar ontem. Acho que não têm mais o que inventar nos dias de hoje, a não ser talvez envelhecer vinhos em algum outro planeta, já que neste estão faltando cavas-submarinas-027lugares a explorar. Estes, aparentemente, foram envelhecidos por um período a 15 metros de profundidade no oceano pacifico! É, isso mesmo! Mais, os vinhos provados com os amigos Fabio, Evandro e Leopoldo com o Emilio (Portal dos Vinhos) em sua loja, são bons mesmos. Não sei se essa experiência de estar debaixo d’água por uns tempos lhes aportou algo, mas que o Cabernet Sauvignon e o Pinot com corte de 15% de Carmenére foram tomados sem muita parcimônia e agrado de todos, lá isso não resta qualquer duvida. Depois falo mais, mas dependendo do preço no mercado, são vinhos que valem a pena ser provados. Aguardem.

 

Desafio de Vinhos – o segundo desafio de Falando de Vinhos já está montado e desta vez teremos um muito especial pois é um “Desafio Decanter de Vinhos Syrahs”. Em conjunto com a importadora, o Desafio será realizado nas lindas instalações da Enoteca Decanter somente com uma super seleção de vinhos Syrah retirados de seu extenso e ótimo portfolio. Vai ser show de bola e depois compartilharei com os amigos um pouco mais desse evento que começa a ganhar corpo. Estive na Enoteca esta semana para conversar com o Fred Rezende, gerente do local, e mais uma vez me caiu o queixo pelo extremo bom gosto da arquitetura, decoração e incrível portfolio. Uma coisa é folhear o catálogo, outra é estar ali ao vivo rodeado de tentações vinícas! Quer conhecer, dê uma passada lá e tome uma taça de vinho no Wine Bar enquanto navega por prateleiras repletas de preciosidades. Enoteca Decanter – Rua Joaquim Floriano 838, Itaim, São Paulo, 50 metros depois que cruza a João Cachoeira, no lado direito da rua.

 

Mercado Difícil – aparentemente os vinhos de Bordeaux 2007 andam meio encalhados, safra que não foi das mais conceituadas e a crise pegando legal, os grandes Chateaus já aplicam descontos que variam de 8 a 25% para verem se conseguem desovar estoques e fazer seus costumeiros distribuidores no Reino Unido abrirem espaço em seus armazéns abarrotados de vinhos. Dizem que os preços da safra de 2008 podem chegar a 50% de desconto chegando aos mesmo níveis de 2004. Por aqui, a onda de aumentos após as promoções de Janeiro e Fevereiro começam a ceder e já há rumores de que algumas importadoras aumentaram descontos junto ás lojas especializadas. Que o mercado está retraído, não restam duvidas sendo de se estranhar os aumentos de 20 a 30% que uma série de produtores nacionais tentam colocar no mercado. Tinham a chance de ganhar espaço e aumentar sua fatia de mercado, os dados de vendas em Janeiro demonstram isso, mas parece que, mais uma vez vão perder o bonde. Uma pena.

 

miolo-gamay-2009-baixaMiolo Gamay – Na busca de excelência, a Miolo foi ao berço da variedade Gamay, a França, buscar o conhecimento de Henry Marionnet, considerado o Papa Mundial do Gamay pela crítica internacional, para elaborar o seu vinho desta safra em conjunto com o francês. O resultado será conhecido no final de março, quando chega ao mercado o Gamay 2009, o primeiro vinho fino da safra deste ano do Brasil. A Miolo consolidou-se na América do Sul como uma das únicas vinícolas que produz o Gamay com o conceito de “Beaujolais Noveau” francês. “O Gamay 2009 da Miolo será produzido com o mesmo processo utilizado para elaborar os melhores vinhos da variedade da França”, afirma o diretor-superintendente, Adriano Miolo. Ter produtos avalizados por Marionnet significa muito no mundo do vinho. Ele é considerado pelo crítico Robert Parker um dos melhores viticultores da França. É proprietário da Domaine de La Charmoise, situada na parte oriental de Touraine, a 30 km de Blois, no Vale do Loire. É o mais conceituado produtor de Gamay na França. Provei a safra anterior e não me encantou, agora é esperar este vinho chegar nas prateleiras para tirar a prova dos nove.

