João Filipe Clemente

Conte Sua Estória

ou será História? Enfim, recebi hoje a VINOTICIAS semanal que o Márcio de Oliveira me envia direto de Belo Horizonte. Ao final, esta pérola!

“Poucas semanas antes da fundação da ABS/SP, em setembro de 1989, fui com minha mulher e um casal de amigos a um restaurante chamado Tasting, especializado em vinhos, que acabara de abrir. A carta era boa, indicando as uvas com que eram produzidos os vinhos e outras informações. Havia apenas um pequeno erro (a carta dizia que o Muscadet era produzido com a Chardonnay) e como era algo simples de corrigir resolvi avisá-los. Chamei então o maître, que estava próximo, e perguntei: “Vocês têm sommelier aqui”? Ele respondeu de pronto, sem perder a pose: “Não temos não senhor, mas posso pedir ao chef para preparar” Ciro Lilla

Que outras pérolas você já ouviu? Compartilhe conosco e não deixe de participar na construção do contra rótulo ideal no post publicado ontem.

Salute, kanimambo e nos vemos por aqui. O espaço também é seu, participe sem moderação!

Contra Rótulos I – Dê Sua Opinião.

ADENDO EM 13/09:

      Que tal montarmos um contra rótulo como “deveria ser” no nosso conceito de consumidores  e publicá-lo assim como, essa parte me comprometo a fazer, enviá-lo a um bom número de produtores. Não vamos mudar o mundo, isso seria uma utopia, mas talvez possamos provocar uma pequena marola ! Já temos algumas idéias aqui, mas precisamos de mais sugestões, alguém mais se anima a participar?!   

   Tem uns que dizem tudo, até qual a semana do ano em que em que a uva foi colhida, o nível da tosta da barrica usada, quanto tempo de malolática e a que temperatura. Outros entram em frenesi poético com descrições delirantes sobre seus vinhos num processo de auto elogios que chegam a beirar o ridículo. Há aqueles que não dizem nada, mal e mal apontam que o vinho é fruto de “mosto fermentado de uvas viníferas europeias maduras”, duhh! Afinal, qual a função do contra rótulo e o que é que nós consumidores buscamos ao lê-lo? No outro dia na loja, um cliente se apaixonou pelo texto do contra rótulo de um vinho que se descrevia como um néctar dos deuses numa prosa realmente de primeira, verdadeira arma de seduzir incautos já que o vinho, mesmo que bom em seu contexto de preço, é um vinho simples de pouco mais de vinte reais.

          O Eugenio, do ótimo blog Decantando a Vida, publicou um post muito legal com algumas preciosidades dentro os quais retirei uma, o resto você clica no link e lê:

“Da altitude de 1.000m resulta um vinho diferenciado, que guarda segredos para serem desvendados… Abra esta garrafa e liberte o buquê da brisa dos campos e o sabor…”
(vinho Sozo 2005 Cab.Sauvignon/RS-Brasil)

        Afinal, o que você acha que um contra rótulo deveria dizer? Que informações lhe são realmente úteis e que não estão lá, pelo menos na maioria dos rótulos. Nesta semana afora comentar vinhos, publicarei um resumo de alguns artigos que li sobre o tema e achei geniais assim como darei minha opinião sobre o assunto. Neste momento, porém, gostaria de saber sua opinião. O que você busca de informação quando gira a garrafa para ler o contra rótulo?

Salute, kanimambo e fico no aguardo da participação dos amigos.

Semana do Saul

            Apreciador de vinho em função de minha vida como trader visitando o mundo e desfrutando de bons momentos enogastronomicos com clientes nos mais diversos países, me tornei enófilo quando um amigo me presenteou com o livro Tintos & Brancos de Saul Galvão. Foi paixão á primeira página e minha sede pelo saber do vinho se iniciou nesse momento. Depois desse muitos outros vieram, mas sou especialmente grato aos dois, ao James, o meu amigo, e ao mestre Saul Galvão que me iniciou nesta nossa intrigante vinosfera repleta de diversidade onde não existem verdades absolutas e as incertezas e variáveis fazem parte de nosso dia a dia. Acima de tudo, me ensinou que o nosso mundinho do vinho não deve ter frescuras nem este deve ser colocado em inatingíveis patamares. Quando comecei a escrever, tanto as colunas quanto este blog, uma frase dele me marcou e virou meu mantra. Quero aqui, neste dia especial em que ele nos deixou fisicamente, compartilhar com os amigos leitores essa frase que está em minha página “sobre” aqui acima.

“O vinho só existe para dar prazer. Se ele deu prazer, cumpriu sua função, independentemente de regras cânones e opiniões alheias. Costumo dizer que o vinho precisa descer do pedestal no qual foi colocado por alguns esnobes e pretensos entendedores e ser colocado em seu lugar, que é o copo. Nada mais chato que um esnobe do vinho, que fala pomposamente, como se ele fosse o único ungido a entender termos herméticos.”

        Salute mestre, saudades, meu brinde hoje é para você para quem tiro meu chapéu. Kanimambo e que teus ensinamentos sigam iluminando o caminho dos seguidores de Baco nesta eterna viagem de descobrimentos pelo saboroso mundo dos sabores. Bom fim de semana a todos.

Wines of Chile na Taça

O Chile me surpreendeu este ano com uma série de novidades muito interessantes e consagração de velhos conhecidos, como já publiquei em post anterior. No entanto, todo o enófilo que se preze quer mesmo é conhecer o inusitado, o diferente, o novo, então achei que poderia compartilhar com os amigos que não tiveram a oportunidade de visitar a Wines of Chile, alguns desses destaques.  Mas de que forma? Como são muitos vinhos, preparei uma degustação super especial, veja abaixo, então não deixe passar esta oportunidade de conhecer diversos novos rótulos, a forma mais barata e descontraida de descobrir novas paixões!

No Próximo dia 12 de Setembro às 20 horas, vamos degustar na aconchegante Vino & Sapore (veja link aqui do lado) parte dos vinhos que foram destaque na Wines of Chile deste ano, serão sete rótulos. Os vinhos não necessariamente estarão á venda, aliás quem for poderá até dar seus pitacos nesse sentido, porém certamente será uma experiência única para apenas 13 pessoas que investirão apenas R$40,00 (pagos antecipamente na reserva) para participar desta degustação e, na faixa, poderão provar mais seis/sete vinhos no dia 20! Nesta primeira parte do programa iremos degustar:

  • Falernia, produtor do Vale do Elqui, nova região produtora no extremo norte do Chile, nos trará dois rótulos, um delicioso branco á base de Viognier e um Carmenére diferenciado que passa por um processo passito, como do Amarone, em 60% do vinho.
  • William Févre, famoso produtor de Chablis na Borgonha, possui um projeto muito interessante no Chile e escolhemos dois vinhos que me chamaram a atenção. O Espino Grand Cuvée Chardonnay  e o Chacai, um vinho elaborado com Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, que foi destaque para mim e vários colegas da imprensa e blogs suplantando o top da bodega. Já chegaram algumas poucas garrafas.
  • Volcanoes de Chile, um novo projeto do grupo San Pedro, um dos gigantes do setor, que só produz vinhos em regiões de solo vulcânico. Me atraíram dois vinhos em especial, na verdade três mas um só virá em 2012, que espero tenham o mesmo impacto sobre vocês que tiveram sobre mim – o Summit 2010, delicioso Sauvignon Blanc, e um dos três vinhos que mais me chamaram a atenção nessa feira, o Perinacota, divino corte de Syrah com Carignam.
  • Haras Character Syrah, um vinho que é uma taça cheia para quem gosta desta cepa. Potência com elegãncia, caracteristica dos bons vinhos. Este já chegou!

Neste dia 12 provaremos três vinhos brancos e quatro tintos.  Já no dia 20, os rótulos que estarão presentes na degustação serão: Rayun Chardonnay Reserva e Chono, De Martino Old Busch Carmenére/Malbec, Chocalán Blend  e Gewurztraminer e duas surpresas a conferir no dia! Tá esperando o quê para ligar ou enviar e-mail com sua reserva? Vino & Sapore – comercial@vinoesapore.com.br ou (11) 4612.6343/1433

Salute e kanimambo, aguardamos seu contato na Vino.