 

Arauco, a Malbec dos Azeites – é meus amigos os Argentinos não param e não dormem em berço esplêndido. Vejam a noticia que os amigos da Zuccardi me enviaram:

“Así como comenzó a suceder con los vinos varietales hace una décadaarauco atrás, la tendencia del marketing olivícola mundial empezó a hacer conocer los aceites de oliva por sus variedades, y en ese sentido la Argentina esta sacando al mundo un varietal distintivo de nuestro país: Arauco, el Malbec de los aceites de oliva. Los frutos, de gran tamaño y forma ovoide alargada que terminan en punta, tienen una alta relación pulpa-hueso y excelente sabor, textura, color y aroma, y antes era utilizada principalmente como conservera. Arauco tiene una complejidad de aromas y sabores, picante, con robustez, que como monovarietal es una variedad muy interesante, que es un diferencial, ya que en otros países no existe.

España e Italia son los líderes mundiales del mercado olivícola, pero como venden más de lo que producen, compran a todo el mundo aceites a granel, y luego lo fraccionan y lo venden como propio. Por eso, es tan importante vender nuestros productos fraccionados, posicionar marca país, y generar valor agregado. En ese sentido, Bodega Familia Zuccardi consiguió abrir el mercado español, colocando una partida de sus aceites de oliva en la península ibérica.

Otras variedades implantadas en Argentina son: Barnea (desarrollada en Israel, en la región de Kadesh Barnea); Changlot Real (variedad española); Coratina (italiana cultivada en la región de Puglia, Bari); Empeltre (española); Farga (española, produce un aceite de gran cuerpo); Frantoio (de la región de Toscana, se ha propagado a numerosos países). La Picual (es la variedad más difundida del mundo, ya que representa el 20% del total mundial y el 50% de las plantaciones de su país, España); Manzanilla (variedad española, de la zona de Sevilla); Arbosana (española, de la comarca de “El Arbos” en Tarragona); Leccino (cultivada en toda la península italica); Nocellara (variedad de Sicilia); o koroneiki (griega).”

Este Arauco pode ser encontrado na Expand, importador que distribui os bons produtos da Zuccardi aqui no Brasil. Também fiquei sabendo que alguns azeites Chilenos são de primeira e que Minas Gerais está com um projeto interessante que deve dar resultados dentro de alguns anos. Um Novo x Velho Mundo agora também no azeite?! Eu não provei, ainda, mas já está na minha enorme “Wish List”.

Salute e Kanimambo

Reflexões do Fundo do Copo – o Envelhecimento

breno3Mais um texto do amigo e colaborador de todos os sábados, Breno Raigorodsky. Para acessar seus textos anteriores, clique em Crônicas do Breno, aqui do lado, na seção – Categorias

 

 

Um vinho envelhece com a dignidade que lhe foi dado ter pelo homem e pela natureza, pois umas uvas resultam maior potencial de envelhecimento depois de transformadas em vinho do que outras. Tem vinho que muda totalmente suas características ao viajar, ao ser exposto a temperaturas muito variadas, principalmente acima dos 30ºC. Tem vinho que tem que ter a energia domada pela madeira e envelhecida por alguns anos em garrafa e tem vinho que vai para a garrafa tão jovem que chega à mesa bem nervoso. É este o vinho que precisa oxigenar para melhorar o desempenho. Porque ao contrário do que disse seu sommelier de plantão, oxigenar não é sinônimo de decantar. Oxigenar serve para envelhecer vinhos jovens cujos taninos estão amarrados, ocasionando uma rascante adstringência de banana verde na boca. É disso que basicamente se trata oxigenar o vinho. É para dar melhores condições para que ele atinja o seu ápice na hora do consumo!

decanter-tiltedDecantar é uma coisa que se incorporou ao dicionário do vinho moderno, termo originário da química cujo significado técnico é separar elementos de pesos diferentes por meio da ação gravitacional; é fazer com que eventuais resíduos sólidos em suspensão no ambiente líquido, se reúnam no fundo de um recipiente apropriado, dito decanter, cuja característica primeira é conter uma curvatura abrupta feita para dificultar a movimentação dos resíduos sólidos, e com isso facilitar o despejo do líquido sem a contaminação dos resíduos. O vocábulo deriva do latim medieval dos alquimistas decanthare, composto da raiz de- e canthu, designação para bico de vasilha e pode ter derivado do gr. kanthos — que, além de aro, significa também pote, vaso, ou canto do olho. Assim, decanthare significa despejar a partir do bordo de um vaso, do bico de uma vasilha. (www.amalgamar.com.br/blog/2004/07/glossario-decantar)

No caso do vinho, estes resíduos nada têm de errado em si, a não ser na aparência. Já comprei vinho de mais de R$100,00 por menos de R$15,00, só porque ele apresentava depósito de borra, o Scyri, um scyri-3Nero D’Avola que a Expand costumava importar. O vinho estava ótimo, meus amigos, minhas filhas e eu, acabamos com o estoque dele! Neste caso, o decanter é a ferramenta ideal e sempre que abri um vinho desses usei esta ferramenta. Os restaurantes, incentivados pelos comerciantes, por sua vez incentivados pelos produtores e designers, convencem o coitado do consumidor ignorante de que é imprescindível ter um decanter de cristal para fazer o vinho abrir, através de uma melhor oxigenação. Uma peça cara, que custa o preço de algumas boas garrafas e não traz qualquer resultado objetivo para a grande maioria dos vinhos que se tem na adega!