Mais um Tuga na Taça

Fazia um tempinho que não falava de vinhos portugueses e, de repente, eis que dois aparecem na minha taça e os dois Alentejanos. Um já postei, o Tapada do Fidalgo Reserva, e este é o Solar dos Lobos Colheita Selecionada , um vinho de muito boa estrutura não negando suas origens, mostrando bem a tipicidade dos vinhos da região que tanto agradam os gostos brasileiros. Aroma de boa intensidade, onde se nota a fruta madura (ameixa) algo compotada. Toque herbáceo, taninos firmes mas finos e aveludados, bom corpo, denso com uma acidez bem balanceada e um final de boca muito rico e longo mostrando-se bastante complexo. Um vinho que consegue como poucos, unir elegância e potência formando um conjunto profundamente marcante. Picanha na brasa e Bife de Chorizo devem-lhe servir de boa escolta. Corte muito bem elaborado com uvas tradicionais, Trincadeira/Aragonês/Touriga Nacional e a Cabernet Sauvignon que agrada muitíssimo e vale a pena conhecer. Com um preço ao redor dos R$65,00 é uma bela relação custo x beneficio  e meu I.S.P para este vinho na minha taça é: $ . Importação Mercovino.

Salute e kanimambo. Bom feriado para todos e nos vemos por aqui!

Kanimanbo Saul.

                 È, já lá se vão dois anos de saudade do mestre e mentor! Num país de memória curta, quis homenagear aquele que incentivou tantos sem jamais se achar professor, mas foi. Deixou um montão de seguidores órfãos, eu um deles, que muito lhe devem. Dia 9 fará dois anos que fomos privados de seus comentários semanais no jornal e suas famosas tiradas cheias de sabedoria fruto de sua enorme experiência. Um craque do metiê que nunca perdeu a simplicidade e humildade estando sempre disposto a compartilhar seu conhecimento com todos nós. Comecemos a Semana do Saul relembrando algumas de suas célebres frase!

“O vinho foi feito para dar prazer. Os esnobes é que complicam o assunto.”

“Vinho bom é o vinho que acaba primeiro.”

“Não há vinho caro. Nós é que ganhamos pouco”

“O que eu queria mesmo era ser nobre, sabe? Beber, comer e fazer tudo que faço, mas sem ter que escrever depois.”

“O espumante nacional é motivo de orgulho, mas não precisa tomar cantando o hino.”

“o cardápio é o contrato do cliente”.

“Aliás, quando se fala em vinhos, nunca há uma palavra final, mas sim opiniões, que podem ou não ser bem sustentadas. Só uma opinião importa, a sua.”

Salute e uma ótima semana a todos. Kanimambo Saul.

Um Afago do Maledetto

Depois de tanta aberração e descompasso com a realidade, finalmente alguém teve o bom senso de alterar a legislação no tocante á obrigatoriedade de todos os estabelecimentos comerciais somente venderem vinhos selados independentemente de quando foram importados e comercializados a partir de Janeiro próximo. Agora essa obrigatoriedade só terá efeito em Janeiro de 2015. Na verdade é um pouco aquela história do bode na sala, pois não refresca muita coisa, mais um paliativo típico de nossa Terra Brasilis que adora tapar o sol com a peneira!

           Se quisessem, efetivamente, corrigir erros, o correto seria simplesmente definir que produtos importados antes da lei e devidamente cobertos pela documentação pertinente,  estão com sua venda liberada. Me parece, mesmo não sendo jurista,  que aí sim existiria justiça fiscal, até porque não dá para uma lei ser aplicada retroativamente.  Fácil, fácil, mas como adoram complicar as coisas…….ficamos com esse afago e damos vivas! Triste e frustrante, então me desculpem se não solto rojões. De qualquer forma, segue na íntegra a resolução:

IPI – ALTERADA A LEGISLAÇÃO SOBRE A APLICAÇÃO DO SELO DE CONTROLE NO ENGARRAFAMENTO DE VINHOS
PUBLICADA EM 01/09/2011 – 08:51

Foi prorrogada de 01/01/2012 para 01/01/2015 o prazo de sujeição ao selo de controle pelos estabelecimentos atacadistas e varejistas que comercializam os vinhos classificados no código 2204 da Tabela de incidência do IPI
(TIPI). Os estabelecimentos artesanais e caseiros, não associados a cooperativas, com produção anual não superior a 20.000 litros de vinhos, estão dispensados da aplicação do selo de controle.

( INSTRUÇÃO NORMATIVA RFB N – 1.188/2011 DOU 1 DE 31/08/2011 )

Fonte:  Editorial IOB

Salute, kanimambo e bom fim de semana.