Faça a experiência – compare em degustação, o vinho que você deixa em taça por uma hora com outros dois: o que você deixa em decanter, digamos metade da garrafa e o que deixa em sua embalagem original, a garrafa, pelo mesmo tempo. O vinho na taça tem muito menor volume e se mistura com o ar presente nela de modo a revelar toda a sua complexidade aromática, além de domar os taninos como o desejado. A diferença a favor da taça será sensível, enquanto que os outros dois vão estar em planos muito próximos. Como os seres humanos, os vinhos também amadurecem conforme suas experiências e compostos que fazem sua essência.

decanter-duckOutra coisa é fazer o vinho passar por um decanter em forma de pato – que a minoria dos modelos que se encontra no mercado – ou jarra de boca larga; larga o suficiente para fazer o mesmo papel da taça de boca larga, só para o todo que será servido. O resto é pura má fé e/ou afetação. Então por que o vinho jovem não é engarrafado depois de um processo de oxigenação precoce? É a micro-oxigenação, a oxigenação induzida, como pretendo ter respondido no artigo anterior que falava sobre a madeira, que vem permitindo vinhos jovens demais terem aceitação positiva do mercado, que renega vinhos como os da velha guarda no velho mundo, que atingem naturalmente a maturidade apenas anos depois da colheita. A micro-oxigenação, por isso mesmo, é a técnica de vinificação responsável pela crescente aceitação do vinho entre pessoas que não costumavam optar por ele.

Mesmo assim, é comum melhorar vinhos jovens demais deixando que ele oxigene. Um vinho é longevo porque foi vinificado de modo a atingir tranquilamente seu ápice, primeiro em barrica de carvalho, depois em garrafa. Mas quanto longevo é o vinho? O Grange 1955 autraliano de uva shiraz apresentou-se em excelentes condições ao ser degustado numa prova vertical em 2005, nos dizeres de um dos presentes no evento, a Jancis Robison. Atribui-se aos grandes vinhos esta capacidade de envelhecer conquistando maior complexidade e caminhando para o seu máximo, antes de decair. É um dos fatores mais importantes para estabelecer o seu valor enquanto mercadoria. Pretende-se que um vinho de mais de US$100,00 envelheça mais e melhor do que um vinho de menor idade.

Enrico Bernardo do restaurante do hotel George V, Paris, eleito o melhor sommelier do mundo no concurso de Atenas de 2004, entende muito mais de vinho do que eu e, provavelmente, muito mais do que você que lê este artigo. Pois ele recomenda deixar um vinho oxigenando em decanter um vinho por 3 meses*!!! Não se tratava de um vinho qualquer, mas o madeira Malvazia Barbeito 1834, que ele considera como um de seus melhores vinhos de todos os tempos. Achei que era um erro ou brincadeira de mau gosto e fui ao capítulo que fala de decantação, para ver se encontrava alguma novidade**. Nada de novo, apenas o bom senso de sempre, o uso técnico de sempre, que pede para oxigenar vinhos cujos taninos ainda estão indomados. Não contente com esta alucinação ele nos afirma sobre o Vega Sicilia Único 1970 – “Decanto este vinho safrado seis horas antes do serviço, para uma degustação entre 16ºC e 18ºC”(destaques meus). Seis horas de decantação para um vinho de 39 anos de idade?

decanter-technoNos dois casos citados, surpreende tratar vinhos vividos como se precisassem respirar. Devem estar beirando a demência senil, um com 173 aninhos e o outro entrando nos quarenta! Por que esta coisa toda, se sabemos – e ele também sabe, tanto que afirma no capítulo citado – que “diante de vinhos maduros, é preciso refletir seriamente antes de decidir se uma decantação é verdadeiramente necessária. Este procedimento, certamente útil para separar sedimentos, pode, em contrapartida, acentuar a oxidação com o risco de achatar o corpo e tornar o néctar irremediavelmente muito velho. Eu acho apropriado frente a um bouquet terciário e a uma estrutura bem concluída, abrir a garrafa algumas horas antes, para extrair os aromas sem prejudicar a estrutura.”