Harmonizando Sobremesas

              Harmonização, uma arte que poucos dominam e que nós eventualmente acertamos! Desta feita algumas experiências que deram certo e que decidi compartilhar com os amigos. A primeira é clássica, um bom chocolate com vinho do porto. Até aí tudo normal, porém se esses chocolates forem as Ballas de Chocolate da Isa Amaral, um delicioso produto artesanal receita antiga de família, e um Porto Ruby Reserva Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo ou um Graham´s LBV, aí é o nirvana! Um complementa e destaca o outro num processo em que a taça teima em ficar vazia e as Ballas, bem essas somem rapidinho.

          Para quem gosta/prefere colheitas tardia, então vai aqui a minha dica pelo muito saboroso Viña Alicia Vendimia Tardia (Viognier/Sauvignon Blanc e Sauvignon Gris) argentino que surpreende os mais finos paladares. Cremoso, muito bem equilibrado que cresce com uma deliciosa cesta de sorvete de creme banhado em calda quente de framboesa fresca e uns suspiros para finalizar a decoração. Bom demais da conta sô!

            Não quer doce e prefere se aventurar no garimpo de sabores diferentes. Então, este sem foto, tente finalizar sua refeição comendo queijo gorgonzola com torradinhas e acompanhe com um bom espumante Moscatel nacional. Baixe a guarda, exponha-se a novos sabores e surpreenda-se!  

Salute e kanimambo.

Tapada do Fidalgo Reserva, Um Vinho – Dois Momentos

Começou na Sábado á noite. Ao fechar a loja após um dia bem puxado, me lembrei deste vinho que recebi para prova e o trouxe para casa. Papo vem, papo vai, queijinho na mesa, abri a garrafa e servi duas taças deixando-as descansar por uns 10 a 15 minutos antes de proceder à prova. Interessante vinho que, aparentemente, foi elaborado somente para o Brasil o que, a meu ver, já é algo que me incomoda, pois mostra bem a visão mercadológica do produtor que produz de acordo com a cara do cliente. Sei, este mundo do vinho também é business, mas  …… sei lá, não me cai bem, fazer o quê? Enfim, mas o propósito era o de degustar o vinho e tecer minha opinião sobre ele, então vamos seguir com o ritual e nos ateremos ao caldo.

              Como já disse, um vinho interessante elaborado com blend caracteristico alentejano (Aragonez/Alicante Bouschet/Trincadeira) que traz um primeiro impacto olfativo muito frutado, ameixa compotada, uva passa, seguido de nuances de tostado provavelmente advindas de seus 12 meses de barrica , porém o álcool (14%) insistia em se sobrepor incomodando um pouco. Na boca mostrou boa textura, taninos finos, maduros e sedosos já bem equacionados sem qualquer agressividade, corpo médio para encorpado, acidez no ponto, finalizando com especiarias, formando um conjunto interessante, porém com algumas arestas já que lhe faltava equilíbrio, descendo algo quente. Um vinho que não me chegou a empolgar, não tendo, num primeiro instante, me dado razões para concordar com a Gula que o premiou como melhor tinto do ano em recente edição da revista, tendo criado uma expectativa que o vinho, a meu ver, não alcançou.

Todavia, como já diz o amigo Álvaro Galvão, um vinho tem que sempre ter uma segunda chance e, considerando-se seus taninos já bem equacionados e seu teor alcoólico um pouco desbalanceado, achei que o vinho merecia ser provado, devendo melhorar bastante, com um serviço  a temperaturas algo mais baixas, já que o estava tomando em torno dos 18º e, por outro lado, a pizza de calabresa não harmonizou legal. Vacu-vin na garrafa e geladeira nele já que domingo iria preparar um bombom de búfalo que meu amigo Eduardo me recomendou.

Sequência, Domingo ao lado da churrasqueira. Carne devidamente preparada, peguei a garrafa para a segunda etapa desta degustação. Vinho na taça e cerca de quinze minutos depois o vinho chegou a uma temperatura que achei poderia ser ideal, algo ao redor de 15º e o vinho se houve maravilhosamente bem nessa faixa, encontrando seu equilíbrio sem perder a boa fruta, mantendo uma acidez correta , tendo seu corpo médio harmonizado muito bem com a carne bem delicada e sequinha, sem excessos de gordura. O álcool que insistia em se manifestar no Sábado, agora estava contido, harmonizado no todo de forma muito agradável e imperceptível. Segunda chance dada e entendi o resultado da Gula, pois o vinho mostrou ser realmente uma bela pedida numa faixa de preços ao redor de R$60,00, (ótimo a R$45/49 como pesquisei na net) só não seria o meu tinto do ano! No meu modo de pensar, para ser vinho do ano este ou qualquer outro caldo precisa ser aquilo que este não é, nem penso que seja essa sua pretensão, um grande vinho. Aí, no entanto, depende do que cada um provou para chegar nessa conclusão e dos degustadores participantes das provas, certo?! Por mais que queiram negar, existe uma enorme carga de subjetividade pessoal nessas avaliações.