Então, como ficamos, que conta fazemos? Para oxigenar um vinho como o Vega Sicilia Único 1970, seguramente um vinho que deve manter a estrutura bem concluída ou não, ele sugere algo como 6,5 anos por hora… Um vinho com quase 40 anos? O mesmo vinho com apenas a metade da vida, deveria então ficar mais de 12 horas aberto? Uma vez, em Ferrara, perguntei o tempo de oxigenação que o vendedor de vinhos de uma enoteca sugeria para abrir determinado vinho da região, um vinho da costa do Adriático perto de Rimini e o senhor sugeriu 13horas. Quem sabe não era ele um parente próximo do nosso amigo Enrico? Fico sem saber, pois jamais me defrontei com um vinho destes para degustar e sequer me imaginei liderando uma degustação como esta.

Ao falar sobre outro grande vinho espanhol, o Rioja Cirsion Bodegas Roda de 2001 ele nos dá uma pista ao recomendar duas horas decanter-basic-with-stylede decanter** o que parece ser extremamente apropriado, um vinho que deve ter ainda mais 10 ou até 20 anos para crescer. Oxigenação de 2 horas, que ele mesmo recomendará para vinhos italianos como La Poja Allegrini 1999, Chianti Castelo di Ama 1997 e Barbaresco Vigneto Starderi Vürsu La Spinetta 2001, tão potentes e da mesma faixa etária do Cirsion. Então trata-se de algum erro? Certamente não, como ele diz, o vinho “deve imperativamente ser decantado por três meses antes da sua degustação”*** E  com o mesmo tom imperativo, ele ainda recomenda 3 dias de decanter para outro fortificado, o Porto Quinta do Noval Vintage Port Nacional 1963!

Já sei, vou pegar um avião hoje mesmo para Paris e entrevistar o próprio Enrico Bernardo sobre isso. Me aguardem!

Breno Raigorodsky; filósofo, publicitário, sommelier e juiz de vinho internacional FISAR

*Enrico Bernardo – A arte de degustar o vinho pelo melhor sommelier do mundo – Companhia Editora Nacional, SP, 2006, pg136
**Obra citada - pg 183
***Obra citada – pg140
(Veja mais sobre decantação de vinhos clicando aqui)

Dicas da Semana

Dicas da Semana de hoje vem com algumas ótimas promoções por parte de nossos parceiros. Estamos chegando na Páscoa e a combinação de vinho com chocolate é algo bastante interessante que a Vinea Store trabalha super legal, inclusive com um curso sobre o assunto. Independentemente do chocolate, temos o tradicional bacalhau e a necessidade de vinhos para harmonizar o que, por aqui não vai faltar opção. Na Portal dos Vinhos, uma bela promoção de Ventisqueros; na Cidade Jardim, aqui na zona Oeste em Sampa, uma bonita loja nova, ótimo para um happy hour, ambiente aconchegante e bons vinhos, é a WinePro do amigo Egidio que já nos traz alguns rótulos com ótimos preços, tendo me chamado a atenção o Chandon Excellence, que para mim segue sendo o melhor espumante nacional, com um ótimo preço. A Porto Mediterrâneo, uma das novas importadoras no mercado, anuncia a chegada de um exclusivo vinho, o Cavas de los Andes Gran Reserva Malbec 2007. Para os amigos da Granja Viana e redondezas, a Bete e Marcel da Grand Cru Granja Viana promovem alguns vinhos bem pontuados que cabem no nosso bolso e a Prima Linea está de volta com um de seus bons italianos com preço reduzido. Também tem os franceses da De la Croix estão com uma promoção em cima de alguns de seus bons rótulos. Isto sem contar que a Kylix do amigo Simon está com Wine Day marcado para dia 1 de Abril. Enfim, lugar e rótulos para garimpar não faltam, bons vinhos com bons preços também não, então aproveitem mais estas Dicas da Semana e não se esqueçam que algumas das promoções da semana passada vão só até dia 30, não deixem escapar!

 

1 – WinePro – fica ali na Av. Cidade Jardim, 976, tel. (11) chandon-excellence2609-2822, um lugar que merece uma visita e o Egidio, proprietário, entende tudo de vinhos. Vejam as boas dicas e preços que ele nos preparou:

– Luigi Bosca Reserva Malbec 2005 – R$ 50,00
– Finca La Linda Tempranillo – R$ 27,00
– De Martino Legado Syrah – R$ 65,00
– Viña Valoria Crianza – Rioja – 2004 – R$ 64,00
– Chateau La Bastide – AOC Corbières 2006 – R$ 41,00

– Chandon Excellence – R$78,00.