       Agora, que o vinho é realmente saboroso, bom e bem feito não há sombra de duvida,  porém acho que há que se prestar bem atenção na temperatura de serviço pois fez uma tremenda diferença tomá-lo a 15/16º, contrariamente ao que o produtor recomenda, certamente um vinho que eu repetiria, já a 18º ou mais, não sei não. Bem pessoal, faz tempo que meus smiles não davam as caras por aqui então, só para matar saudades aqui vai meu I.S.P. para este vinho >    . Importação Adega Alentejana.

Salute e kanimambo. Uma ótima semana para todos e seguimos nos encontrando por aqui.

Mais um Azarão Faturando uma Degustação às Cegas

breno3O amigo e colaborador Breno Raigorodsky volta e meia retorna a este blog com crônicas e relatos que deixam sempre algo para se pensar, não fosse ele também um filósofo! Neste momento em que o trabalho, aquele que rende (!), toma conta de todo o meu tempo e a inspiração teima em não aparecer, o Breno nos envia este interessante texto. Aproveitem o fim de semana para ler e reler tirando suas próprias conclusões. Salute e kanimambo.

          “Espero que você não fique angustiado com o que vai ler a partir daqui, pois suas certezas mais uma vez irão parar no lixo. Quem deveria ganhar esta degustação, o vinho mais caro ou o mais barato? Quem deveria estar no topo, o famoso Barbaresco, o consagrado Barolo o simples Nebbiolo, ou ainda o mais improvável Barbera? Numa degustação anterior, quando o mundo dos vinhos do sul do Rhone ganhou uma amplitude muito maior do que se esperava ao vermos os Côte de Ventoux mostraram-se a altura de qualquer disputa regional, desbancando os vinhos mais notáveis da degustação Chateauneuf-du-Pape incluso, ocorreu algo igual.

       Mas não, não me sinto nem um pouco privilegiado pela originalidade com estas surpresas. Agora mesmo corre pela internet um vídeo no youtube de uma degustação feita com gente muito séria e competente, onde um vinho de 14 Euros (Chateau Reignac) tirou segundo lugar, numa prova às cegas onde estavam presentes alguns dos maiores monstros sagrados da literatura específica, grandes Bordeaux, como Petrus, Lafite, Latour, Ausone etc. todos eles custando acima de 700Euros, numa desproporção que “echape”! Desde 1976, aliás, desde que os californianos bateram os franceses em terra gaulesa, as surpresas nas degustações não pararam mais.

 Agora, me permitam esticar um pouco mais esta digressão.

       Somos um poço de inseguranças trasvestidas em certezas, quando se trata de impressões sensoriais e nas degustações às cegas isso fica super evidente. Tateamos claudicantes por um castelo de cartas sempre muito disposto a desabar, feito por expectativas. Sintomático é o caso que apareceu há meses no Estadão de uma experiência feita nos EUA, onde experientes degustadores foram chamados a escolher entre dois vinhos, sabendo que o primeiro custava o quádruplo do segundo, US$80,00 e US$20. A preferência massacrante caiu sobre o primeiro, apenas por conta da excitação que a relação preço/qualidade cria em nossos neurônios porque eram exatamente iguais, eram gêmeos em garrafas diferentes, como se mostrou aos degustadores no fim do teste, para total insatisfação e incredulidade desses!

       Estas inseguranças se escondem sob a forma de informação adquirida em literatura. De fato, um vinho é melhor que o outro por várias razões bem objetivas – complexidade, tempo potencial de guarda, afinamento em madeira nova, afinamento em garrafa por determinado tempo, qualidade da vinificação, solo, clima e plantação em condições ideais, etc. E, no entanto, essas condições serão apenas percebidas como atributos positivos se forem perfeitamente alinhados com condições subjetivas tão importantes quanto – o perfume conhecido exalado pela cepa reconhecida, a cor, a untuosidade e a densidade esperados, servido na temperatura e nas condições reconhecidas ou esperadas.

 Desta feita, numa aula sobre vinhos do Langhe Piemontês, a coisa se complicou por várias razões –

  1. Lá se produz alguns dos vinhos mais desejados do planeta, aspiração dos amantes do vinho em geral, parte componente de um grupo de vinhos que sempre foram muito queridos, desde os tempos que a burguesia queria consumir o que era privilégio da aristocracia. Barolo era o vinho da corte italiana, o “vino dei re, Il re dei vini”. Se não fosse por outra razão, ele se revestiu sempre de uma aura de qualidade apenas abaixo dos vinhos dos reis vindo de Bordeaux e da Borgonha.
  2. Frustrados ficaram os que esperavam mais do Montestefano, por exemplo, um vinho que se sai com 93 pontos dados pelo Robert Parker e o que tem a melhor avaliação entre os degustados é visto assim pela equipe do Wine Advocate: “O Barbaresco Riserva 2005 Montestefano apresenta um núcleo de rosas maduro, pleno de framboesas e especiarias em torno, um vinho redondo e sensual, um Nebbiolo. A complexidade continua com couro, alcaçuz e anis num acabamento sublime e outras nuances. É um grande vinho…”
  3. Ao mesmo tempo, ao contrário dos vinhos franceses mais importantes, cuja cepa e vinificação vêm sendo imitadas e recriadas ad nauseum não apenas no Novo Mundo mas também no Velho Mundo, os grandes italianos do norte são quase desconhecidos, pois suas uvas não pululam por aí. Portanto, os degustadores esperavam afirmar impressões literárias e menos reconhecimentos sensoriais.
  4. Ao contrário dos Barolo e Barbaresco, mas na mesma força em vetor apontado para o outro lado, os Barbera e Langhe Nebbiolo, são percebidos como menores pela literatura. Portanto havia de se esperar menos concentração, menos complexidade. Aqui também, o número de goles destas uvas por participante estava abaixo de duas taças, vida afora!
  5. Os vinhos de hoje estão diferentes dos vinhos de ontem. Mesmo um Barolo, mesmo um Bordeaux, com toda a sua imponência, não resiste aos apelos do mercado comprador, bastante diferente do de 20 anos atrás. Faz-se grandes vinhos muito mais leves e amistosos, assim como se faz vinhos com as uvas menos nobres com toda a nobreza possível na vinificação, exigências do mercado! Ou seja, nebbiolo trabalhado com menos pompa e circunstância, Barbera tratado como se fosse uma uva cujo potencial não tinha sido ainda explorado. Eu, que ousei gostar demais do Barbaresco Santestefano, não o reconheci Barbaresco por um minuto sequer, menos pela complexidade de frutas e florais característicos, mas pela aparência transparente e o sabor muito pronto. Me enganaram direitinho, pois juraria que ele era um Langhe, jamais um Barbaresco, com seus 30 meses de madeira e 24 de garrafa!

 O campeão foi um Barbera D’Asti, desbancando o citado Barbaresco Montestefano e o Barolo Camilano, vinhos que custam entre duas e três vezes mais. Eis todos os rótulos que estiveram presentes na degustação, pela ordem:

  1. Barbaresco Montestefano 2005.
  2. Tenuta Carreta Barbaresco Garassino 2004.
  3. Tenuta Carreta Nebbiolo D’Alba Tavoleto 2008.
  4. Barolo Camilano 2001.
  5. Barbera D’Asti Superiore Valfieri 2005.
  6. Massolino Barbera D’Alba.

     Todos foram degustados pelos 10 participantes em duas passagens às cegas, uma primeira a pão e água, uma segunda com a colunata ou bresaola e o plin regado a azeite de trufas que o Pier Paolo Pichi nos serviu, e finalmente uma terceira passagem, então sem a proteção de alumínio, e acompanhada pelo pato, que fechou a nossa bateria de pratos salgados.

      O nº5 ganhou nas duas primeiras passagens com alguma folga (6 votos e 7 votos, contra 3 votos para o nº4), embora a disputa fosse intensa, já que todos foram unânimes ao dizer que esta foi das degustações mais equilibradas das 10 que já fizemos.”

Mais um texto do amigo e colaborador, Breno Raigorodsky; 59, filósofo, publicitário, cronista, gourmet, juiz de vinho internacional e sommelier pela FISAR. Para acessar seus textos anteriores, clique em Crônicas do Breno, aqui do lado.