 

 

2 – Porto Mediterrâneo – a importadora segue um critério de trabalho que privilegia produtores de médio e pequeno porte pelo caráter mais exclusivo e pela alta qualidade dos produtos finais. Dentro deste conceito, chega o exclusivíssimo Cavas de los Andes Gran Reserva Malbec 2007. Assinado pelo enólogo Alejandro Simon, o vinho produzido na região de Mendoza possui tiragem limitada de apenas nove mil garrafas numeradas. Metade delas ficam na Argentina enquanto a outra metade vêm ao País pelas mãos da Porto Mediterraneo, com transporte impecável em paletes envoltos em mantas térmicas. Segundo Julio Schmitt, diretor da importadora, este rótulo não será comercializado para nenhum outro país e só veio ao Brasil devido à sua antiga amizade com o enólogo.

cavas-del-os-andesDe coloração bordô profunda com nuances violeta, o Cavas de los Andes Gran Reserva Malbec 2007 possui aroma de ameixas e framboesas, além de notas apimentadas e de baunilha cedidas por envelhecimento em carvalho francês. Seu volume e grande corpo o definem como um vinho complexo de grande final. Interessante lançamento a ser conferido. Contatos por telefone em Santa Catarina,  (47) 3263.0006 ou pelo site www.portomediterraneo.com.br.

 

 

 

3 Vinea Store – Ainda no outro dia me deparei perplexo ao comer um pedaço de chocolate amargo quando ainda terminava o vinho do jantar. Nunca tinha me atido a isso e sempre fazia essa harmonização com Porto Ruby, muito bom. A Vinea tem curso só tratando dessa harmonização e eis umas dicas de vinhos com chocolate para presente de Páscoa.

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4 Portal dos Vinhos – Os amigos Emilio e Fátima estão com uma promoção de prima em cima da linha de vinhos Ventisquero. É para não perder!

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5 Prima Línea – Mais uma vez aqui conosco oferecendo um de seus vinhos italianos com 10% de desconto. Já com desconto, este rótulo sai por R$53,40.

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6 – Grand Cru Granja Viana – Vinhos pontuados com preços acessíveis a nós pobres mortais. Eis a lista para os amigos da região fazerem a festa.

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7 De La Croix – Pequeno importador trabalhando com produtores escolhidos a dedo e com preços muito bons, o delicioso Travers de Marceau é uma de sua pérolas, está com uma promoção especial de Páscoa.

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 8Kylix – No dia 01/04 (Quarta Feira) das 17 às 22 horas, mais um WINE DAY na Kylix com mais de 20 rótulos sendo degustados e os sempre bons preços do Simon. Confira abaixo alguns destaques do Wine Day por importadora participante:

Grand Cru

  • Clos de Los Siete ( Argentina), 91 Pontos Robet Parker (safra 2007)
  • Leyda Classic Reseva Pinot Noir (Chile)
  • Palazzo Della Torre(Itália), 89 Pontos Wine Advocate (safra 2005)
  • Hearthland Syrah (Australia), 89 Pontos Robert Parker (safra 2006)

Vinhos do Mundo

  • Matua Shingle Peak Sauvignon Blanc (Nova Zelândia), Troféu de melhor vinho branco do NZ International Wine Show 2006
  • Dominio de Longa (Espanha), 90 pontos Robert Parker(safra 2004)
  • Pardina (Espanha), 89 pontos Robert Parker (safra2005)
  • Punto Final Etiqueta Branc (Argentina), 91 pontos Wine Espectator(safra 2005)

Interfood  

  • Finca Las Palmas Malbec 2006 (Argentina)
  • Dolcetto La Martinera (Itália)
  • Langhe Nebbiolo- Elio Graso (Itália)
  • Espumante Maria de Codorniú (Argentina)

Zahil 

  • Viña Ardanza (Espanha), 85 pontos Wine Espectator (safra 1998), 89 pontos RP (safra 1996)
  • Salamandra (Espanha)
  • Rosso Sangervasio (Itália), 87 pontos Wine Espectator (safra 2003)
  • Rutini Cabernet Merlot (Argentina)

 

Reservas antecipadas: (11) 3825 4422

Capacidade: 80 pessoas

Valor: R$40,00 (descontado nas compras acima deste valor)

Estacionamento: Ao lado R$7,00.

 

Bom garimpo, salute e kanimambo .